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Avanço de recuperações judiciais no campo põe BB em estado de alerta

Maria Reis por Maria Reis
17 dezembro, 2025
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Tempo de leitura: 4 minutos
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Processos têm impacto “significativo” nas provisões de caixa e no balanço

O sinal de alerta continua ligado no Banco do Brasil para o avanço das recuperações judiciais no campo e o impacto desse movimento nos resultados da instituição financeira. Em setembro deste ano, eram R$ 6,6 bilhões de operações de 928 clientes com pedidos de recuperação judicial.

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Mesmo que sejam parte minoritária do índice de inadimplência do BB, que bateu recorde de 5,34% no fim do terceiro trimestre e ainda não deu sinais de alívio até novembro, as recuperações judiciais têm impacto “significativo” e imediato nas provisões de caixa e no balanço, disse o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do Banco do Brasil, Gilson Bittencourt, em conversa com jornalistas.

O avanço das recuperações judiciais demanda um arranjo legislativo ou judicial para definir e esclarecer o alcance dos processos, afirmou. O executivo vê a questão em fase de aprendizado e maturação, já que a lei que permitiu a recuperação judicial de produtores rurais é de 2020, mas a definição de um entendimento harmônico sobre o tema pode limitar o impacto não só nas instituições financeiras, mas na cadeia agroindustrial, avaliou.

“Só a Justiça vai nos dar [uma orientação] à medida em que a própria Justiça conseguir entender o que está acontecendo e definir melhor os limites. Todos colocam que precisa haver mudanças. Se vai ser por meio de uma interpretação jurídica ou mudança no Congresso, aí é a definição mais política que vai nos dizer nos próximos meses”, indicou Bittencourt.

Algumas operações de clientes em recuperação judicial ainda nem estão em atraso superior a 90 dias para serem consideradas inadimplentes, mas a instituição financeira já é obrigada a fazer um provisionamento de recursos para amparar uma possível perda. No caso das recuperações, 75% do valor total está provisionado. “O aumento da inadimplência não é exclusividade de RJ, mas elas têm impacto mais significativo”, disse Bittencourt. Sobre a carteira de crédito rural do BB, de R$ 361 bilhões no fim do terceiro trimestre, havia R$ 19,3 bilhões em atrasos superiores a 90 dias e R$ 32,8 bilhões de provisionamento de perdas.

Há receio com o efeito das recuperações judiciais sobre o mercado em geral, como pequenas indústrias e empresas fornecedoras de insumos e materiais que deixam de receber e também podem quebrar em caso de falência do produtor. “A discussão é sobre como garantir que esse mecanismo cumpra a finalidade dele e que não tenhamos mau uso desse mecanismo”, afirmou Alberto Martinhago, diretor de Agronegócios do BB.

Bittencourt lembrou que o banco tem mecanismos para tratar cada caso antes do pedido de recuperação. “As pessoas questionam o fato de não dar crédito para quem está em RJ, mas o que está em RJ é decisão judicial, não posso me relacionar com esse produtor como se ele não tivesse toda a sua operação passando por um interventor indicado pela Justiça e com todas as responsabilidades envolvidas”, pontuou. Recentemente, o vice-presidente de Controles Internos e Gestão de Riscos do BB, Felipe Prince, disse que produtores em recuperação judicial “nunca mais” terão crédito no banco.

Com um índice recorde de inadimplência na carteira de agronegócio, de 5,34% no fim do terceiro trimestre, o BB reforçou mecanismos de monitoramento das suas operações para tentar antever situações que possam levar a atrasos nos pagamentos de clientes e negociar soluções. A estratégia une tecnologia, com monitoramento remoto em tempo real capaz de identificar situações pontuais que podem atrapalhar o fluxo de caixa do produtor, e a busca ativa com contato direto com esses clientes.

Cerca de 83 mil produtores estão sendo contatados pelo BB para saber se querem renegociar as dívidas pelas regras da Medida Provisória 1.314/2025. Apenas 5,7 mil estavam com inadimplência acima de 90 dias e integram o índice que afeta o balanço do banco. Os demais têm perfis diferentes em relação ao status dos seus vencimentos, mas compartilham o problema de aperto no fluxo de caixa.

Há ainda um critério mais apurado na liberação de novos financiamentos na safra 2025/26. O BB criou uma matriz de concessão de empréstimos que divide os produtores pelos critérios de risco dada a situação de caixa de cada um. Na maioria, a situação é de normalidade, segundo Bittencourt. Em outros casos, é preciso olhar mais atento. Para determinado público, a liberação depende de garantias adicionais.

Na safra 2025/26, a concessão está mais lenta. Foram R$ 78,3 bilhões em empréstimos de julho a novembro em linhas de crédito rural, em relação a R$ 96,2 bilhões no mesmo período do ciclo 2024/25. Os números da temporada atual incluem os R$ 13,5 bilhões de renegociações de dívidas.

A principal queda é nas operações de investimentos da agricultura empresarial, de até 40%. A concessão de custeio para grandes produtores também está mais fraca no BB, principalmente a taxas livres. “Houve diminuição da demanda do produtor”, afirmou.

Por: Rafael Walendorff | Fonte: Globo Rural

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