Produção caiu com avanço de doenças e importações, mas sementes “limpas” reacenderam a tradição

O agricultor familiar Rosemiro Schmidt é da terceira geração de produtores de alho da sua família em Santa Maria de Jetibá, município do Espírito Santo que foi campeão de produção de alho no Estado e segundo maior do Brasil na década de 1990 com uma área plantada superior a 1.000 hectares. Na época, o Espírito Santo estava entre os seis maiores produtores da hortaliça, que tem alto valor agregado.
A partir daí, muitas doenças como a podridão branca e a entrada massiva do alho importado no Brasil da Argentina e China com preço mais baixo desanimaram os produtores da região serrana, e a área plantada de alho no Estado começou a cair, dando espaço para outras culturas de inverno, como o morango. Rosemiro manteve o cultivo, mas reduziu sua área de cinco para um hectare.
O cenário começou a mudar com a adoção do alho-semente livre de vírus proporcionada por um projeto introduzido em 2022 no Estado por meio de parceria entre o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a Embrapa Hortaliças e o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA).
A adoção da semente distribuída gratuitamente aos agricultores permitiu que Rosemiro e outros agricultores familiares alcançassem rendimento de até 16 toneladas por hectare neste ano, desempenho superior à média estadual, de aproximadamente nove t/ha, e também maior que a média nacional, estimada em 13 t/ha.
“Eu plantava o alho crioulo e tinha muita dificuldade com pragas e doenças. A cabeça diminuiu de tamanho com o passar dos anos e passou a ter muitos dentes palitos, ou seja, um alho sem qualidade e difícil de vender. Já com a semente livre de vírus, a cabeça é maior, tem menos dentes e eles são graúdos. Ou seja, aumenta o peso, a qualidade e o preço na hora da venda”, diz o produtor.
Ele se animou tanto com a nova tecnologia que pretende no próximo ano se tornar produtor de alho-semente livre de vírus para outros produtores. O pulo de renda é grande: o quilo de alho é vendido no mercado por R$ 15 a R$ 20. O quilo da semente varia de R$ 40 a R$ 60 reais.
Rosemiro sabe que vai ter que investir em estrutura de estufas e galpões para multiplicar as sementes, calcula um investimento de R$ 60 a 70 mil para implantação do alho-semente, mas acredita que vai ter bom retorno porque a demanda já é alta.
“Se eu tivesse sementes para vender hoje, já teria demanda. Tem muitos produtores do Rio de Janeiro e de Minas interessados”, diz o agricultor, que usa irrigação por aspersor bailarina no seu cultivo.
Ele destaca a assistência técnica recebida da Incaper para o plantio do alho sem vírus, que tem um manejo diferente e demanda muito cuidado na irrigação. Atualmente, o carro-chefe da sua produção agrícola é o gengibre, que pode perder o lugar no ranking para o novo alho nos próximos anos. O produtor planta também repolho, cenoura e outros legumes.
Limpeza dos vírus
Andréa Ferreira da Costa, pesquisadora do Incaper, diz que o renascimento do cultivo do alho no Estado dá seus primeiros passos, mas demanda uma mudança de manejo do agricultor.
“Tradicionalmente, o produtor planta a semente de alho de janeiro a abril e colhe no inverno. Cada dente produz uma cabeça. Eles vendem uma parte da produção e guardam a outra para plantio no próximo ano. Com isso, as infecções por vírus vão se acumulando na planta, o que provoca a redução e perda de qualidade relatada pelos produtores.”
A técnica de limpeza de vírus empregada pela Embrapa, uma das mais avançadas do mundo, demanda um trabalho de quatro anos que começa em laboratório, onde as sementes inicialmente são submetidas a temperaturas de 37 graus para crescimento.
A técnica inclui a cultura dos ápices caulinares, bulbificação in vitro, testes laboratoriais e manutenção por um ano de matrizes livres de vírus em telados, que são estruturas protegidas.
Sementes de alho que já são adaptadas ao clima e solo capixaba foram recolhidas para passarem pelo processo de limpeza de vírus, mas o projeto também recebeu 21 variedades já limpas pela Embrapa que não eram plantadas no Estado e que estão sendo testadas para recomendação das melhores sementes aos agricultores.
O projeto beneficiou 166 agricultores familiares de Santa Maria e mais oito municípios, incluindo Muqui, Linhares e Colatina, que não têm tradição de plantio de alho e receberam unidades demonstrativas do Incaper.
No total, os produtores receberam 536,7 kg de sementes livres de vírus, com a recomendação de não vender para outros agricultores o alho multiplicado no primeiro ano. O alho-semente pode representar até 30% do custo total da lavoura.
“A produtividade de um alho livre de vírus sempre será maior do que a de um alho infectado. As viroses podem causar perdas de 30% a 50% e comprometer a qualidade do bulbo”, afirma a pesquisadora.
Segundo Andréa, alguns produtores que tinham mudado para o morango como cultura de inverno já começam a ver vantagens no plantio de alho novamente, que demanda menos trabalho que o cultivo do morango, especialmente o hidropônico.
“Se não irrigar três vezes por dia, o morango morre. Já o alho não precisa irrigar todos os dias porque é plantado no chão. A palha no solo segura umidade e evita a erosão e o crescimento de plantas invasoras.”
A expectativa da pesquisadora é que a produtividade do alho, que tinha caído para nove toneladas por hectare nos anos de alhos magros, possa chegar a 20 toneladas nos próximos anos. No ano passado, o Estado produziu apenas 863 toneladas de alho. Santa Maria de Jetibá, com plantio em 95 hectares, colheu 513 toneladas.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o cultivo de alho no país abrange cerca de 13 mil hectares, com produção média anual de 172 mil toneladas. O maior produtor é Minas Gerais, seguido de longe por Goiás, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Por: Eliane Silva | Fonte: Globo Rural
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