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Brasil terá que investir para atender B20 em 2030

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
9 julho, 2025
em Biocombustíveis
Tempo de leitura: 7 minutos
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Home Bioenergia Biocombustíveis
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Consultoria Bain alerta que país corre o risco de viver um déficit de oferta se não surgirem novos projetos de ampliação de capacidade industrial do setor

Sem novos investimentos, Brasil corre o risco de chegar em 2030 com um déficit de 800 mil toneladas de óleos vegetais — Foto: Globo Rural

O Brasil terá de continuar investindo em novas capacidades industriais de produção de óleo vegetal caso o governo mantenha o plano de aumentar progressivamente a mistura de biodiesel ao diesel até 20% (B20) em 2030, como está previsto na Lei do Combustível do Futuro. Essa é a conclusão do estudo da consultoria Bain, que indicou que o país corre risco de viver um déficit de oferta a partir de 2030 se não surgirem novos projetos de ampliação de capacidade industrial do setor.

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Atualmente, a mistura está em 14%, e subirá para 15% (B15) a partir de agosto, conforme aprovado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em junho. Pela lei do Combustível do Futuro, a mistura deve crescer 1 ponto percentual ao ano até chegar aos 20% em 2030. A projeção da Bain leva em consideração a capacidade industrial existente hoje para produzir óleos vegetais e também os investimentos já anunciados e planejados para os próximos anos.

Além disso, o cálculo considera somente a demanda do setor de biodiesel por óleos vegetais, e não leva em conta a demanda por outras indústrias de biocombustíveis, como a de combustível sustentável de aviação (SAF) e o diesel verde (HVO), que ainda não existem em operação no país.

As indústrias de óleos vegetais do país têm uma capacidade ociosa hoje em torno de 12% a 13%, e os novos projetos anunciados até agora preveem um acréscimo de capacidade de 1 milhão de toneladas a 1,5 milhão de toneladas por ano até 2027, segundo a Bain. Mesmo com essa ampliação industrial, a demanda por óleos vegetais deve crescer mais até lá, fazendo com que a capacidade ociosa do setor caia para 9% nesse prazo, se não houver novos projetos.

A situação pode começar a apertar em 2028, nas contas da consultoria. Nesse ano, a ociosidade deve ficar abaixo de 1 milhão de toneladas, e em 2029 a produção e a demanda por óleos vegetais deve praticamente empatar. Sem novos investimentos, o Brasil corre o risco de chegar em 2030 com um déficit de 800 mil toneladas de óleos vegetais, estimou a Bain.

Diante dessa perspectiva, o setor precisa se debruçar já sobre novos projetos de expansão de capacidade, avalia Felipe Cammarata, sócio da Bain. “Para um investimento começar a operar em 2028, precisa ser formalizado até 2026. Temos que ter projetos no curto prazo considerando os mandatos [de mistura]”, alerta.

Desde o último ano, a indústria já vem anunciando investimentos mesmo com a existência de capacidade ociosa. “Os projetos já estão acontecendo e os investimentos não vão acontecer somente após se esgotar a capacidade”, avaliou Daniel Amaral, economista-chefe da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove).

Investimentos

Em junho, quando o CNPE aprovou o B15, o Ministério de Minas e Energia (MME) afirmou que a mistura impulsionaria mais de R$ 5 bilhões em investimentos. Antes da Lei do Combustível do Futuro ser aprovada, a Abiove projetava que o setor investiria US$ 10 bilhões em novas indústrias nos próximos anos diante da demanda esperada.

Neste ano, entre os maiores anúncios de investimento esteve o da Cocamar, que vai investir R$ 750 milhões em uma nova esmagadora de soja em Maringá (PR). No ano passado, um dos maiores anúncios foi o da cooperativa Comigo, que anunciou um projeto de R$ 1,3 bilhão em uma esmagadora em Palmeiras de Goiás (GO). “A lei do Combustível do Futuro já está gerando investimentos na cadeia produtiva”, assegurou Amaral.

A produção de biodiesel não é o único destino dos óleos vegetais no Brasil. O produto é usado ainda no mercado doméstico de alimentos e para exportação, destinos que representaram 45% das vendas de óleo vegetal no ano passado. As estimativas da Bain já consideraram que o aumento da mistura de biodiesel poderia “roubar” óleo vegetal desses segmentos, que passariam a ter uma participação reduzida nos próximos anos.

Essa demanda crescente do biodiesel poderia fazer o consumo de óleo vegetal nos alimentos e para exportação cair 14,4 pontos percentuais até 2030, nas contas da consultoria. Porém, se esses segmentos aumentarem sua demanda pelo óleo vegetal brasileiro, há ainda maior risco de estrangulamento da oferta.

O aumento do consumo de biodiesel também pode reduzir a parcela da soja destinada para exportação. No ano passado, 64% da soja em grão colhida no país foi exportada, mas com o aumento da mistura e o crescimento orgânico do consumo de combustíveis, a fatia “exportável” pode cair para 59%, segundo a Bain. O motivo é que, ainda que a produção brasileira de soja possa crescer a uma média de 4% ao ano até o fim da década, o consumo de biodiesel tende a ter um incremento de 8% ao ano.

Mundo precisará de mais matéria-prima

Se as políticas de mandatos e misturas de biocombustíveis convencionais e avançados de diferentes países forem cumpridas pelos próximos anos, vai faltar matéria-prima para atender toda a demanda até o fim da década. Nas contas da consultoria Bain, haverá um déficit de 20% de matérias-primas de óleos e gorduras para atender a necessidade de biodiesel, de diesel renovável (HVO, quimicamente igual ao diesel fóssil) e de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês).

A estimativa leva em consideração o uso de óleos vegetais, gordura animal e óleo de cozinha usado para atender a futura demanda por biocombustíveis, e constituem a rota de produção “HEFA”.

Para produzir esses biocombustíveis, portanto, será necessário ou ampliar a produção de óleos da rota HEFA ou também apostar em novas rotas de produção. Sem isso, o déficit só tende a aumentar de 2030 em diante.

Pela lei do Combustível do Futuro, a mistura de biodiesel ao diesel deve crescer 1 ponto percentual ao ano até chegar aos 20% em 2030 — Foto: Divulgação/Embrapa
Pela lei do Combustível do Futuro, a mistura de biodiesel ao diesel deve crescer 1 ponto percentual ao ano até chegar aos 20% em 2030 — Foto: Divulgação/Embrapa

A projeção leva em consideração a taxa histórica de evolução da produtividade dessas matérias-primas, sem ampliação de área cultivada em nenhum lugar no mundo, e o maior aproveitamento possível de resíduos dentro do que é logisticamente viável, explica Felipe Cammarata, sócio da Bain.

“O que apontamos é: precisamos fazer algo a mais”, sustenta. Isso pode envolver tanto melhorias em genética agrícola, cultivar mais safras em uma mesma área — como já é feito no Brasil —, e investir em ganhos de produtividade.

Oferta e demanda mundial

Se o aumento da oferta de matéria-prima tiver que passar pela expansão de plantios, há áreas em nível global que podem ser alvo de ampliação “sem expandir a área sobre floresta”, defende.

No campo dos resíduos, é possível aumentar a oferta de matéria-prima seja com maior uso de sebo bovino, de resíduos agrícolas, e de saneamento. “Há muitas alavancas para fechar esse gap, mas precisa de investimento.”

Para Cammarata, o mundo deverá se dividir entre países que terão mais demanda por biocombustíveis do que suas produções de matéria-prima são capazes de atender, enquanto outros países terão produção de matérias-primas além do que precisam para satisfazer suas políticas internas.

Nesse balanço, ele acredita que o setor poderá seguir os passos da indústria mundial de óleo e gás, na qual muitos países buscaram construir uma infraestrutura de refino, ainda que não tenham acesso a bacias de petróleo. “Nesse setor, o comércio de matéria-prima é muito superior ao do produto terminado. Imaginamos algo similar [em biocombustíveis].”

Nesse caso, a tendência seria que muitos países busquem ter uma infraestrutura de processamento das matérias-primas, ainda que nem sempre suficiente para atender as políticas locais.

No setor de biocombustíveis, porém, além da questão estratégica, Cammarata ressalta que deve contar também a pegada de carbono, o que pode estimular mais investimentos em processamentos nos locais onde já há matéria-prima para evitar emissões no transporte dos produtos.

Por: Camila Souza Ramos | Fonte: Globo Rural

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