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Como o acordo Mercosul-UE beneficia o Brasil? Entenda

Maria Reis por Maria Reis
13 janeiro, 2026
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Tempo de leitura: 7 minutos
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Acordo pode diversificar mercados, aumentar exportações de alto valor e modernizar a produção, em meio a restrições da China e exigências europeias

Imagem: Marcos Oliveira/Agência Senado

A possível consolidação do acordo comercial entre a UE (União Europeia) e o Mercosul, com confirmação do voto entre as nações prevista para às 13 horas, ocorre em um momento particularmente sensível para o agronegócio brasileiro.

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Mais do que uma abertura adicional de mercado, o tratado passa a ser visto como peça-chave de diversificação comercial em um cenário no qual o principal destino da carne bovina brasileira, a China, começa a impor limites mais claros ao ritmo das importações.

Após mais de duas décadas de negociações, o acordo UE–Mercosul tem potencial para provocar uma das maiores reconfigurações no comércio agrícola global das últimas décadas.

Para o Brasil, representa a possibilidade de ampliar exportações com maior valor agregado para um mercado sofisticado e com maior previsibilidade institucional. Para a União Europeia, o desafio é conciliar interesses geopolíticos, proteção ambiental e forte pressão interna de produtores rurais. 

Segundo o professor Marcos Jank, do Insper Agro, a disposição europeia em avançar com o acordo está diretamente ligada a fatores que extrapolam o comércio agrícola.

Em declarações à CNN, ele afirma que a Europa busca reforçar alianças estratégicas diante de movimentos geopolíticos globais, incluindo a aproximação entre Rússia e China e o reposicionamento dos Estados Unidos na América Latina.

“A UE vê o Mercosul não apenas como parceiro econômico, mas também estratégico em termos de segurança alimentar e geopolítica”, disse Jank. 

Peso do agro brasileiro

Os dados mostram que a UE já ocupa papel central no agro brasileiro, mesmo sem o acordo em vigor.

Nos 11 primeiros meses de 2025, as exportações agropecuárias do Brasil para o bloco europeu somaram US$ 22,89 bilhões, segundo o sistema Agrostat, do Ministério da Agricultura, valor menor que os US$ 27,71 bilhões registrados no mesmo período de 2024, mas com representação de 48,5% de todas as vendas externas do setor. 

A carne bovina é um dos principais destaques: os embarques para a UE alcançaram US$ 820,15 milhões de janeiro a novembro, um salto de 83,2% na comparação anual — ficando atrás apenas de China e Estados Unidos como destino em termos de valor.

Na carne de frango, o bloco foi o sexto principal destino, com US$ 457,99 milhões exportados. Já no café verde, a UE foi o principal destino, com US$ 6,43 bilhões em vendas nos 11 primeiros meses de 2025 — US$ 1,22 bilhão a mais que no mesmo período de 2024. 

No complexo soja, a UE foi o terceiro maior destino, com quase US$ 6 bilhões em embarques. Na celulose, mesmo com queda de 12,9% nas exportações, o bloco manteve-se como o segundo maior mercado, respondendo por 21,1% do total exportado, com receitas de US$ 1,98 bilhão. 

Se o acordo entrar em vigor, está prevista a redução ou eliminação de tarifas para produtos como carnes, açúcar, etanol, suco de laranja, café e celulose — medidas que podem ampliar ainda mais a competitividade brasileira no mercado europeu. 

Concessões europeias para viabilizar o acordo

Para reduzir a resistência interna na UE, especialmente entre agricultores de França, Itália e Hungria, a Comissão Europeia anunciou que vai reduzir tarifas de importação sobre certos fertilizantes que são insumos básicos para a agricultura do bloco.

A proposta prevê zerar as tarifas padrão de 6,5% sobre a ureia e de 5,5% sobre a amônia — dois dos fertilizantes mais usados na produção. 

Além dessa proposta, a UE também estuda medidas para permitir a suspensão temporária da taxa de carbono na fronteira (CBAM) para determinados produtos importados, reduzindo custos no curto prazo para os agricultores europeus.  

Salvaguardas europeias

Ao mesmo tempo em que avança na abertura comercial, a União Europeia reforça mecanismos de proteção internos.

Entre eles, foi criado um “gatilho automático”. Se as importações de produtos agrícolas do Mercosul crescerem mais de 8% em relação ao ano anterior, a Comissão Europeia pode abrir investigações e adotar medidas corretivas, como reintroduzir tarifas temporárias ou limitar volumes.  

Esse percentual de 8% representa um meio-termo político entre propostas anteriores, que iam de 5% a 10%, e se aplica principalmente a cadeias consideradas sensíveis, como carne bovina, frango e açúcar, que têm forte peso político na Europa. 

As exigências ambientais continuam sendo um ponto de tensão, incluindo demandas por combate ao desmatamento, rastreabilidade da produção, cumprimento rigoroso de normas sanitárias e respeito a compromissos climáticos internacionais. Tais exigências elevam custos e tendem a favorecer grandes produtores já organizados. 

Resistência no campo europeu

Na Europa, o acordo enfrenta forte oposição de agricultores radicalmente contrários à liberalização comercial, temendo concorrência com produtos do Mercosul produzidos a custos mais baixos e sob regras ambientais consideradas menos rigorosas do que as da UE. Esses protestos têm gerado bloqueios e pressões políticas, especialmente na França.  

O ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres, Rubens Barbosa, afirmou: “A resistência de alguns países europeus não é contra o Mercosul em si, mas reflete disputas internas entre produtores tradicionais e emergentes dentro da UE. O Brasil acaba sendo um alvo externo dessas tensões.” 

Importância da diversificação

Enquanto a Europa debate salvaguardas preventivas, a China — principal destino da carne bovina brasileira — implementou um sistema de cotas que entrará em vigor em 1º de janeiro de 2026, estabelecendo uma cota inicial de 1,106 milhão de toneladas com tarifa de 12% dentro da quota e uma sobretaxa de 55% fora dela — resultando em uma tarifa total de 67% sobre volumes excedentes. 

Em 2025, as importações chinesas de carne bovina brasileira somaram aproximadamente 1,7 milhão de toneladas, o equivalente a 48,3% de todo o volume exportado pelo Brasil. Frente a isso, entidades como ABIEC e CNA afirmam que ajustes na cadeia produtiva serão necessários para evitar impactos mais amplos sobre pecuaristas e exportadores. 

Europa como alternativa estratégica

Nesse contexto, o acordo UE–Mercosul ganha ainda mais relevância para o agronegócio brasileiro. Embora o mercado europeu seja mais exigente e politicamente sensível, ele oferece maior previsibilidade institucional e valor agregado. 

Para Marcos Jank, o acordo UE- Mercosul é “superinteressante” para os dois blocos, mas exige pragmatismo. “A União Europeia não será flexível, e o Brasil precisará transformar exigências em vantagem competitiva. Em um cenário de protecionismo seletivo, a diversificação de mercados deixa de ser opção e passa a ser estratégia central para o futuro do agronegócio brasileiro”, disse. 

Rubens Barbosa reforça: “O desafio do Brasil é alinhar política externa e estratégia comercial de forma que o país se beneficie sem se expor a choques externos.” 

Por: Fernanda Pressinott | Fonte: CNN Brasil

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