O Brasil desperdiça energia firme e renovável por falta de visão regulatória
Por: Felipe Prata

O recente episódio de curtailment no setor elétrico brasileiro escancara uma contradição difícil de justificar: o país corta energia limpa, renovável e firme gerada a partir da biomassa da cana-de-açúcar enquanto discute, ao mesmo tempo, alternativas mais caras, complexas e, em muitos casos, dependentes de cadeias externas, como baterias de lítio e gás natural importado.
Isso não é estratégia energética. É desperdício.
A bioeletricidade da cana possui atributos que deveriam colocá-la em posição de maior relevância na agenda de segurança energética nacional. Trata-se de uma fonte renovável, previsível e complementar ao regime hidrológico, capaz de gerar justamente no período seco, quando o sistema elétrico mais precisa de oferta confiável. Além disso, contribui para o suporte às rampas de carga, pode prestar serviços ancilares e fortalece a operação do Sistema Interligado Nacional.
Mesmo assim, essa fonte segue subvalorizada nos leilões, pouco reconhecida na regulação e frequentemente ignorada na formulação de políticas públicas. O resultado é um paradoxo: o Brasil tem energia disponível nos canaviais, mas ainda não criou as condições adequadas para aproveitá-la plenamente.
O curtailment não pode ser tratado apenas como um ajuste operacional. Quando se torna recorrente, gera impactos econômicos, produtivos e ambientais relevantes. Há perda de receita para os agentes geradores, aumento de risco para a operação agroindustrial, desperdício de energia renovável e uma sinalização regulatória negativa para novos investimentos.
Na prática, penaliza-se quem gera energia limpa sem que os gargalos estruturais do sistema sejam resolvidos. O problema não está na bioeletricidade, mas na incapacidade de planejar, de forma integrada, a expansão da rede, o armazenamento, o despacho e a remuneração dos atributos que cada fonte entrega ao sistema.
É preciso tratar o curtailment como medida excepcional, e não como rotina operacional. O Brasil precisa avançar em soluções estruturais: expansão e modernização da transmissão, mecanismos de armazenamento, contratação de serviços ancilares e, sobretudo, reconhecimento econômico dos atributos que fontes como a bioeletricidade oferecem.
A transição energética brasileira não pode se limitar a discursos ou à importação de soluções prontas. Ela precisa valorizar os recursos que o país já possui, com competitividade, escala e benefícios ambientais claros.
Não falta energia nos nossos canaviais. Falta visão para aproveitá-la. O curtailment não pode ser naturalizado. O Brasil precisa reconhecer, de uma vez por todas, o papel estratégico da bioeletricidade na segurança energética nacional.
Felipe Prata acumula mais de 23 anos de experiência no setor de energia, com atuação estratégica em projetos de geração, cogeração e distribuição. Sua trajetória inclui contribuições relevantes nos segmentos sucroenergético, de biocombustíveis e de bioenergia.
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