
Os temporais que danificaram áreas rurais em Ribeirão Preto (SP) causaram prejuízos em instituições de pesquisa agrícola na região. O Centro de Cana, ligado ao Instituto Agronômico (IAC) sofreu danos em algumas de suas estruturas.
A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo (APqC) enviou à Globo Rural imagens que mostram construções destelhadas, árvores e postes caídos e instalações metálicas que desmoronaram.
No local, funciona o Centro de Cana IAC, responsável pelo trabalho de melhoramento genético, ciência de solo, fitotecnia e manejo de pragas e doenças. O trabalho que a unidade faz tem relação como desenvolvimento de 19 variedades de cana para o setor sucroenergético e uma para uso como forrageira.
A direção da APqC pontua que a chuva prejudicou redes elétricas e de comunicação, o que limita o contato com os pesquisadores do IAC em Ribeirão Preto. E afirma, atribuindo a relatos de servidores do local, que há informações, ainda que preliminares, de danos em estruturas administrativas e laboratórios.
“Conversei com um colega da área, e ele relatou que acabou afetando alguns laboratórios. Além do prédio central, atingiu locais onde se guarda insumos para pesquisa, prejudicando um pouco o trabalho esses dias”, afirma o pesquisador Sérgio Torquato, da secretaria da agricultura e diretor da APqC.
Em nota, a secretaria da agricultura e abastecimento de São Paulo (SAA) informa que ainda está contabilizando os danos e prejuízos no Centro de Cana do IAC. E que já trabalha no planejamento dos espaços atingidos. Algumas pesquisas terão que ser remanejadas, sem prejuízo ao trabalho científico.
“Os danos se concentraram principalmente em estruturas físicas, como coberturas e instalações. Até o momento, não foram identificados prejuízos que comprometam a continuidade dos experimentos científicos e pesquisas desenvolvidas na unidade”, diz o comunicado.
A pasta acrescenta que o ocorrido na estação de pesquisa em Ribeirão Preto teve “características excepcionais”. Informa que dados de estações meteorológicas na região mostraram que os ventos rapidamente chegaram a 160 quilômetros por hora. Outras três estações de pesquisa na região, no entanto, tiveram apenas quedas de energia.
El Niño ameaça fazendas de pesquisa, diz entidade
Na semana passada, a APqC voltou a manifestar preocupação com as áreas de pesquisa e de preservação ambiental no estado. Em nota, avaliou que a expectativa de fortalecimento do fenômeno climático El Niño coloca esses locais em situação de vulnerabilidade.
Apenas na pesquisa agrícola, são 39 localidades que, na visão dos pesquisadores, poderiam sofrer perdas e danos com o clima desfavorável. Em comunicado, a APqC relaciona a situação ao que classifica como uma falta de orçamento e de ações específicas de prevenção e combate a eventuais incidentes.
Uma das queixas dos pesquisadores é a falta de estrutura de apoio. A associação pontua que o governo de São Paulo editou, em fevereiro, um decreto extinguindo mais de 67 mil cargos em diversos setores da administração. Na secretaria da agricultura, foram mais de 3,3 mil.
Na época, a secretaria da agricultura justificou a extinção dos cargos como parte da política de “modernização administrativa” do estado. E afirmou que adota medidas de valorização das carreiras de pesquisa, extensão rural e de defesa agropecuária.
Agora, os pesquisadores reforçam as críticas à posição do governo de São Paulo. Reafirmam que a falta de apoio prejudica o desenvolvimento científico, porque, muitas vezes, fica a cargo do próprio pesquisador realizar tarefas como manutenção de terrenos e equipamentos e outras ações operacionais.
Torquato, que trabalha em uma fazenda de pesquisa no município de Tietê, no interior paulista, afirma que, em seu local de atuação, há apenas duas pessoas para os cuidados e redução de danos. “Temos que fazer o que podemos, mas precisamos de apoio. Depois que o evento climático ocorre, a dificuldade aumenta”, relata.
“O alerta é para mostrar que essa falta de pessoal e de investimentos nessas áreas, em uma situação de Super El Niño e de extremos climáticos, deixa nossas áreas de pesquisa muito fragilizadas”, acrescenta a presidente da APqC, Helena Dutra Lutgens.
Ela pontua que o alerta da entidade chama a atenção, principalmente, para riscos estiagem. De qualquer forma, diz, os investimentos podem reduzir danos e agilizar os reparos e retorno às atividades em uma área de pesquisa danificada pelo clima extremo, como a de Ribeirão Preto.
“O impacto acaba sendo muito maior do que se a gente se preparasse para esses eventos”, afirma Lutgens. “Há tempos se fala sobre a importância de se tomar medidas que reduzam o impacto das mudanças climáticas, e isso não tem sido feito”.
Por: Raphael Salomão | Fonte: Globo Rural
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