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No mundo do tarifaço, o Brasil tem questões a resolver, diz Rubens Barbosa

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
20 julho, 2026
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Ex-embaixador em Washington e Londres aconselha o governo a evitar retaliações e criar canais de negociação, embora sem ceder a demandas prejudiciais aos interesses brasileiros

Foto: Estadão

Ex-embaixador do Brasil em Washington entre 1999 e 2004, Rubens Barbosa tem a percepção de que o governo, a mídia e muitos economistas e empresários brasileiros estão tendo uma análise equivocada sobre a estratégia dos Estados Unidos de taxar o país.

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Ele vê na medida, mais do que uma questão política ou comercial específica, uma mudança da posição americana quanto a sua política comercial para todo o mundo.

O governo de Donald Trump estaria impondo uma nova ordem global, em que vale a lei do mais forte, e o Brasil e o resto do mundo precisariam se adaptar a isso, e de pouco serve se prender a modelos antigos, de quando as regras internacionais e as instituições multilaterais funcionavam.

Barbosa, depois de ter liderado a primeira das negociações do país para evitar que o aço exportado fosse taxado pelos EUA, agora defende que o Brasil reconstrua canais de negociação com o governo Trump, ceda em alguns pontos, proteja outros de interesse nacional e abra mais a economia.

Em paralelo, diz, é necessário também fazer o trabalho de casa de resolver problemas estruturais, atacar o problema fiscal, que agrava a inflação e os juros. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

O que significa essa nova imposição de tarifas dos EUA ao Brasil? Muitos analistas defendem que se trata de uma questão política, e que seria inevitável. Outros dizem que faltou negociação por parte do governo brasileiro.
Sinto que a mídia em geral e o governo não estão mostrando que entenderam o que aconteceu. Essas tarifas começaram em abril do ano passado e representam uma mudança da posição americana no comércio internacional. E é algo contra o mundo inteiro, não contra o Brasil. A motivação desta tarifa tem como objetivo muito claro atrair investimentos para o território americano, reduzir o desequilíbrio da balança comercial e afastar a China de alguns mercados.

O Brasil, no entanto, tem sido um dos alvos principais por algum motivo específico?
Desde o começo, no ano passado, o Brasil foi atingido com os níveis mais altos das tarifas. Mas isso não tem razão na política interna brasileira, como está sendo alegado por aí. Mas, então, por que o Brasil está sendo penalizado acima de outros países da região? O Brasil é um dos poucos países que não negociaram acordo de comércio com os EUA.

Essas tarifas são instrumentos de pressão para negociar um acordo?
Elas, em si, não são a negociação. Não está havendo negociação. Mas, sim, uma investigação contra mais de 80 países. É algo diferente. Você acusa o cara, e ele se defende. E foi feito isso. O Brasil foi acusado em seis ou sete áreas, os argumentos brasileiros foram apresentados, e não foram levados em consideração. Só não tem tarifa alta quem negociou acordo com os EUA.

Então, a estratégia do Brasil faz sentido?
A nota do governo Lula fala que o Brasil não se curvou às exigências americanas. O Reino Unido abriu o mercado britânico para o etanol americano. O Brasil se recusou a negociar etanol e outros setores. De fato, seria uma imposição americana, algo contrário às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), e não tinha alternativa. Por tudo que se sabe, o Brasil, até por sua indústria e tamanho, tem uma posição de resistência aos EUA. E também precisamos lembrar que a lei de segurança americana coloca a América Latina como área de influência. Está correto evitar essa imposição. Estamos defendendo o interesse brasileiro, ao endurecer a nossa posição, não tem o ‘give and take’ (dar e receber) nas propostas. A motivação para as tarifas não tem relação com política interna, não tem relação com (o ex-presidente Jair) Bolsonaro.

O governo precisa entender primeiro em que terreno está pisando?
Temos de entender dois aspectos: o que está acontecendo e por que as tarifas mais altas são aplicadas ao Brasil. Cheguei a ver uma emissora de tevê falando que o principal problema era o Pix. Não é nada disso. Havia até algumas dificuldades que poderiam ser negociadas. O Brasil recusou todos os convites americanos, para participar de estudos de trabalho para minerais estratégicos e para participar do escudo das Américas. Por outro lado, houve uma ação de empresários, que conseguiu colocar 2.100 produtos em exceção às tarifas. Mas isso foi fruto de negociação do setor privado, que conseguiu mostrar ao governo Trump o impacto das tarifas na economia americana e para as empresas locais. Não foi uma ação do governo brasileiro.

Há riscos nessa estratégia governamental brasileira de não avançar nas negociações?
Existe uma novidade nesse momento, que é a política. A tarifa vai ser usada em campanha eleitoral. Nunca houve uma crise política com os EUA que pudesse escalar tanto, como está acontecendo agora. Ela começou com as críticas do presidente Lula ao Trump. Foram 62 críticas ao longo dos últimos três anos. Na quarta-feira, 15, o secretário de Estado americano Marco Rubio chamou Lula de egoísta e contrário aos interesses do povo brasileiro. Depois, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, escalou a crise, dizendo que as falas eram um ataque grosseiro e arrogante, e que o Brasil não se curvou às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis. A escalada política pode se completar se a ameaça de retaliação brasileira se concretizar. O Brasil tem 30 dias para analisar essa possibilidade. Dos 200 países do mundo, nenhum ameaçou escalada contra os EUA. Só com a China houve uma disputa tarifária, no ano passado. Todos os países negociaram, a União Europeia, a Índia, o Vietnã, a Ásia inteira.

Como ninguém mais adotou esse caminho, ele parece ser o mais perigoso?
Se tiver escalada com retaliação, os americanos podem fazer também, e podem atacar qualquer coisa. Não só a economia e o comércio. Pode ser muito prejudicial. Uma coisa é a narrativa política interna, e outra coisa é o interesse nacional. É preciso ter uma salvaguarda dos interesses das empresas brasileiras acima de ideologia e do partidarismo.

Então, a sua posição é de que o Brasil não pode ceder às exigências prejudiciais americanas, mas também não deve ameaçar com retaliação? E buscar voltar à mesa de negociações?
Temos de negociar. O nome do jogo é negociação. Por razões de política interna e agora também externa, não temos agora um canal azeitado entre Brasil e Casa Branca, nem entre o Itamaraty e a Secretaria de Comércio dos EUA. As negociações até agora foram superficiais. Não houve agenda pré-determinada, sobre terras raras, nem nada. Temos alguns pontos a nosso favor, como especificamente as terras raras, que é o único interesse em relação ao Brasil. E existe outro problema que pode virar sério. Há uma investigação contra o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre Moraes correndo na Justiça Americana sobre intervenções em empresas de tecnologia. As big techs também estão reclamando sobre a possibilidade de regras em discussão sobre limites e responsabilidades das empresas de tecnologia. O fato é que não temos condições políticas para lidar com os americanos. Agora, com eles, não tem regra nenhuma. É a lei da força. E há um detalhe: o mundo mudou, e a gente não se ajustou ainda a essa questão. Hoje, o que prevalece é a lei da selva.

Um embate direto favorece os EUA?
Temos vulnerabilidades e, se fizermos retaliação, estaremos expostos a uma contrarretaliação, sobre a qual não temos controle. O Brasil não tem cacife para isso. Quem vai mais sofrer com as retaliações serão as empresas. Essas novas medidas tarifárias vão entrar em vigor em 22 de julho e ainda têm os 12,5% que os EUA prometem aplicar a países que eles consideram ter problemas de condições de trabalho. Ainda não há data para essa taxa começar. Quando isso acontecer, o governo teria de conseguir um canal de negociação e pedir a negociação. Reconheço que é muito difícil, porque eles pedem concessões unilaterais. E existe essa negociação com os empresários. Vamos precisar dessa diplomacia empresarial, para que o governo trabalhe junto com ela para reduzir os danos das tarifas.

O ponto inicial seria definir uma estratégia, de fato?
Precisamos também resolver as nossas questões. Temos uma economia muito protegida. Temos de competir. Mas isso passa por uma questão econômica interna. A economia brasileira está avançando por causa dos empresários, mas temos problemas estruturais que precisam ser resolvidos, e corrigidos. São o problema fiscal, os juros altos e a inflação. Precisamos tratar disso para ter uma estratégia de médio e longo prazo para lidar com esse mundo novo em que vale a lei da selva.

Por: Carlos Eduardo Valim | Fonte: O Estado de S. Paulo

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