Estrutura implantada na RPPN Porto Cajueiro, pela Usina Coruripe em parceria com a Funatura, terá capacidade para produzir 70 mil mudas por ano

No Norte de Minas Gerais, onde o Cerrado resiste entre veredas e áreas sob pressão, uma nova estrutura começa a redesenhar o futuro da paisagem. Um viveiro de mudas nativas nasce capaz de transformar sementes em restauração ambiental e renda para comunidades locais. A Usina Coruripe concluiu a construção do viveiro na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Porto Cajueiro, em Januária, com capacidade estimada de produção de até 70 mil mudas por ano.
O foco é a recuperação de áreas degradadas e a doação de espécies do Cerrado para comunidades do entorno, em um modelo que combina conservação, desenvolvimento local e pesquisa. A iniciativa integra um esforço mais amplo de restauração ecológica no bioma, que enfrenta pressão crescente de desmatamento e conversão para monoculturas.
O viveiro foi implantado em modelo de parceria. A Coruripe ficou responsável pela cessão da área e pela construção da estrutura, enquanto a Funatura e outros parceiros vão atuar na operação e produção das mudas. O projeto conta com apoio do edital Floresta Viva, do Funbio, com recursos da Petrobras e do BNDES.
A produção está prevista para iniciar neste mês, com expectativa de que as primeiras mudas estejam prontas para plantio no final de 2026, durante o período chuvoso, considerado ideal para ações de restauração. O coordenador de Sustentabilidade da Coruripe, Aristoclides Costa, explica que a iniciativa responde a uma lacuna regional. “A motivação foi a falta de viveiros na região que forneçam mudas de espécies nativas características do Cerrado. O investimento inicial é de cerca de R$ 200 mil para essa primeira fase”, afirma. De acordo com ele, o volume anual de produção deve permitir a recuperação de cerca de 40 hectares por ano.
O viveiro também amplia o alcance das ações ambientais já desenvolvidas pela empresa na reserva. “O fornecimento de mudas adaptadas às condições locais é essencial para a restauração ecológica. Essas espécies vão oferecer alimento, abrigo e recursos tanto para a fauna quanto para as comunidades, incluindo produção de frutos e matéria-prima para artesanato”, pontua.
Cadeia da restauração envolve comunidades locais
O projeto integra o programa “Comunidades Gerais: Restaurando Veredas e Sertões”, coordenado pela Funatura, que prevê a recuperação de áreas de Cerrado em diferentes regiões, incluindo cerca de 200 hectares dentro da RPPN Porto Cajueiro. De acordo com o engenheiro florestal Cesar Victor do Espírito Santo, coordenador da Funatura, o viveiro é peça central para viabilizar a restauração. “Serão necessárias espécies nativas arbóreas, arbustivas e herbáceas. Vamos produzir cerca de 70 mil mudas por ano, que serão utilizadas nessas áreas”, explica.
O processo de produção segue etapas técnicas tradicionais, com coleta de sementes por comunidades locais, preparo de substrato, semeadura e irrigação contínua. Parte das espécies também será introduzida por semeadura direta no campo, estratégia que complementa o plantio de mudas.
Entre as espécies prioritárias estão pequi, jatobá, buriti e cagaita, selecionadas conforme as características de cada área. “O critério é reproduzir o mais próximo possível do que ocorre na natureza. O Cerrado tem diferentes fisionomias, como veredas, campos e áreas de cerrado sensu stricto, e cada uma exige espécies específicas”, pontua o coordenador da Funatura.
Além da dimensão ambiental, o projeto estrutura uma cadeia produtiva que envolve comunidades tradicionais. A coleta de sementes, o trabalho no viveiro e as ações de plantio contam com participação local, com geração de renda e fortalecimento do vínculo com o território. “Pessoas que antes não davam importância para frutos e sementes passam a valorizar esses recursos quando percebem o potencial de renda”, afirma o engenheiro ambiental.
Pressão sobre o Cerrado exige escala e inovação
Para especialistas, iniciativas como essa são estratégicas diante do cenário de degradação do bioma. “Há um grande desafio de restaurar milhares de hectares. Projetos como esse, ainda que em escala inicial, trazem aprendizado técnico que permite avançar com mais segurança e ampliar a atuação no futuro”, afirma Cesar Victor.
O viveiro também abre espaço para pesquisa científica em parceria com universidades, ampliando o conhecimento sobre técnicas de restauração adaptadas ao Norte de Minas. “Existe a intenção de continuidade da parceria. O viveiro pode se tornar uma referência na produção de mudas do Cerrado e no envolvimento de comunidades”, adianta.
O superintendente executivo da Funatura, Pedro Bruzzi, destaca o potencial da área. “A Porto Cajueiro reúne condições para se tornar um centro de referência em restauração do Cerrado e de áreas úmidas, especialmente veredas, que ainda são um grande desafio. Estamos buscando ampliar parcerias e captar recursos para consolidar esse trabalho.”
Reserva é referência em conservação e pesquisa
Mantida pela Usina Coruripe, a RPPN Porto Cajueiro ocupa cerca de 15 mil hectares e se consolidou como uma das principais reservas privadas do Cerrado mineiro. Localizada às margens do rio Carinhanha, afluente do São Francisco, a área integra o Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu, reconhecido pela biodiversidade.
A reserva abriga espécies como onça-pintada, lobo-guará, anta e jaguatirica, além de atuar como polo de pesquisa científica e educação ambiental. Em 2025, a unidade completou 20 anos de criação.
Entre os resultados recentes, está o registro do primeiro nascimento em vida livre de um bicudo (Sporophila maximiliani), espécie ameaçada de extinção. O marco é resultado do Projeto Bicudo, que já reintroduziu cerca de 200 aves na natureza desde 2018, indicando a retomada do ciclo reprodutivo da espécie na região.
No mesmo ano, a Coruripe também participou do lançamento do projeto de carbono REDD+ Sertão Veredas, em parceria com o Itaú Unibanco, Reservas Votorantim e EQAO. A iniciativa tem potencial para gerar até 72 mil créditos de carbono por ano na reserva.
Legado ambiental e socioeconômico
Para a Coruripe, o viveiro representa um investimento de longo prazo na região. “O principal legado será a recuperação de áreas degradadas com técnicas adaptadas ao Norte de Minas, melhoria da qualidade ambiental, proteção de mananciais e fortalecimento das comunidades locais”, afirma Aristoclides Costa.
Sobre a Usina Coruripe
A Usina Coruripe, controlada pelo grupo Tércio Wanderley, com sede em Coruripe (AL) e fundada em 1925, é a maior empresa do setor sucroenergético no Norte/Nordeste do Brasil. Está também entre os maiores grupos do setor em Minas Gerais e é uma das 10 maiores do Brasil. Com quatro unidades em Minas Gerais (em Iturama, Campo Florido, Carneirinho e Limeira do Oeste), uma em Alagoas (Coruripe) e um terminal ferroviário próprio em Iturama, a Usina Coruripe possui capacidade de moagem de 17 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, produz mais de 1,6 milhão de toneladas de açúcar, cerca de 500 milhões de litros de etanol, com capacidade de armazenagem de cerca da metade dessa produção, e comercializa energia renovável produzida a partir da queima de biomassa.
Fonte: Assessoria Usina Coruripe
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