Antes aberta a discussões públicas sobre a captação de novos recursos, a empresa de açúcar e etanol mudou o tom, o que contribuiu para um rebaixamento de sete níveis na nota de crédito pela S&P
Uma mudança no tom adotado pela Raízen – que passou de discussões públicas sobre a captação de novos recursos à recusa em descartar negociações envolvendo uma possível reestruturação de sua dívida – contribuiu para que a agência de classificação de risco S&P promovesse um rebaixamento de sete níveis na nota de crédito da companhia, um dos mais expressivos já registrados para uma empresa brasileira.
Na quarta-feira, 11, a Moody’s Local Brasil também rebaixou o rating da companhia de AAA para CCC+.
A companhia de açúcar e etanol vem enfrentando há meses os impactos de juros elevados e de safras piores do que o esperado. O mercado aguardava um acordo entre as controladoras Cosan e Shell para uma solução – estimativas apontam que a Raízen precisa de pelo menos R$ 20 bilhões em capital novo.
O impasse nas negociações entre os principais acionistas da empresa levou, por vezes, a uma venda em massa dos bonds, que se reverteram assim que a empresa negou estar em busca de uma reestruturação.
Mas, depois que pessoas com conhecimento do assunto dizerem, na semana passada, que a companhia estava discutindo possíveis cenários, incluindo um corte na dívida, a empresa não se manifestou.
No início da segunda-feira, 9, a Raízen informou que estava contratando consultores para avaliar opções que fortalecessem a liquidez e reequilibrassem suas finanças.
Os acionistas também se mantiveram em silêncio e não negaram que uma reestruturação estivesse entre as opções em consideração. Os títulos despencaram.
“Historicamente, no Brasil, as empresas que fazem esse tipo de anúncio tendem a proceder com uma reestruturação da dívida”, afirmou a analista Flávia Bedran, da S&P, em entrevista à Bloomberg News. “A falta de comunicação sobre novas vendas de ativos ou capitalização, combinada com a venda de títulos e a ausência de uma negação de reestruturação, levantou preocupações”.
A S&P rebaixou a classificação da empresa de grau de investimento para grau especulativo, no que Bedran descreveu como um dos maiores rebaixamentos já feitos em uma empresa brasileira.
A agência de rating Fitch também rebaixou sua classificação em cinco níveis e, horas depois, anunciou outro corte de três níveis. A Moody’s Ratings, por sua vez, já classificava a Raízen como especulativo desde o final de 2025.
Os títulos em dólar da empresa continuaram a desvalorizar, com os papéis com vencimento em 2037 caindo quase US$ 0,40 desde o início da semana passada. A queda fez com que o rendimento extra exigido pelos investidores para manter os títulos ultrapassasse a marca de 1.000 pontos-base, considerada distressed.

Os investidores com títulos globais da Raizen formaram um comitê de credores e contrataram a White & Case como assessor jurídico, segundo pessoas com conhecimento do assunto.
A pressão sobre o perfil de crédito da Raízen vinha aumentando nos últimos anos, com os altos gastos com investimentos e as taxas de juros persistentemente elevadas enfraquecendo os indicadores de liquidez e alavancagem, disse Bedran.
Ela apontou para as consideráveis saídas de caixa impulsionadas por anos de elevados investimentos de capital e uma forte alta nos custos de empréstimo – com a Selic atualmente em 15% – subindo muito acima das expectativas anteriores.
As próximas ações de rating dependerão se a Raízen prosseguirá com uma reestruturação da dívida ou uma recuperação judicial, ou se a companhia apresentará desenvolvimentos mais positivos, como uma injeção de capital, venda de ativos ou detalhes mais claros sobre como planeja lidar com sua estrutura de capital. Tanto a S&P quanto a Fitch mantêm a empresa em observação negativa.
“Já estamos falando de um nível muito baixo”, disse Bedran. “Eles divulgam os resultados na quinta-feira, então será muito importante ver se há um senso de urgência por parte dos acionistas em relação ao prazo para resolver essa questão”.
Por: Giovanna Bellotti Azevedo e Rachel Gamarski | Fonte: Bloomberg
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