Após consolidação no Centro-Oeste, combustível avança para região do Tocantins e de parte do Maranhão, da Bahia e do Piauí
Após se consolidar em todo o Centro-Oeste e hoje corresponder a 23% do etanol produzido no Brasil, o etanol de milho avança agora para o Matopiba, região formada por Tocantins e parte do Maranhão, da Bahia e do Piauí. Três usinas estão em construção na região, uma foi recentemente inaugurada e outras quatro aguardam autorização da Agência Nacional do Petróleo (ANP).
No total, esses empreendimentos no Matopiba terão capacidade de processar 7,3 mil metros cúbicos de etanol por dia. Para efeitos de comparação, as regiões Sul e Norte (sem o Tocantins) — que também têm crescido no segmento — terão capacidade, respectivamente, para 1,7 mil metros cúbicos e 1,2 mil metros cúbicos.
O Centro-Oeste, no entanto, continua muito à frente das demais, com uma capacidade que deverá chegar a 50 mil metros cúbicos. Hoje, nessa região, a capacidade já alcança 29,5 mil metros cúbicos por dia, de acordo com dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).
O etanol — feito a partir do milho, da cana de açúcar ou de outras matérias-primas, como o sorgo — é considerado pela Agência Internacional de Energia (AIE) como uma das soluções para veículos leves e caminhões reduzirem suas emissões de gases poluentes no curto prazo e para navios e aviões no longo prazo. Dados da agência mostram que, para o mundo zerar as emissões líquidas de carbono até 2050, a produção de etanol terá de passar de 2,22 EJ (exajoules), em 2022, para 3,62 EJ, em 2030, crescimento de 63%.
A baixa presença atual do etanol no Matopiba e a oferta de matéria-prima são apontados como os principais motivos para o avanço da indústria na região. No ano passado, dos Estados que formam o Matopiba, Maranhão, Tocantins e Piauí estavam entre os dez que menos reduziram suas emissões de gases poluentes com o uso do etanol por veículos leves.
O Maranhão, por exemplo, emitiu um total de 2,5 milhões de toneladas de gases e, com o uso de biocombustível, evitou a emissão de 210 mil toneladas, ou 20% do emitido. Para efeitos de comparação, Mato Grosso — Estado com dez biorrefinarias em operação — evitou a emissão de 81,5%, de acordo com o Observatório de Bioeconomia da FGV.
“O Matopiba é uma região de baixa produção de etanol. Recentemente, estive no Maranhão e, de Imperatriz a Balsas (uma viagem de 390 km), não encontrei um posto com bico de álcool para abastecer”, diz o presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Guilherme Nolasco.
Vice-presidente de negócios da fabricante de etanol Inpasa, Flávio Peruzo afirma que a região tem uma “demanda adormecida” que a empresa pretende explorar. A Inpasa tem duas usinas no Paraguai e cinco no Brasil, sendo uma delas no Maranhão.
A unidade maranhense, instalada em Balsas, foi inaugurada no início de agosto após um investimento de R$ 2,5 bilhões. No começo do ano que vem, a empresa deve começar a operar uma nova planta no Matopiba. Desta vez, em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia. A usina receberá um aporte de R$ 1,3 bilhão.
Peruzo acrescenta que a Inpasa pretende explorar a região do Matopiba por se tratar de uma fronteira agrícola importante, com oferta de milho. “O que tem de produção de milho hoje é suficiente para abastecer as usinas do Matopiba e há um potencial de crescimento, mas a comercialização do milho lá sempre foi instável. Com o consumo interno linear (garantido pela indústria do etanol), haverá segurança para o produtor cultivar o milho”, diz Peruzo.
Diferentemente do Centro-Oeste, porém, o Matopiba tem um clima menos propício para a safrinha do milho. Hoje, a produção de etanol de milho centro-oestina é baseada nessa segunda safra. Para contornar o entrave, a indústria deve explorar o sorgo (cereal resistente à seca e às altas temperaturas) quando a produção de milho do Matopiba for fraca. As usinas da região já estão sendo construídas de modo que possam ser abastecidas com as duas matérias-primas.
O executivo destaca ainda que o setor tem conversado com fornecedores para ampliarem a produção de biomassa usada na geração de energia das usinas de etanol. Segundo Peruzo, a Inpasa trabalha não apenas com cavaco de eucalipto e pinus, mas também com o de bambu, palha, bagaço de cana, gramíneas e até caroço de açaí.
Apesar de o Matopiba e o Centro-Oeste registrarem os maiores crescimentos da indústria do etanol de milho, o segmento vem avançando em todo o País. Segundo o levantamento do Imea, o Brasil tem hoje 24 biorrefinarias produzindo o combustível, 18 sendo instaladas e 19 esperando autorização da ANP.
O segmento vem sendo impulsionado não só pelo aumento da mistura obrigatório do etanol na gasolina, que passou de 27% para 30% em agosto, mas também pelo potencial de uso do milho na fabricação de combustíveis “sustentáveis” para a aviação e o setor marítimo. Há ainda expectativas de que outros países, como Japão e Índia, ampliem suas misturas obrigatórias.
“Tem todo um mercado internacional se desenvolvendo, com políticas públicas de mistura. Também acreditamos que o uso de etanol na navegação possa ser antecipado e o SAF (combustível sustentável de aviação, na sigla em inglês) vai demandar uma enorme quantidade de combustível. O Brasil se beneficia diante disso tudo por ter baixa pegada de carbono no etanol”, diz Nolasco, da Unem.
A emissão de carbono por parte das usinas brasileiras de etanol de milho é menor quando comparada com a das americanas. As plantas daqui usam, em grande parte, eucalipto e bambu de reflorestamento para gerar vapor, enquanto as dos EUA utilizam gás de origem fóssil, mais poluente.
Outro motivo que torna o etanol brasileiro mais sustentável é que o clima tropical permite a produção de mais de uma safra em um mesmo ano e em um mesmo solo. Assim, o País pode aumentar o cultivo de matérias-primas de biocombustíveis sem precisar avançar em terras cobertas por florestas. Os Estados Unidos não conseguem fazer isso em seu “corn belt” (o cinturão do milho, região produtora de grãos do país), que é atingido por nevascas no inverno.
O cultivo brasileiro de milho no mesmo solo do da soja também melhora a qualidade da terra, reduzindo o uso de fertilizantes, que emitem gases de efeito estufa na fabricação.
Por: Luciana Dyniewicz | Estadão
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