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Brasil pode construir rota própria para descarbonizar a mobilidade

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
2 junho, 2026
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Estudo do Instituto MBCBrasil projeta avanço de híbridos-flex, etanol, biometano e eletrificação até 2040; pressão internacional por rastreabilidade e pegada de carbono pode transformar transporte limpo em vantagem comercial

A transição da mobilidade no Brasil pode passar menos por uma substituição dos carros à combustão por modelos elétricos e mais por uma combinação de rotas tecnológicas adaptadas à realidade energética e industrial do país.

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Etanol, híbridos-flex, biometano, biodiesel, combustíveis sustentáveis de aviação, eletrificação parcial e infraestrutura de recarga formam um mosaico estrutural que, segundo especialistas, pode transformar vantagens brasileiras em uma estratégia de descarbonização, de fato, competitiva.

O acordo entre Mercosul e União Europeia, concluído após mais de 20 anos de negociações, tende a ampliar exigências ambientais sobre produtos brasileiros. A pressão por rastreabilidade, pegada de carbono e critérios sociais deve crescer sobre cadeias ligadas à indústria automotiva, energia, combustíveis e agroexportação.

“Ao mesmo tempo em que o acordo abre mercados para a indústria automotiva e bioenergética do Brasil, com alíquotas declinantes, portanto mais atrativas, ele impõe rígidos critérios de medição da pegada de carbono no ciclo produtivo, da comprovação de rastreabilidade ambiental e a aderência a critérios sociais previstos nas diretrizes europeias”, analisou o presidente do Instituto MBCBrasil, José Eduardo Luzzi, em entrevista ao Um Só Planeta.

Luzzi considera que a competitividade comercial brasileira deverá estar associada ao cumprimento desses requisitos. O desafio, porém, é fazer com que as especificidades da matriz energética brasileira sejam reconhecidas nos parâmetros internacionais.

“Há um caminho a ser percorrido para que a comunidade europeia aceite os biocombustíveis de primeira geração como fontes de descarbonização da mobilidade e das certificações nacionais como válidas nos parâmetros definidos por suas diretrizes”, avaliou.

Uma transição menos óbvia

O Instituto MBCBrasil é uma organização multissetorial dedicada a acelerar a descarbonização da mobilidade no país.

A entidade reúne empresas, associações, entidades de pesquisa e representantes de trabalhadores com o objetivo de transformar evidências técnicas em propostas de políticas públicas. Sua atuação se baseia na chamada neutralidade tecnológica, conceito segundo o qual diferentes soluções podem contribuir para a redução de emissões, desde que avaliadas por critérios técnicos e pelo impacto real ao longo do ciclo de vida.

Essa visão aparece no estudo “Iniciativas e Desafios Estruturantes para Impulsionar a Mobilidade de Baixo Carbono no Brasil até 2040”, elaborado pela LCA Consultores para o Instituto MBCBrasil. O levantamento projeta uma expansão expressiva dos veículos eletrificados no Brasil, mas indica que a transição nacional continuará fortemente apoiada nos motores flex e nos biocombustíveis.

De acordo com o estudo, a participação dos veículos eletrificados na frota circulante deve crescer 44 vezes até 2040. No segmento de veículos leves, os eletrificados podem chegar a 17,4 milhões de unidades, mais de 27% da frota nacional. Ainda assim, os motores flex devem seguir predominantes: a projeção é que representem 62,4% da frota leve em 2040.

Na visão de Luzzi, esse dado mostra que a discussão sobre mobilidade sustentável ficou excessivamente concentrada no carro elétrico, desviando possibilidades para acelerar o processo.

“A eletrificação é uma tecnologia importante e terá um papel crescente globalmente, mas a discussão não pode ignorar as realidades econômicas, sociais, energéticas e industriais de cada país. No caso brasileiro, defender apenas uma rota tecnológica significa desconsiderar vantagens competitivas já consolidadas, especialmente, em bioenergia”, afirmou.

Nesse ponto, os híbridos-flex aparecem como uma das principais apostas brasileiras. Oriundos do setor de bioelétricos, esses veículos combinam eletrificação parcial com o uso de combustível renovável, especialmente, o etanol. A tese é que essa solução pode reduzir emissões sem estar atrelada à infraestrutura de recarga ainda em expansão.

“Os bioelétricos, híbridos-flex, representam uma solução particularmente aderente à realidade brasileira porque combinam eficiência energética, eletrificação parcial e uso de combustível renovável. Isso permite reduzir emissões de forma competitiva, sem depender exclusivamente de uma infraestrutura de recarga ainda em expansão ou de uma substituição acelerada da frota nacional”, disse Luzzi.

Etanol, SAF e biometano

O estudo também projeta uma ampliação da demanda por etanol. No cenário-base, o consumo do combustível no ciclo Otto deve passar de 33,6 bilhões de litros em 2025 para 47,8 bilhões de litros em 2040. Em um cenário alternativo, pode chegar a 52,2 bilhões de litros.

A expansão não viria apenas dos veículos leves. O etanol também deve ganhar espaço como insumo para a produção de combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF, e como alternativa para transporte marítimo, máquinas agrícolas e caminhões fora de estrada. Segundo o material do Instituto MBCBrasil, a demanda por etanol pode ser ampliada em até 2,4 vezes até 2040, considerando esses novos usos.

O biometano é outro vetor apontado como estratégico, especialmente para o transporte pesado. Produzido a partir de resíduos agroindustriais, pode substituir parte do diesel utilizado em caminhões e ônibus. O estudo aponta que o combustível tem potencial para substituir até 70% do consumo de diesel no transporte pesado até 2040, desde que haja infraestrutura e políticas públicas coordenadas.

A descarbonização dos pesados é considerada uma das frentes mais urgentes. O transporte de cargas no Brasil é majoritariamente rodoviário e ainda depende fortemente do diesel. Em estudo anterior, o MBCBrasil indicou que os veículos pesados representam cerca de 6% da frota, mas respondem por aproximadamente 57% das emissões de gases de efeito estufa do transporte.

Mesmo em 2040, a projeção do Instituto é que 85% da frota de caminhões ainda seja formada por veículos de combustão interna. Por isso, a transição desse segmento deve depender de uma combinação entre biodiesel, biometano, gás natural, eletrificação em rotas específicas e renovação de frota.

Infraestrutura e gargalo

Apesar do potencial, o estudo aponta que a transição da mobilidade brasileira depende de um salto em infraestrutura. A demanda por eletricidade para veículos leves deve sair de 693 GWh em 2025 para 28,7 mil GWh em 2040.

Para acompanhar esse crescimento, seriam necessárias cerca de 807 mil novas estações de recarga até 2040, com investimento estimado entre R$ 20,7 bilhões e R$ 24,9 bilhões em eletropostos.

Luzzi argumenta que o Brasil tem condições de atender à expansão da demanda por combustíveis renováveis, porém, precisa avançar em planejamento e coordenação.

“O país tem potencial para atender essa expansão, mas ainda precisa avançar de forma consistente em planejamento, coordenação, investimentos e segurança regulatória para o aumento de capacidade, o avanço da produtividade no campo, na recuperação de terras degradadas e na infraestrutura de distribuição, de forma sustentável, eficiente e rastreável”, afirmou.

Políticas como o RenovaBio e o programa Combustível do Futuro representam tentativas de estruturar uma transição energética adaptada às características brasileiras, estimulando aumento de produtividade, expansão sustentável da biomassa, rastreabilidade e previsibilidade regulatória para novos investimentos.

Na avaliação do instituto, a discussão não se resume a escolher uma tecnologia prioritária, mas construir uma transição viável para um país continental, com desigualdades regionais, matriz renovável consolidada e forte dependência do transporte rodoviário.

Métrica vira disputa

Um dos pontos da discussão é como medir a emissão real de cada tecnologia. A análise apenas do escapamento tende a favorecer veículos elétricos, que não emitem durante o uso. No entanto, avaliações mais amplas, como a análise de ciclo de vida, consideram também a fabricação do veículo, origem da energia, produção de combustíveis, baterias, insumos e descarte.

Para o Instituto MBCBrasil, essa diferença é decisiva para países como o Brasil, onde a matriz elétrica é majoritariamente renovável e há uma cadeia consolidada de biocombustíveis.

“A pressão internacional por rastreabilidade e pegada de carbono pode representar tanto uma oportunidade estratégica quanto um risco comercial para o Brasil”, disse Luzzi. O país possui vantagens comparativas importantes, contudo, precisam ser demonstradas com dados auditáveis.

“O mercado internacional caminha para exigir cada vez mais dados auditáveis sobre emissões, origem da biomassa, da matéria-prima, uso da terra, intensidade de carbono e rastreabilidade produtiva. Nesse contexto, a discussão deixa de ser apenas ambiental e passa a ser também comercial e geopolítica”, afirmou.

O risco é o Brasil apenas reagir a padrões definidos externamente, sem participar da construção das regras globais. Nesse caso, soluções brasileiras de baixo carbono poderiam ser avaliadas por modelos desenhados para realidades energéticas diferentes, sobretudo, de países com matrizes mais dependentes de carvão, gás e petróleo.

“Corremos o risco de ter suas especificidades energéticas e produtivas ignoradas em modelos internacionais desenhados para outras realidades”, disse o especialista.

Disputa industrial

A transição da mobilidade também tem um componente industrial. Um estudo anterior do MBCBrasil, elaborado pela LCA Consultores e MTempo Capital, comparou cenários de eletrificação da frota e apontou que uma trajetória com predominância de híbridos poderia gerar impacto econômico mais positivo do que uma rota dominada por veículos 100% elétricos.

De acordo com o levantamento, o cenário com híbridos teria uma diferença acumulada de R$ 2,8 trilhões no Produto Interno Bruto (PIB) e 1,6 milhão de empregos em relação ao cenário de predominância de elétricos puros. A explicação está no maior conteúdo local da cadeia produtiva híbrida, que preserva parte dos elos industriais já existentes e incorpora novas tecnologias.

Para Luzzi, uma transição baseada exclusivamente em eletrificação poderia ampliar a dependência tecnológica externa em relação a minerais críticos, baterias e cadeias produtivas concentradas em poucos países. “Isso pode gerar desafios para a competitividade industrial brasileira”, afirmou.

Na avaliação do instituto, a discussão não deve ser tratada como uma disputa entre tecnologias, mas como uma tentativa de reduzir emissões preservando empregos, capacidade industrial e segurança energética.

A ideia não é negar a importância da eletrificação, mas evitar que ela seja tratada como a única rota possível. Conforme a argumentação, no caso brasileiro, a combinação entre eletrificação, bioenergia e eficiência energética pode ser uma forma de reduzir emissões, preservar capacidade industrial e criar mercados de exportação.

O Instituto MBCBrasil defende que o país não deve apenas copiar os modelos de transição adotados por China, Europa ou Estados Unidos. A realidade brasileira permite uma estratégia mais diversificada, com potencial de influência sobre outros países em desenvolvimento.

“Poucos países reúnem as condições que o Brasil possui: matriz elétrica majoritariamente renovável, forte produção de biocombustíveis, capacidade agrícola, experiência industrial automotiva e disponibilidade de diferentes fontes energéticas de baixo carbono”, ressaltou Luzzi.

Segundo ele, o país pode protagonizar uma agenda de mobilidade de baixo carbono mais adaptada às condições do Sul Global, exportando tecnologia flex, modelos regulatórios, biocombustíveis e conhecimento acumulado em bioenergia.

“O Brasil pode e deve liderar ativamente o Sul Global para a adoção gradual do modelo nacional de descarbonização da mobilidade, exportando know how (expertise), modelos regulatórios, biocombustíveis e tecnologia automotiva, como os carros flex e bioelétricos”, disse.

O potencial, porém, não garante liderança automática. A disputa dependerá da capacidade de coordenar política industrial, infraestrutura, certificação, segurança regulatória e posicionamento internacional.

“A questão central agora é nos organizarmos, poder público, privado e sociedade, para estruturarmos políticas públicas e estratégias industriais que endereçam os desafios estruturantes para que a oferta e distribuição futura atenda a demanda projetada”, finalizou Luzzi.

Por: Nilson Cortinhas | Fonte: Um Só Planeta

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