O mercado de trabalho nunca foi tão diverso como atualmente. Pela primeira vez na história, cinco gerações convivem simultaneamente no mesmo ambiente profissional, desde os baby boomers, nascidos no pós-guerra, à geração Alfa, que começa a ingressar como muitas vezes como aprendizes. Essa pluralidade gera desafios significativos para empresas de todos os setores, incluindo o agronegócio, que precisa equilibrar experiência e inovação para garantir seu protagonismo global.
No agro, um setor em constante transformação tecnológica, essa convivência intergeracional ganha ainda mais complexidade. Especialista do setor e membro do conselho da Coplana, Socicana e STAB, José Rossato Jr. destacou durante uma plenária do II Simpósio Nacional de Tecnologia Industrial, evento organizado pelo Grupo de Empresas Parceiras (GEP), a dificuldade de ajustar a comunicação para públicos com expectativas e linguagens tão diferentes. “Boa comunicação não é o que achamos que dissemos, mas o que o receptor entende. Estamos conseguindo falar com essa nova geração? A geração Alfa, formada por jovens nascidos entre 2010 e 2025, já começa a integrar o mercado como menores aprendizes, trazendo um domínio intuitivo das tecnologias digitais, mas também exigindo abordagens mais modernas de liderança e treinamento. Por outro lado, gerações mais experientes, como os baby boomers, valorizam a hierarquia e a estabilidade, características que entram muitas vezes em choque com o dinamismo esperado pelas gerações mais jovens, como os millennials e a geração Z”, disse.
Paulo Gallo, diretor da Servserth Automação Industrial, reforçou que, além da comunicação, a sustentabilidade é um ponto central que une essas gerações, embora com perspectivas distintas. “Os problemas climáticos estão chegando mais rápido do que imaginávamos, e o agronegócio precisa continuar liderando iniciativas sustentáveis. As novas gerações já vêm com essa mentalidade, mas precisamos de líderes que conectem essas ideias à prática”, afirmou.
Márcio Venturelli, Coordenador Técnico do Instituto SENAI de Tecnologia, acrescentou que a transição de gerações também afeta a velocidade com que tecnologias são adotadas no setor. “A tecnologia não é novidade, mas precisa ganhar escala. Os grandes grupos já estão investindo fortemente nisso, mas é necessário acelerar. É com inovação e adaptação que vamos responder aos desafios do mundo”.

Adaptações necessárias
Rossato chamou a atenção para um ponto importante que é o posicionamento estratégico do setor especialmente na comunicação com o público interno e externo. Ele mencionou o exemplo do etanol no Brasil, que já possui uma mistura de 27% com gasolina, chamada de E27. “Lá fora, chamam o E10 de grande avanço, enquanto aqui continuamos chamando o E27 simplesmente de gasolina. Isso é um reflexo de como podemos melhorar na forma de apresentar o que fazemos. Enquanto os mais experientes trazem sua sabedoria acumulada, os jovens podem contribuir com novas perspectivas e habilidades digitais. É um ajuste de abordagem, que exige paciência, mas é fundamental para o futuro do setor”.
Paulo Gallo destacou ainda como as novas gerações podem trazer uma visão mais inovadora para o debate sobre sustentabilidade. O especialista lembrou que o Brasil possui uma matriz energética majoritariamente renovável e que pode usar esse diferencial para se destacar no mercado internacional. “Temos o know-how e os recursos, mas precisamos de comunicação eficaz e líderes que guiem essa transição”, comentou.
Para Venturelli, o caminho passa por educação e capacitação, além de liderança estratégica. Ele apontou que a inovação não pode se limitar às grandes empresas, mas precisa alcançar todo o ecossistema do agronegócio. “Todos nós estamos no caminho certo, mas precisamos acelerar esse processo. É com a força coletiva que o Brasil pode se manter competitivo”, disse.
O desafio de gerenciar cinco gerações no mercado de trabalho vai além da comunicação. Ele reflete a necessidade de adaptação constante das empresas para atrair, reter e engajar talentos em um setor que se reinventa a cada dia. Com isso, a pluralidade geracional deixa de ser apenas uma complexidade para se transformar em uma vantagem estratégica.
Mas há um ponto que precisa de mais atenção: enquanto sabemos produzir, inovar e liderar em sustentabilidade, muitas vezes não sabemos contar a nossa própria história. Precisamos nos comunicar melhor, tanto internamente quanto com o mundo, valorizando aquilo que fazemos de forma única. Para isso, é essencial conversarmos mais entre nós, aprendermos a “vender nosso peixe” e mostrar com clareza e confiança o que o agro brasileiro tem de melhor. Afinal sabemos fazer, e já passou da hora de sabermos contar.
Por: Fábio Palaveri – Visão Agro
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