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Opinião: Da ousadia ao pé no freio? O alerta deixado pela Agrishow 2026

Fabio Palaveri por Fabio Palaveri
4 maio, 2026
em Exclusivas, Leia mais
Tempo de leitura: 7 minutos
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Entrada principal – Agrishow 2026 | Foto: Maria Reis

Por: Fábio Palaveri

A 31ª edição da Agrishow 2026, realizada em Ribeirão Preto, terminou com um dado que merece atenção: queda de aproximadamente 22% nas intenções de negócios em relação ao ano anterior. Foram R$ 11,4 bilhões prospectados, contra mais de R$ 14 bilhões registrados em 2025. É claro que esse número precisa ser analisado com cuidado, afinal, estamos falando de intenção de compra, e não necessariamente de negócios efetivamente fechados. Ainda assim, ele funciona como um termômetro importante. E, neste ano, esse termômetro confirmou uma percepção que já vinha sendo sentida por quem esteve presente na feira.

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A profissão de jornalista nos dá uma oportunidade privilegiada: ouvir diferentes lados do setor. Em uma feira como a Agrishow, conversamos com produtores, empresários, executivos, fornecedores, representantes comerciais, lideranças e profissionais que vivem o agro todos os dias. Ao longo da edição deste ano, uma percepção se repetiu em diversas conversas: a feira parecia mais cautelosa, menos intensa e, para muitos, um pouco mais vazia do que em anos anteriores. Mas uma percepção, sozinha, não basta. Quando os números vieram à tona, aquela sensação deixou de ser apenas uma impressão de corredor e passou a revelar algo mais concreto sobre o momento vivido pelo agronegócio brasileiro.

É importante deixar claro: a Agrishow não foi um fracasso. Muito pelo contrário. Continua sendo a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, com estrutura de alto nível, grandes expositores, marcas relevantes e impacto direto na economia de Ribeirão Preto e macrorregião. Hotéis, restaurantes, transporte, comércio e toda a cadeia de serviços ligada ao evento seguem sendo fortemente movimentados pela feira. A Agrishow continua sendo um sucesso. Mas, em 2026, ela mostrou um agro diferente: não menos importante, não menos tecnológico, mas claramente mais pressionado.

Quando essa vitrine mostra menor intenção de negócios, menor ritmo de investimento e um público mais cauteloso, é preciso olhar além do evento. O que se viu em Ribeirão Preto não foi apenas uma oscilação de feira. Foi o reflexo de um setor que chega a 2026 sufocado por uma combinação pesada de fatores econômicos, políticos, geopolíticos e estruturais.

O custo do dinheiro

O primeiro deles é o custo do dinheiro. Com a taxa Selic em 15% ao ano, o Brasil vive um dos ambientes de crédito mais caros das últimas décadas. Isso impacta diretamente a tomada de decisão, especialmente em uma feira fortemente ligada à comercialização de máquinas, equipamentos e tecnologias para o campo. Comprar ficou mais difícil. Financiar ficou mais caro. Decidir ficou mais arriscado.

Ainda assim, existe uma diferença importante entre máquinas e insumos. Máquina, muitas vezes, pode esperar. O produtor pode alongar o uso, fazer manutenção, preservar o equipamento e adiar uma renovação por mais algum tempo. Insumo, não. Fertilizantes, corretivos, adubação, defensivos e outros custos operacionais voltam a cada safra e, em algumas culturas, aparecem mais de uma vez ao ano. O produtor pode até postergar um investimento em tecnologia, mas não consegue simplesmente ignorar os custos que são padrão de uma boa produção.

E esses custos também estão pressionados. A instabilidade geopolítica, especialmente no Oriente Médio, tem impacto direto sobre fretes, seguros, rotas logísticas e oferta de fertilizantes. Para um país como o Brasil, altamente dependente da importação de insumos agrícolas, esse cenário pesa muito. Produzir ficou mais caro, e financiar essa produção também.

Segundo estudos, hoje para cada R$ 1 de lucro, o produtor rural paga R$ 3 em juros. A carteira de crédito estressado no setor, envolvendo atrasos e renegociações, cresceu 71% em um ano, atingindo R$ 123,6 bilhões. Com o esgotamento dos recursos públicos subsidiados, 81% das renegociações já ocorrem com juros livres de mercado, que podem superar 30% ao ano. Esse dado talvez seja um dos mais duros para entender o momento: o problema do agro brasileiro, hoje, não é falta de capacidade produtiva. É custo financeiro.

Não estamos falando de um setor que perdeu relevância. Estamos falando de um setor que continua produzindo, investindo quando possível, gerando empregos e movimentando a economia, mas que passou a operar sob pressão muito maior. O agronegócio brasileiro já se acostumou a enfrentar crises de tempos em tempos. O setor é cíclico, depende de clima, mercado, câmbio, logística, crédito e demanda internacional. Mas 2026 parece trazer uma combinação especialmente delicada.

Ano eleitoral

Além dos juros e dos insumos, há também o componente político. Ano eleitoral no Brasil naturalmente aumenta a incerteza. Empresas seguram decisões, investidores aguardam definições e o mercado passa a operar com mais cautela. Independentemente de quem vença, o período eleitoral costuma pressionar expectativas, câmbio e decisões de longo prazo. Em um ambiente já apertado, esse fator pesa ainda mais.

Há também problemas estruturais que seguem sem solução. A falta de mão de obra qualificada é um deles. Hoje, esse desafio aparece em praticamente todos os segmentos: campo, indústria, manutenção, gestão, tecnologia, operação e logística. Muitas empresas têm vagas abertas, mas encontram dificuldade para contratar profissionais preparados. Isso limita crescimento, compromete eficiência e aumenta custos.

Como se já não bastasse isso, ainda temos a burocracia brasileira, que continua sendo um obstáculo permanente para quem produz. O produtor rural, seja pequeno, médio ou grande, precisa lidar com crédito caro, insumo pressionado, legislação complexa, exigências ambientais, insegurança política e ainda com uma imagem pública muitas vezes distorcida. Em determinados debates, o agro ainda é tratado como vilão, como se produzir alimentos, energia e desenvolvimento fosse incompatível com responsabilidade ambiental e social.

Essa demonização não ajuda o Brasil. Pelo contrário, empobrece o debate e afasta soluções técnicas. O setor tem problemas, como qualquer outro, e precisa ser cobrado quando necessário. Mas também precisa ser reconhecido pelo que representa: produção, emprego, renda, exportação, energia renovável e segurança alimentar. Generalizar o agro como inimigo do país é desconhecer a realidade de quem trabalha todos os dias para manter essa engrenagem funcionando.

O bom e velho arroz com feijão

Por isso, 2026 parece ser o ano do arroz com feijão bem feito. Não é o ano das grandes aventuras. É o ano de fazer mais com menos. De otimizar operações, preservar caixa, rever processos, cortar desperdícios e proteger margem. Em conversas com empresários, acionistas e lideranças do setor, essa mensagem aparece com frequência: o momento pede eficiência, gestão e cautela.

Essa talvez seja a principal mudança de comportamento captada pela Agrishow 2026. O agro brasileiro sempre foi visto como desbravador. Um setor que abre caminhos, incorpora tecnologia, expande fronteiras produtivas, assume riscos e transforma desafios em oportunidades. Mas, neste momento, até o agro desbravador precisa ser cauteloso. E cautela não significa fraqueza. Significa leitura de cenário.

Apesar de tudo isso, não acredito em colapso. O agro brasileiro já enfrentou crises mais severas antes e encontrou caminhos para atravessá-las. O setor se reinventou com tecnologia, gestão, profissionalização e eficiência. O Brasil continua sendo uma potência agrícola e energética, com solo fértil, escala territorial, capacidade produtiva, matriz renovável relevante e um modelo de produção observado por muitos países.

O ponto é que, mais uma vez, o maior desafio talvez não esteja dentro da porteira. Está no ambiente econômico, político e institucional que cerca o setor. O produtor faz sua parte, mas precisa de condições mínimas para continuar investindo, contratando, produzindo e competindo.

No fim, o agro não é apenas um setor. Trata-se de pessoas. Pessoas que produzem, arriscam, empregam, enfrentam clima, mercado, juros, política e incerteza. E são essas pessoas que, mais uma vez, vão juntas encontrar uma forma de atravessar a crise. Porque se existe algo que a história já mostrou, é que o agro brasileiro pode até desacelerar diante das dificuldades, mas jamais deixa de seguir em frente.

Fábio Palaveri – Jornalista com atuação na cobertura do agronegócio, especialmente na esfera bioenergética. Atualmente é editor-chefe do Portal Visão Agro, veículo online de notícias voltado ao setor. Acompanha feiras, eventos corporativos, empresas e movimentos estratégicos do agro nacional, sempre em contato com empresários, lideranças e profissionais do segmento.

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