
A XP reiterou nesta quinta-feira, 5, sua postura cautelosa para todos as companhias de açúcar e etanol sob sua cobertura, diante da expectativa de um cenário desafiador. Em relatório, a corretora atualizou a avaliação de oferta e demanda, as projeções para os resultados trimestrais, as avaliações e os preços-alvo para São Martinho, Jalles e Raízen.
“As perspectivas de valuation e geração de fluxo de caixa livre devem permanecer limitadas, o que levou o setor a ficar em segundo plano, além das idiossincrasias de cada tese, especialmente no caso de Raízen, para a qual entendemos que o case continua totalmente dependente de venda de ativos ou capitalização e, portanto, de uma potencial redução da alavancagem”, comenta.
A análise traz a expectativa de que uma safra melhor no Brasil deverá pressionar ainda mais os preços. Após uma temporada difícil em 2025/26, os analistas da XP projetam uma moagem de cana-de-açúcar do Centro-Sul na safra 2026/27 em 623 milhões de toneladas, aumento de 2,5% em relação ao ano-safra anterior.
O aumento, segundo eles, será impulsionado tanto por uma maior produtividade (em toneladas de cana por hectare) quanto por um maior teor de açúcar total recuperável (ATR). O cenário deve ser positivo para os custos caixa unitários das companhias.
“Embora os rendimentos estejam encorajadores, a combinação de: superávit global de açúcar; maior disponibilidade total de ATR no Brasil; baixo nível de vendas futuras de açúcar; perspectiva baixista para os preços do petróleo; e aumento da produção de etanol de milho deve continuar pressionando os preços, em nossa visão”, escreveram os analistas, em relatório a clientes.
“O mix açúcar-etanol é a principal questão e o ponto-chave a ser acompanhado, uma vez que esperamos que as companhias ajustem finamente a produção de acordo com preços e margens”, XP
Os analistas da XP esperam um trimestre neutro para todas as ações do setor. Para eles, São Martinho e Jalles devem reportar resultados fracos devido a menores volumes e aumento dos custos caixa unitários. Para Raízen, o principal destaque deve ser o desempenho positivo das margens de distribuição de combustíveis.
A São Martinho será a primeira a divulgar seu resultado do terceiro trimestre do ano safra 2025/26, no dia 9 de fevereiro. Raízen e Jalles divulgam seus números no dia 12 de fevereiro.
São Martinho
Para a São Martinho, a XP ajustou suas estimativas e aumentou o preço-alvo. A avaliação tem foco no potencial de expansão do etanol de milho, que mais do que compensa a sua visão baixista de curto prazo para o negócio de cana-de-açúcar.
“Do ponto de vista setorial, seguimos esperando que o etanol à base de milho ganhe participação em relação ao etanol à base de cana-de-açúcar nos próximos anos, em função de sua maior competitividade”, comenta e segue: “Embora ainda seja cedo para afirmações categóricas, acreditamos que os players menos competitivos da cana devam reduzir escala nos próximos anos, o que deve beneficiar, no longo prazo, um player de primeira linha como a São Martinho”.
No entanto, a geração de fluxo de caixa livre da empresa deve permanecer constrangida no curto prazo devido a fundamentos desafiadores e aos investimentos em etanol de milho, pressionando adicionalmente a sua alavancagem e o seu valuation. Como resultado, a XP espera uma inversão na geração de fluxo de caixa livre apenas em 2028/29, quando a expansão do etanol de milho deverá atingir aproximadamente 85% da capacidade total.
Em relação aos resultados do terceiro trimestre de 2025/26, a XP projeta uma queda de 6% na receita líquida, em base anual, uma vez que preços mais baixos do açúcar e os volumes produzidos devem compensar preços mais elevados do etanol. A corretora ainda espera que a companhia maximize as vendas na segunda metade do quarto trimestre.
Por fim, a XP projeta Ebit (lucro antes de juros e imposto de renda) e Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado em quedas anuais de 36% e 21%, respectivamente, como resultado de custos caixa unitários mais elevados, decorrentes de menor diluição de custos.
Com a ação negociando a um múltiplo de cerca de 16,8 vezes o valor empresarial em relação ao Ebit para 2026/27, a XP mantém a recomendação neutra para o papel.
Raízen
Para a Raízen, a XP rebaixou a recomendação do papel RAIZ4 de compra para neutro e reduziu o preço-alvo, em função do aumento do risco de alavancagem, incluindo as previsões para os resultados do terceiro trimestre de 2025/26 e a atualização das estimativas.
A XP ressalta que, nos trimestres anteriores, a Raízen reportou resultados em recuperação apesar dos desafios no negócio de açúcar e etanol, impulsionados principalmente pelo forte desempenho da unidade de distribuição de combustíveis no Brasil. Os analistas esperam que essa tendência continue.
“Nos últimos anos, a tese de Raízen tornou-se cada vez mais complexa e, em nossa visão, mais arriscada. No curto prazo, continuamos a projetar queima de caixa e um consequente aumento da alavancagem, mesmo após as iniciativas positivas de reciclagem de portfólio”, afirmam, em relatório.
Eles ainda complementam: “Os resultados recentes também têm sido encorajadores, particularmente impulsionados pela melhora de margens nas operações de distribuição de combustíveis no Brasil, além de reduções em SG&A [despesas de vendas, gerais e administrativas] e capex”.
No consolidado, a XP projeta receita líquida com queda de 6% na comparação anual, e Ebitda ajustado de R$ 3,6 bilhões, alta de 17% na mesma base comparativa, refletindo margens melhores de forma generalizada.
“Ainda assim, acreditamos que as ações dificilmente deverão negociar com base em fundamentos enquanto o mercado aguarda maior clareza sobre vendas adicionais de ativos e/ou injeções de capital, bem como sobre a consequente desalavancagem do balanço”, concluem.
Jalles
Para a Jalles, a XP manteve a recomendação de compra para a ação e reduziu o preço-alvo para refletir, principalmente: o ritmo mais lento do que o antecipado da usina Santa Vitória; os resultados mais fracos do que o esperado nas unidades Jalles Machado e Otavio Lage; e os fundamentos mais fracos de açúcar e etanol.
“Após um ano difícil, marcado por adversidades climáticas que levaram a Jalles a apresentar desempenho inferior a um setor já fragilizado, esperamos uma melhora de resultados na próxima safra com base em comparações fáceis. Ainda assim, estamos reduzindo nossas estimativas de Ebitda ajustado e Ebit ajustado em 2026/27 para 21% e 7%, respectivamente”, detalha.
Em relação aos pares, a XP considera que a estratégia assertiva de hedge da Jalles (75% do açúcar disponível hedgeado para 2026/27 a preços cerca de 20% acima dos níveis atuais) deve levar a um desempenho relativo superior.
Para o resultado do terceiro trimestre de 2025/26, os analistas da XP esperam que o aumento dos preços do etanol não seja suficiente para compensar os menores volumes, decorrentes da menor disponibilidade de produtos e dos preços mais baixos do açúcar.
Nesse contexto, eles projetam uma queda anual de 28% na receita líquida da empresa. Combinado a custos caixa unitários mais elevados, em função de menor diluição de custos, também estimam que o Ebitda ajustado e o Ebit ajustado recuem 14% e 40%, respectivamente.
“Mantivemos a recomendação de compra para a ação em função do potencial de upside de longo prazo decorrente do ramp-up da Santa Vitória. No entanto, diante de fundamentos setoriais desafiadores, estimamos que a geração de fluxo de caixa livre e o valuation permaneçam constrangidos nos próximos anos”, conclui a análise.
Recomendações
A XP manteve as recomendações de compra para Jalles (JALL3) e subiu o preço-alvo de R$ 9,50 para R$ 4,10. A posição é neutra para a São Martinho (SMTO3), com a XP aumentando o preço-alvo para R$ 14,80 (de R$ 13,90).
Já a Raízen (RAIZ4) foi rebaixada de compra para neutro e com redução no preço-alvo para março de 2027 para R$ 1,10 (de R$ 2,40).
Por: Cynara Escobar | Fonte: Safras News
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