Produção de etanol deve crescer 10,4%, enquanto açúcar recua 5%
A maior disponibilidade de cana-de-açúcar na safra 2026/27 deverá favorecer a produção de etanol no Centro-Sul brasileiro, enquanto a fabricação de açúcar tende a diminuir. O cenário faz parte das projeções apresentadas pela DATAGRO durante a 26ª Conferência Internacional DATAGRO sobre Açúcar e Etanol, realizada nos dias 26 e 27 de outubro, em São Paulo – SP.
A estimativa aponta crescimento de 4,8% na moagem em relação à temporada anterior, quando foram processadas 611,15 milhões de toneladas. Apesar da expansão do volume, o teor médio de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) deverá cair 2,2%, de 137,79 para 134,80 quilos por tonelada de cana. Ainda assim, a oferta total de ATR deverá alcançar 86,34 milhões de toneladas, alta de 2,5%.
Segundo Plinio Nastari, presidente da DATAGRO, o mix destinado ao açúcar deverá diminuir de 50,4% para 46,7%, com produção estimada em 38,42 milhões de toneladas. Já o volume total de etanol, incluindo o combustível de milho, deverá atingir 37,21 bilhões de litros, dos quais 23,32 bilhões de litros de hidratado e 13,88 bilhões de litros de anidro.
O etanol de milho deverá responder por 10,15 bilhões de litros, ante 9,19 bilhões de litros no ciclo anterior. O avanço ocorre em um período de recuperação do consumo doméstico de biocombustíveis e de maior participação do anidro na gasolina.
Chuvas prolongam operações e deixam 34 milhões de toneladas no campo
As precipitações frequentes têm dificultado o andamento da colheita, principalmente em São Paulo, e levado usinas a prolongar o calendário de moagem. Levantamento do DATAGRO Crop Survey, realizado com 71 unidades industriais, indica que aproximadamente 5% da cana disponível deverá permanecer nos campos ao final da temporada.
O volume corresponde a cerca de 34 milhões de toneladas de cana bisada no Centro-Sul, considerando a posição projetada para 31 de março de 2027. A distribuição não é uniforme entre as regiões produtoras. Em Barretos, a estimativa chega a 21,5%, enquanto São José do Rio Preto apresenta 18,9%. Em Minas Gerais, o percentual previsto é de 18,2% e, em Ribeirão Preto, de 5,9%.
De acordo com a pesquisa, 96% das usinas consultadas pretendem encerrar as operações até a segunda quinzena de dezembro, enquanto 4% deverão manter a moagem durante a entressafra. A necessidade de processar parte da matéria-prima remanescente também poderá antecipar a retomada das atividades em março de 2027.
A maior umidade do solo favoreceu o crescimento vegetativo e o ganho de peso das plantas, mas trouxe dificuldades para a maturação. O atraso da colheita também reduz o intervalo disponível para o desenvolvimento das soqueiras e aumenta a exposição das lavouras a problemas fitossanitários.
Condições agrícolas favorecem início da próxima temporada
Para 2027/28, a DATAGRO ainda considera prematuro estabelecer projeções de moagem e produção. O comportamento climático nos próximos meses, o volume de cana bisada e a evolução dos preços de açúcar, etanol e combustíveis fósseis serão determinantes para o planejamento das usinas.
O levantamento agronômico aponta condições favoráveis para o primeiro terço da próxima safra, sustentadas pela disponibilidade de matéria-prima e pelo bom desenvolvimento das áreas plantadas. Nos períodos seguintes, porém, os resultados poderão ser afetados pelo atraso da colheita anterior, pela menor disponibilidade de áreas renovadas e pelos danos às soqueiras.
Demanda fraca preocupa mercado internacional de açúcar
No comércio exterior, a desaceleração dos embarques brasileiros indica menor procura pelo açúcar. Os descontos para entrega imediata do produto VHP em Santos chegaram à faixa de 100 a 110 pontos, enquanto os contratos para novembro também passaram a ser negociados com deságio.
Na Índia, os preços domésticos voltaram a subir com o início da moagem. A DATAGRO estima produção de aproximadamente 26,5 milhões de toneladas na safra 2026/27, em um cenário de restrições à destinação de matéria-prima para fabricação de etanol.
A China deverá reduzir suas importações para cerca de 2,7 milhões de toneladas, diante do aumento da produção interna e da retração do consumo. Os estoques finais do país estão projetados em 5,05 milhões de toneladas.
Na União Europeia, a redução de 8,3% na área plantada de beterraba deverá limitar a produção de açúcar a 12,7 milhões de toneladas, ampliando a necessidade de importações para aproximadamente 3 milhões de toneladas.
Apesar do enfraquecimento da demanda em alguns mercados, o balanço mundial deverá permanecer deficitário. A DATAGRO projeta diferença negativa de 3,92 milhões de toneladas entre oferta e consumo em 2026/27, com redução da relação entre estoques e consumo para aproximadamente 39%.
Etanol ganha espaço no mercado interno e no exterior
O consumo brasileiro de etanol hidratado ultrapassou 2 bilhões de litros mensais em agosto e setembro de 2026, favorecido pela melhora da competitividade diante da gasolina. A elevação da mistura obrigatória de anidro de 30% para 32% também contribuiu para ampliar a demanda pelo biocombustível.
A reforma tributária foi apontada por Nastari como outro fator relevante para a expansão do mercado. Segundo as projeções apresentadas, o etanol era competitivo em quatro estados em outubro de 2025, passou a apresentar vantagem em 11 estados neste mês e poderá alcançar 22 unidades da Federação até 2033, com a maior uniformidade tributária.
No exterior, a DATAGRO identifica oportunidades relacionadas à ampliação das misturas obrigatórias. O Vietnã adotou o E10 em junho de 2026, com potencial de importação de 900 milhões de litros anuais. Nos Estados Unidos, uma eventual disseminação do E15 poderia acrescentar entre 16 bilhões e 19 bilhões de litros ao consumo doméstico.
O transporte marítimo também aparece entre as novas possibilidades de utilização do etanol. A apresentação destacou projetos comerciais de abastecimento de navios e estimativas de que entre 70 e 100 embarcações já sejam compatíveis com etanol ou metanol, embora a expansão dependa de infraestrutura e avanços regulatórios internacionais.
Custos elevados limitam investimentos nos canaviais
Além das perspectivas de mercado, a situação financeira dos fornecedores de cana foi discutida por Paulo Leal, presidente da Federação dos Plantadores de Cana do Brasil (FEPLANA). Segundo ele, a melhora das cotações não elimina as dificuldades provocadas pelos custos agrícolas e pela remuneração da matéria-prima.
“O desafio do nosso setor não é apenas produzir mais cana, mas transformar essa produção em renda, capacidade de investimento e sustentabilidade econômica para quem está no campo”, afirmou.
Leal destacou que os preços pagos pela cana no Centro-Sul permanecem entre R$ 100 e R$ 110 por tonelada, patamar que exige atenção diante das despesas com manutenção das lavouras e implantação de novas áreas.
“Uma recuperação de preços não significa automaticamente a recuperação financeira do produtor”, disse.
Segundo o presidente da FEPLANA, a renovação anual de 12% a 20% dos canaviais é necessária para preservar a produtividade e atender à demanda da indústria. O custo dessa reposição, porém, depende da capacidade de investimento dos fornecedores, pressionada pelas despesas agrícolas e pelos valores recebidos pela matéria-prima.
Fonte: Canaoeste
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