Preço da ureia, utilizada na fabricação de nitrogenados, teve alta de 50% desde o início do conflito

O conflito no Oriente Médio, que entrou na quarta semana, tem provocado repercussão imediata no agronegócio brasileiro. A principal consequência é o impacto no preço dos fertilizantes, insumos essenciais às lavouras de soja e milho, por exemplo, alguns dos principais cultivos agrícolas do Brasil.
O preço da ureia, utilizada na fabricação de fertilizantes nitrogenados, teve alta de 50% desde o início da guerra, chegando nesta semana a US$ 725 a tonelada, segundo a consultoria StoneX. No caso do MAP (fosfato monoamônico), cotado a US$ 845, a elevação foi de 14% no mesmo período.
O motivo é o impacto da guerra sobre o fornecimento da principal matéria-prima dos fertilizantes e sobre sua logística de exportação.
“Fertilizantes são feitos a partir de gás natural”, explica o economista norte-americano Paul Krugman, Nobel de Economia em 2008.
“O gás natural pode ser exportado, e é exportado em grandes quantidades a partir do Golfo Pérsico. Mas isso é caro: é preciso resfriá-lo intensamente, liquefazê-lo e transportá-lo em terminais e navios especiais. Mas outra coisa que você pode fazer com o gás natural disponível naquela região é convertê-lo em fertilizante, que é muito mais fácil de transportar”, resumiu Krugman, em vídeo publicado no seu canal no YouTube.
A produção de gás natural, por sua vez, está relacionada ao fato de a região contar com grandes reservas geológicas, com uma das maiores concentrações de gás do mundo.
Uma parcela importante dos fertilizantes produzidos no planeta vem dessa região e passa pelo Estreito de Ormuz, pedaço de oceano entre o golfo de Omã e o golfo Pérsico, onde a navegação enfrenta restrições desde o início dos ataques.
No caso da ureia, o Oriente Médio representa 41% das exportações mundiais, somando 22 milhões de toneladas. A região conta ainda com 21% do comércio internacional de TSP (Triplo Superfosfato), MAP (Fosfato Monoamônico) e DAP (Fosfato Diamônico).
O preço da guerra
O cenário geopolítico já vinha influenciado esse mercado, por exemplo, com a guerra entre Rússia e Ucrânia, que segue em andamento. Os russos exportam cerca de 5 milhões de toneladas de fósforo anualmente.
“Quem poderia ‘ajudar’ é a Arábia Saudita, mas que fica no Oriente Médio, então é complicado. Poderia sair não pelo Estreito de Ormuz, mas pelo Mar Vermelho. E aí passava pelo Canal de Suez para fazer o escoamento. Mas hoje o custo de fazer essa essa mudança de porto, de uma costa para outra, é muito alto. É um plano B que está sendo estudado ainda”, afirma Renato Françoso, consultor de gerenciamento de risco de fertilizantes da StoneX.
Segundo maior produtor mundial de ureia, a Índia recebe parte do gás natural para produção do Irã. “Se ele (Irã) para de exportar gás natural para a Índia, a Índia diminui produção, precisa importar mais e aí é jogar gasolina na fogueira, porque a Índia é uma gigantesca consumidora”, acrescenta Françoso.
Outro fator que agrava o cenário é o fato de que a China, maior produtor mundial de fertilizantes, restringiu recentemente as suas exportações, com o objetivo de proteger o mercado interno. O gigante asiático produz quase 70 milhões de toneladas de ureia.
E o Brasil?
O conflito reacendeu o alerta sobre a dependência brasileira de fertilizantes importados. O país compra no exterior cerca de 85% dos nutrientes utilizados na agricultura, segundo a Embrapa, o que deixa o agronegócio vulnerável a crises geopolíticas e oscilações no mercado internacional.
Em 2022, após a eclosão da guerra da Ucrânia, o Brasil despertou para a importância do tema e lançou o Plano Nacional de Fertilizantes.
Em janeiro deste ano, a Petrobras retomou a produção de nitrogenados no Nordeste. A capacidade de produção é calculada em 3,1 mil toneladas de ureia por dia, o que corresponde a 12% do mercado nacional. Já o Projeto Autazes, da Potássio do Brasil, prevê a exploração do nutriente no Amazonas.
“Estamos vendo alguns avanços, a Petrobras está retornando ao setor de nitrogenados, então isso pode ser uma opção viável. Não conseguimos suprir toda a nossa demanda, mas em momentos como esse, em que o preço internacional fica muito caro, podemos ter algum incentivo para que essa indústria cresça e para fornecer alguns volumes internamente e aliviar um pouco esse cenário de dependência”, resume Maísa Romanello, analista de fertilizantes da Safras & Mercado.
Por: Danton Boatini Júnior | Fonte: Globo Rual
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