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Banco do Brasil defende criação de mecanismos para garantir ‘colchão de liquidez’ no agro

Maria Reis por Maria Reis
2 janeiro, 2026
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Tempo de leitura: 4 minutos
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A medida pode ajudar a “equilibrar” o fluxo de caixa dos produtores, segundo dirigente da instituição

Escalado para acelerar medidas de contenção e evitar uma crise com o salto da inadimplência na carteira de crédito rural do Banco do Brasil, o vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar, Gilson Bittencourt, vê espaço para o setor agropecuário assimilar aprendizados no contexto de maior dificuldade financeira vivida por parcela dos produtores nos últimos anos e promover uma reorganização mais concreta para enfrentar percalços futuros sem tanta vulnerabilidade.

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Ele defende que o setor agropecuário, em conjunto com o governo federal, o parlamento e o sistema financeiro, tente criar mecanismos que garantam um “colchão de liquidez” fomentado pelos rendimentos dos “anos de bonança” para suportar as crises cíclicas enfrentadas no campo, com clima mais extremo e sobressaltos nos preços das commodities, quando a gangorra se inverter.

“De tempos em tempos, uma parte dos produtores sofre, seja por problema climático, seja por problema de preços. Temos o desafio de criar algum colchão de liquidez para que os anos bons possam ajudar em anos ruins”, afirmou em conversa com jornalistas.

A medida – uma espécie de educação financeira setorial – pode ajudar a “equilibrar” o fluxo de caixa dos produtores, completou Bittencourt. “O setor empresarial urbano tem isso um pouco mais estruturado do que o rural”, citou. Ele não indicou qual seria o mecanismo para criar essa liquidez.

Bittencourt é crítico das escolhas feitas por parte dos produtores brasileiros nesses anos de bonança. Ele aponta que parcela majoritária das dívidas que afetam carteiras e balanços de várias instituições financeiras, não só do BB, é fruto de alavancagem acelerada, abertura de áreas, arrendamentos caros e compras de máquinas e equipamentos a preços inflacionados – decisões tomadas no afã do boom das commodities, dos preços recordes dos produtos agrícolas na pandemia e da Selic baixa – e não de adversidades climáticas.

O cálculo, nesse caso, foi feito considerando que os preços iriam se manter em patamares elevados “para sempre” e que os juros não subiriam na velocidade apurada desde então.

“Com a retomada dos preços aos patamares históricos, começou a ter problema”, apontou.

“O setor rural tem uma característica muito forte de que quando há um ano bom, todo o ganho vai para uma outra caixa, que pode ser mais terra, pode ser bens imóveis, etc. No outro ano, você tem um ano ruim, parece que aquele ano bom morreu e o ano ruim tem que ser tratado como uma especificidade. É um desafio que temos como um um país agrícola”, disse.

O problema é ainda maior para quem é arrendatário. “O custo do crédito do arrendamento está pesando no fluxo de caixa dos produtores. A inadimplência verificada em produtor arrendatário é quase o dobro da inadimplência verificada no produtor que é proprietário da área”, citou.

Recentemente, o Banco Central afirmou que produtores arrendatários que financiam 100% do seu custo operacional ficarão no vermelho nesta safra.

Impacto da inadimplência

A inadimplência do setor não é generalizada, destacou Bittencourt, mas afeta grandes produtores de regiões importantes, como o Centro-Oeste e o Matopiba (confluência dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), o que é significativo em termos de valores para as instituições financeiras.

“É uma situação muito localizada, em determinados setores, em determinados perfis de produtores e não é uma situação generalizada do agro. Logicamente, como pega produtores de maior porte, o impacto econômico passa a ser maior”, afirmou.

Nem a massificação do atual Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) seria capaz de evitar essa situação, apostou ele. “São situações que têm a ver com o fluxo de caixa. No geral, os preços não caíram tanto abaixo do que o seguro cobriria”, apontou.

“Quanto mais seguro, seja de preço ou climático, melhor para o produtor e para as instituições que financiam, mas ele não é a solução de todos os problemas”, completou.

Do lado das instituições financeiras, ele vê espaço para mudanças no tratamento dados nas prorrogações de dívidas, com apuração mais acurada do real impacto de uma frustração de safra ou de preço no fluxo de caixa do produtor. A ideia é dosar o tamanho dessa prorrogação para que uma medida de ajuda não piore o endividamento.

Segundo ele, perdas parciais têm sido tratadas com alongamento total das prestações. Assim, há injeção de liquidez em momento de renda menor no campo. No entanto, se houver nova quebra na safra seguinte, a situação fica mais apertada, com o custeio atual e a parcela do anterior a serem pagas pelo produtor descapitalizado. “Se dividir 100% de um custeio em três parcelas, no ano seguinte o produtor terá que pagar um custeio mais um terço, vai virar uma bola de neve”, disse.

A conjuntura da safra 2025/26 mostra um cenário de estabilidade de produção e de preços, disse Bittencourt, com recuos no desembolso de crédito a juros livres e pé no freio dos investimentos.

Fonte: Globo Rural

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