
As interrupções no fornecimento de fertilizantes e a disparada dos preços da energia, provocadas pelo conflito no Oriente Médio, ameaçam desencadear uma nova alta dos preços de alimentos em países em desenvolvimento, segundo analistas.
O ministro da Agricultura do Brasil, Carlos Fávaro, alertou que o país pode enfrentar problemas de abastecimento, apesar da distância do conflito e de alguma proteção relativa.
Enquanto essas economias ainda se recuperam dos impactos da pandemia de covid-19 e da guerra na Ucrânia, o conflito no Irã agora ameaça anular esses avanços. Uma nova alta dos alimentos atingiria duramente as famílias e pode durar anos.
“Isso pode ter um impacto significativo sobre os preços, especialmente os de alimentos, no longo prazo”, afirmou a presidente do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (Berd), Odile Renaud-Basso.
Alimentos e combustíveis representam menos de um quarto do índice de inflação ao consumidor na maioria das economias desenvolvidas, mas correspondem a 30% a 50% em muitos mercados emergentes, destacou a diretora-geral da Moody’s Ratings, Marie Diron.
“Essa exposição torna muitas economias particularmente vulneráveis à volatilidade de preços causada por fatores externos”, afirma.
Escassez de fertilizantes pressiona preços
Os fertilizantes são um dos principais pontos de tensão. Cerca de 30% do comércio global passa, em condições normais, pelo Estreito de Ormuz, atualmente fechado por Teerã.
Os países do Golfo também são grandes fornecedores de amônia e ureia, utilizado em fertilizantes, salienta a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). O Bank of America estima que o conflito ameaça entre 65% e 70% da oferta mundial de ureia, enquanto os preços já subiram de 30% a 40% desde o início das operações dos Estados Unidos e de Israel no Irã.
“Isso terá impacto no plantio. A oferta global de commodities vai cair, desde grãos básicos e ração animal até, consequentemente, produtos lácteos e carne”, afirmou o economista-chefe da FAO, Maximo Torero, sobre os efeitos caso o conflito se prolongue por mais algumas semanas. “Pouquíssimos países estão imunes a isso”.
Ao contrário do petróleo, não existem estoques estratégicos globais de fertilizantes. Na Nigéria, produtora de petróleo, a fábrica de fertilizantes Dangote deve ajudar a amortecer o impacto.
Já países como Somália, Bangladesh, Quênia e Paquistão costumam manter estoques reduzidos e dependem mais das cadeias de fornecimento do Golfo. No Quênia, o custo dos fertilizantes já havia subido cerca de 40% desde o início da guerra, segundo a FAO.
Ruanda, que depende em grande parte das importações do Golfo, avalia medidas para proteger o setor agrícola, afirmou o ministro das Finanças, Yusuf Murangwa. “Estamos tentando encontrar diversas soluções para conter essa pressão”, afirma.
Preço dos alimentos
Diferentemente de 2022, quando a guerra da Rússia na Ucrânia afetou diretamente as exportações de grãos, o aumento dos fertilizantes tende a reduzir a produtividade agrícola.
A alta da energia também deve pressionar os custos de produção e transporte. Os preços globais de referência do petróleo e do gás já subiram mais de 50% desde o início do conflito, elevando os custos ao longo das cadeias produtivas.
Segundo a Associação Internacional de Fertilizantes, eventuais interrupções no abastecimento devem atingir primeiro culturas com alto consumo de nitrogênio, como milho e trigo. O aumento do custo da ração animal tende a se espalhar por toda a cadeia, afetando desde o pão até carne, frango e ovos.
“Esse é sempre o problema com choques de oferta: primeiro vem o impacto na energia; depois, quando ele começa a se dissipar, a segunda onda atinge os alimentos”, afirmou o economista-chefe para economia global da Schroders, David Rees.
Risco de instabilidade e menor crescimento
Antes do início da guerra, a inflação global vinha desacelerando, e alguns preços de alimentos estavam em queda. Em janeiro, a inflação alimentar global atingiu o nível mais baixo desde pelo menos 2017, segundo David Rees.
No passado, altas de preços de alimentos provocaram protestos em países emergentes, o que mantém autoridades em alerta. Em 2022, houve manifestações no Chile e na Tunísia contra o custo de vida. Um novo aumento pode reacender tensões sociais.
A alta dos combustíveis também pode desviar parte das colheitas para a produção de biocombustíveis, reduzindo a oferta de alimentos. Além disso, uma desaceleração econômica no Golfo – que abriga milhões de trabalhadores migrantes – pode diminuir o envio de remessas para países como Paquistão, Líbano e Jordânia.
Os mercados já revisam expectativas de cortes rápidos de juros em economias emergentes, diante do risco de inflação ligada à energia. O movimento pode afetar o crescimento econômico.
O Berd avalia medidas de apoio, incluindo ajuda para a compra de fertilizantes. Maximo Torero, da FAO, pediu que bancos de desenvolvimento e governos se preparem para adotar ações emergenciais caso o conflito se prolongue. “Se isso durar mais de um mês, teremos problemas no plantio e na produtividade”, reiterou.
Fonte: Nova Cana
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