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Com queda do açúcar e tarifaço, usinas do Nordeste já falam em prejuízo

Maria Reis por Maria Reis
10 dezembro, 2025
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Tempo de leitura: 5 minutos
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O setor sucroenergético do Nordeste está enfrentando nesta safra 2025/26 diversos reveses, que passam por preços baixos do açúcar no mercado internacional, custos em alta, efeitos do tarifaço americano, que ainda atingem as exportações regionais da commodity, e um clima que pode reduzir a produção. Tanto usinas como produtores de cana já avaliam que podem ter prejuízos na temporada e defendem medidas de apoio do governo para amenizar a crise.

Em novembro, os preços do açúcar no mercado de Pernambuco foram 21% menores do que no mesmo período do ano passado, enquanto em Alagoas os valores recuaram 14%, de acordo com dados do Cepea/Esalq. Os valores acompanham os preços do açúcar vendido no mercado internacional, que já caíram 25% somente este ano, segundo o Valor Data.

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Além disso, o Nordeste está sem a vantagem da comercialização com os Estados Unidos, uma vez que o açúcar não foi isento do tarifaço. Em geral, os americanos pagam quase duas vezes a mais que o preço internacional pelo açúcar nordestino, já que o país é deficitário no produto e concede uma cota ao Brasil, usufruída pelo Nordeste, isenta da tarifa setorial.

Porém, a tarifa de 50% imposta por Donald Trump praticamente interrompeu esse comércio. Desde outubro, quando começou a safra do Nordeste e também o ano-cota dos Estados Unidos, zarparam dos portos nordestinos apenas dois navios com açúcar rumo ao território americano, levando 60 mil toneladas no total, segundo dados compilados pela reportagem junto à agência marítima Williams.

O mercado de etanol tampouco ajuda. Os preços regionais apurados pelo Cepea/Esalq estão até em níveis ligeiramente acima dos registrados um ano atrás, mas a produção local dá prejuízo no momento, segundo análise da consultoria Pecege, de Piracicaba (SP).

Se for considerado apenas o custo caixa (sem considerar depreciação), a produção de etanol na média da maior parte do Nordeste já dá prejuízo de 8,2%, no caso do hidratado, e de 14,9%, no caso do anidro, segundo levantamento da consultoria com 15 usinas locais. A produção de açúcar VHP (bruto), para exportação, ainda tem em média margem positiva de 25,8% no Nordeste, enquanto o açúcar branco, mais voltado ao mercado interno, tem margem de 22,8%.

Os usineiros afirmam que os preços atuais não cobrem os custos de produção. “Ninguém está tendo lucro”, disse Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar-PE.

Segundo o analista do Pecege, Raphael Delloiagono, as chuvas mais intensas nos últimos meses tiveram efeito não só de atrasar a colheita e a moagem, mas também de dificultar o maior direcionamento da cana para a produção de açúcar, o que pode levar as usinas a terem um mix mais alcooleiro, ao contrário do que desejariam.

Mercado

O proprietário de uma usina na Paraíba, que pediu para não ser identificado, disse que terá margens apertadas neste ciclo, e que vai aumentar a produção do etanol porque acredita na melhora do preço do biocombustível até maio de 2026. Já para o açúcar, ele não enxerga mudanças na perspectiva de preços no curto prazo.

Para esse empresário, mesmo quem é eficiente sai prejudicado com os atuais preços. “O preço vai se ajustar, mas talvez no fim da próxima safra [2026/27]. O preço precisa reagir para não haver desestímulo à produção”, disse. Para ele, um valor ideal seria entre 17 e 18 centavos de dólar a libra-peso.

Quando as usinas do Centro-Sul iniciaram a moagem da safra de cana, em abril, as cotações ainda estavam maiores, e elas conseguiram fixar os preços com antecipação. Já as do Nordeste iniciaram a moagem entre agosto e setembro, quando os preços já estavam em queda, lembrou Delloiagono.

Se o ambiente de preços baixos já está espremendo as margens das usinas do Centro-Sul e levando muitas ao prejuízo, a situação é pior para as empresas do Nordeste, que têm uma estrutura de custos bem mais alta.

Entre as particularidades da região que encarecem a produção está a pior condição dos solos, mais exauridos após centenas de anos de cultivo de cana. Além disso, a colheita em geral ainda é manual, porque a declividade dos terrenos impede a mecanização, o que aumenta o custo fixo. Outro fator é que as indústrias são mais antigas do que as do Centro-Sul, e, portanto, menos eficientes.

Nas contas da consultoria Pecege, o custo agrícola da cana no Nordeste é hoje em média 25% maior do que o custo médio do Centro-Sul, enquanto o custo industrial da moagem e produção de açúcar e etanol nordestinos é, em média, 18% maior que o das usinas do Centro-Sul. Se todo o custo for calculado com base na produção de açúcar VHP, o custo médio do Nordeste por tonelada produzida é 27% maior do que no Centro-Sul.

Para os fornecedores de cana, o cenário também é negativo e começou a se agravar em agosto, disse José Inácio de Morais, presidente da Associação dos Plantadores de Cana da Paraíba (Asplan). À época, os produtores do Estado recebiam o equivalente a R$ 160 a tonelada, valor que ainda cobria os custos.

“O preço pago pela tonelada de cana caiu de R$ 170 para R$ 129, o que não cobre o nosso custo. Essa cota de importação [dos EUA] nos dava uma vantagem de R$ 10 a tonelada de cana, mas sem ela estamos na mesma paridade com o mercado em relação às demais regiões”, disse.

Por: Camila Souza Ramos e Paulo Santos | Fonte: Globo Rural

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