Participação dos EUA nas exportações do setor é pequena, mas importante para algumas cadeias produtivas

A taxação adicional de 25% dos Estados Unidos sobre produtos brasileiros entra em vigor nesta quarta-feira (22/7). A medida foi anunciada na semana passada pelo governo Trump, sob a justificativa de uma investigação comercial a cargo do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) baseada na Seção 301 da legislação comercial dos EUA.
Uma série de isenções a produtos agropecuários foi anunciada, que representam 63,5% do valor das exportações do agronegócio brasileiro para o mercado americano, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
“Segundo os EUA, a ampliação das exceções reflete a dependência da indústria americana de determinados insumos brasileiros, a insuficiência na oferta doméstica e os possíveis impactos sobre cadeias produtivas consideradas estratégicas”, afirmou a diretora de Relações Internacionais da CNA, Sueme Mori.
A participação dos Estados Unidos nas exportações do agronegócio brasileiro é pequena, em comparação com outros mercados. E diminuiu, em meio à aplicação de tarifas de importação e incertezas sobre o futuro desse comércio. De janeiro a junho deste ano, o país respondeu por 6% do total. A China, com ampla liderança, teve 35% de participação, e a União Europeia, 14%.
“Os Estados Unidos ocuparam a terceira posição no ranking de mercados de destino do agronegócio brasileiro. Na comparação com o ano anterior houve queda de 25,1%, em função da redução generalizada nas vendas dos principais produtos da pauta”, informou o Ministério da Agricultura.
Exportações do agronegócio brasileiro
Principais destinos – janeiro a junho de 2026
Para alguns setores do agronegócio, porém, o mercado americano é fundamental para o desempenho de suas exportações, com ampla liderança em relação a outros mercados. Há segmentos em que o Brasil atende a boa parte da demanda do país, como um fornecedor relevantes.
São situações que ajudam a explicar, pelo menos, em parte, a expectativa e a demanda por inclusão na lista de exceções da ordem executiva do governo de Donald Trump, o que garante isenção de tarifas e mantém a competitividade dos negócios com o país.
Suco de laranja, carne bovina, café e pescados estão entre os produtos incluídos na lista. Por outro lado, etanol, máquinas agrícolas e açúcar não escaparam da taxação.
Produtos taxados
Açúcar
Os produtores de açúcar mais preocupados com o tarifaço são os do Nordeste do Brasil, sujeitos a um sistema de cotas de exportação para os Estados Unidos. Diante das perdas com a atividade comercial, o governo federal publicou uma medida provisória que abre crédito extraordinário de subvenção ao setor.
O subsídio será de R$ 12 por tonelada de cana comercializada, com limite de 10,1 toneladas por produtor independente ou cooperado ativo. Os R$ 270 milhões vão viabilizar apoio a, no mínimo, 2.250 agricultores, estimou o governo
Etanol
O etanol de milho é o principal ponto de tensão na disputa comercial entre os Estados Unidos e o Brasil. Os produtores norte-americanos do biocombustível acusam o Brasil de impor barreiras comerciais.
No entanto, segundo o presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Amaury Pekelman, a tarifa adicional não deve ter impacto sobre a cadeia de etanol de milho porque as exportações brasileiras do produto e de etanol em geral ao país são pequenas.
A Coreia do Sul foi o principal destino do etanol brasileiro em 2025, com 780 milhões de litros (48,4% do total), e os EUA foram o segundo maior destino, com 253 milhões de litros (15,7% do total exportado), queda de 18,4%.
Frutas
Na fruticultura, a uva foi a cultura de maior relevância sujeita à cobrança de tarifa, segundo a pesquisadora Margarete Boteon, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP. Ela observou, porém, que é a Europa o principal destino da uva brasileira, o que limita o efeito negativo do tarifaço.
A Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas (Abrafrutas) explica que a tarifa adicional elevará o imposto sobre a importação de uva para 35% e reduzirá a competitividade da fruta no mercado americano.
Melão e melancia também foram incluídos nas taxas, mas, segundo a entidade, o impacto tende a ser menor devido ao perfil e ao volume das exportações desses produtos para o mercado norte-americano.
A associação informou que já orienta produtores e exportadores sobre os procedimentos diante do novo cenário. Entre as alternativas avaliadas, estão:
- diversificação de mercados;
- novas estratégias comerciais para manter o escoamento da produção.
Máquinas agrícolas
O setor de máquinas agrícolas está incluído na taxação de 25%, porém o impacto sobre o segmento deve ser limitado, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
No ano passado, o Brasil importou R$ 383 milhões em máquinas dos EUA e exportou R$ 113 milhões para o mercado americano. As exportações de tratores e colheitadeiras para os EUA representaram 0,65% do faturamento do setor em 2025.
Pescados
O filé de tilápia congelado não foi incluído na lista de exceções e estará sujeito à sobretaxa de 25%. A lista de produtos taxados inclui ainda lagostas vivas, frescas ou refrigeradas e algas próprias para a alimentação humana.
A Abipesca lamentou a taxação de algumas cadeias e informou que, devido à ausência de alguns NCMs de pescados na lista de exceções, atuará junto a Washington para corrigir o que avalia ser um “erro de transcrição”.
Sebo bovino
A Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), entidade que representa o segmento, afirmou em nota que continuará empregando “todos os esforços institucionais e técnicos” para que os produtos sejam retirados da lista.
Segundo a Abra, em 2025 o Brasil exportou 424 mil toneladas de produtos da reciclagem animal para os Estados Unidos, das quais 389 mil toneladas de sebo bovino, ou 91,8% de tudo o que o setor embarcou ao mercado americano.
Produtos isentos
Café
Entidades que representam a indústria do café no Brasil celebraram a isenção dos diversos tipos de produtos da categoria. O destaque foi a ampliação da isenção para o café solúvel não aromatizado, que não estava entre os isentos na lista inicial.
“Essa decisão protege as exportações brasileiras de café e reforça o Brasil como maior produtor e exportador global”, destacaram, em nota conjunta, a Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel (Abics), Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) e Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
Carne bovina
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o Brasil embarcou 271,8 mil toneladas de carne bovina para os Estados Unidos em 2025, volume 18,3% maior em relação ao ano anterior. Os EUA vivem um momento de escassez de gado, o que reflete na oferta de carne.
“Estamos acompanhando resultados das ações, procurando observar e acompanhar na medida que somos chamados”, disse o presidente da Abiec, Roberto Perosa.
Mel
O Brasil é o principal fornecedor de mel orgânico para os Estados Unidos, respondendo por 75% da oferta do produto no país. Para os exportadores, pesou na decisão do governo a dependência que o mercado americano tem do produto brasileiro.
“Os Estados Unidos não produzem mel orgânico e não têm condição de produzir mel orgânico, além de sofrer com queda na produção de mel. A taxação ia significar aumento de custo para o consumidor americano, o que Trump não quer”, observou João Marcelo Messas, diretor da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel).
Pescados
Grande parte dos pescados brasileiros foi incluída na lista de exceções. Permanecem isentos o filé fresco de tilápia e a tilápia inteira, congelada ou resfriada. Com isso, a Abipesca prevê que o setor deverá crescer 10% nas exportações totais em relação ao ano de 2025, com foco na venda de tilápia e em itens de maior valor agregado.
“A isenção atesta a dependência dos Estados Unidos do suprimento nacional”, afirmou o presidente da Abipesca, Eduardo Lobo.
“Os exportadores passam a contar com maior segurança jurídica e um ambiente mais favorável para ampliar a presença nos Estados Unidos”, acrescentou o presidente da Associação Brasileira de Piscicultura (PeixeBr), Francisco Medeiros, apesar de o filé de tilápia congelado ficar sujeito à cobrança.
Suco de laranja
O suco de laranja é outro produto em que a dependência americana do Brasil como fornecedor falou mais alto na decisão sobre a tarifa. A principal região produtora dos Estados Unidos, a Flórida, vem perdendo pomares, especialmente, por causa do greening, doença que não tem cura e que é considerada a maior ameaça à citricultura global.
Na safra 2025/26, os Estados Unidos responderam por 32,12% das exportações brasileira de suco de laranja, considerando o concentrado e congelado e o NFC, mostram os dados da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR). O volume total foi de 355,79 mil toneladas, 16,35% a mais que na temporada anterior. A receita caiu 20,38% e somou US$ 1,079 bilhão.
Por: Danton Boatini Júnior, Luiz Eduardo Minervino, Marcos Fantin, Rafael Walendorff, Raphael Salomão e Cibelle Bouças | Fonte: Globo Rural
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