Análise da CNA aponta alta de 33% na ureia e 27% no petróleo Brent desde 26 de fevereiro. Nordeste e Matopiba concentram os setores mais expostos ao choque de preços

O conflito no Oriente Médio elevou em 27% o preço do petróleo bruto Brent e em 33% o da ureia no mercado interno brasileiro entre 26 de fevereiro e 6 de março de 2026, com impacto direto nos custos da fruticultura irrigada, da cana-de-açúcar e da produção de grãos do Matopiba (fronteira agrícola formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), que concentram os principais polos agropecuários do Nordeste. O alerta é da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em análise técnica divulgada em 6 de março.
A região consumiu 3,2 milhões de toneladas de fertilizantes em 2024, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), e concentra duas unidades produtoras de nitrogenados reativadas pela Petrobras em 2026, justamente quando o choque externo pressiona os custos de importação do insumo.
Segundo a Embrapa, a ureia é o fertilizante mais utilizado na agricultura mundial como fonte de nitrogênio, e é caracterizada como fertilizante sólido granulado ou pastilhado com concentração por volta de 45% de nitrogênio. A ureia é utilizada para adubação na agricultura para fornecer nitrogênio para as plantas. O nitrogênio é um macronutriente primário, do qual as plantas necessitam em grandes quantidades.
A análise da CNA registra que, entre 26 de fevereiro e 6 de março, a ureia negociada no Oriente Médio avançou 35% e a do Golfo dos EUA, 29%. O gás natural, insumo que responde por 60% a 80% da produção global de nitrogenados, registrou alta de 10%. A entidade aponta que a concentração geográfica da oferta explica a magnitude do choque: o Oriente Médio abriga 5 dos 10 maiores países fornecedores de ureia do mundo e responde por 25% a 35% do comércio global de amônia e ureia e 30% dos fertilizantes comercializados internacionalmente.
Pelo Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do comércio internacional de petróleo e gás natural, transitam 22 milhões de toneladas de ureia exportadas anualmente, volume que corresponde a 35% da ureia brasileira por origem. Qualquer restrição ao trânsito pelo estreito, conforme avalia a CNA, encarece frete, seguro e operação marítima e eleva o custo de chegada do insumo ao Brasil.
A CNA avalia que o petróleo pressiona o agro por três vias diretas: custos com diesel, frete e operações mecânicas. A entidade usa a Guerra da Ucrânia de 2022 como referência: quando o Brent subiu 40% no primeiro semestre, o diesel registrou alta média de 21% na distribuição e 23% na revenda. O cenário atual, com 27% de variação no Brent em menos de dez dias, aponta trajetória de pressão comparável caso o conflito se aprofunde, segundo a confederação.
Irã: mercado de US$ 2,9 bi para o agro brasileiro
A confederação informa que o Brasil não importa ureia diretamente do Irã por restrições políticas, mas o produto chega via Omã, que opera como hub logístico regional. Em 2025, Irã e Omã responderam conjuntamente por 1,4 milhão de toneladas e 18% das importações brasileiras de ureia. Os demais fornecedores foram Nigéria (23%), Rússia (17%), Catar (13%), Argélia (9%) e Bolívia (4%). A CNA classifica fertilizantes como a cadeia de exposição alta ao conflito, a mais sensível do agronegócio brasileiro, pela combinação de risco geopolítico, dependência do gás natural e vulnerabilidade logística concentrada em um único ponto de passagem marítima.
No documento, a CNA aponta o Irã como o 11º principal destino global das exportações do agronegócio brasileiro e o 3º no Oriente Médio, com compras de aproximadamente US$ 2,9 bilhões, valor que corresponde a 99% do total exportado pelo Brasil ao país. A pauta é concentrada em milho (68%), soja (19%) e outros açúcares de cana (7%).
A entidade classifica o milho como cadeia de exposição sensível: é o principal produto vendido ao Irã, e uma escalada prolongada do conflito pode comprimir a capacidade de pagamento e a logística iraniana.
Do lado das importações brasileiras originárias do Irã, a CNA registra valor total de aproximadamente US$ 11,9 milhões, concentrado em ureia e fertilizantes (79%), pistaches (19%) e uvas secas (4%), fluxo 244 vezes menor do que o Brasil vende ao país. A confederação classifica carne bovina com exposição baixa a moderada, pois os principais mercados compradores não dependem diretamente da região, mas o aumento de frete e seguro pressiona custos de exportação. Soja e açúcar têm exposição baixa.
Nordeste retoma produção de nitrogenados
No Nordeste, o choque chega em momento de retomada da produção nacional de nitrogenados pela Petrobras. A Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia (Fafen-BA), em Camaçari, e a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe (Fafen-SE), em Laranjeiras, paralisadas desde 2023, voltaram a operar em 2026 com capacidade combinada de 3.100 toneladas de ureia por dia, suficientes para atender até 20% da demanda nacional por nitrogenados.
No ofício ao ministro Alexandre Silveira, a CNA cita que o barril chegou a US$ 84, com alta de até 20% em relação ao final de fevereiro, percentual calculado na data de envio do documento, 6 de março. A entidade solicitou ao Ministério de Minas e Energia (MME) a elevação imediata da mistura obrigatória de biodiesel ao óleo diesel de 15% para 17% (B17), medida que depende de decisão do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), com reunião prevista para a semana seguinte ao pedido.
Alternativa nacional à ureia
Em 2018, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), por meio da unidade Embrapa Solos (RJ), em parceria com a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), divulgou o desenvolvimento de alternativa ao uso convencional da ureia. A tecnologia consiste em um fertilizante nitrogenado com inibidores de urease incorporados diretamente aos grânulos, técnica que reduz perdas de nitrogênio por volatilização e lixiviação.
Segundo a Embrapa, mais de 40% do fertilizante nitrogenado aplicado no campo é perdido para a atmosfera ou para a água. A pesquisa integra a Rede FertBrasil, coordenada pela Embrapa, cujo objetivo é desenvolver novas gerações de fertilizantes e insumos biológicos para a agricultura tropical.
Por: Paulo Goethe | Fonte: Movimento Econômico
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