Entre agentes de mercado, expectativa é de que conflito no Oriente Médio leve Petrobras a reajustar gasolina, o que evitaria a queda de preços na nova safra

Ontem, depois que o preço do barril do petróleo rompeu a barreira de US$ 100, ganhou corpo entre agentes da indústria sucroenergética a leitura de que a Petrobras poderia reajustar o preço da gasolina, o que deu sustentação ao etanol no mercado interno e ao açúcar no front internacional. Porém, as perspectivas para esses mercados ainda são turvas dadas as declarações erráticas do presidente americano Donald Trump sobre o conflito no Oriente Médio, deflagrado após Estados Unidos e Israel lançarem ataques contra o Irã, há pouco mais de uma semana.
Por ora, analistas dizem que o choque decorrente do conflito pode impedir que os preços de etanol e açúcar caiam nos próximos meses. Esse movimento das cotações iria no sentido oposto das expectativas iniciais.
No mercado interno, os preços do etanol, que caíram em fevereiro sob a expectativa de antecipação da moagem de cana-de-açúcar, passaram a subir neste mês. O indicador Cepea/Esalq para o etanol hidratado vendido pelas usinas de São Paulo (sem impostos) subiu 3,13% na semana de 2 a 6 de março, em relação à anterior, para R$ 2,9352 o litro.
O açúcar também reagiu ontem. Os contratos do demerara que vencem maio subiram 3,48% na bolsa de Nova York, a 14,59 centavos de dólar a libra-peso.
Para analistas, ainda é cedo para estimar o efeito no médio e longo prazos do conflito no Oriente Médio sobre os mercados de açúcar e etanol, uma vez que ainda não se sabe quando, e se, a Petrobras reajustará a gasolina. Se a estatal fizer alguma alteração, no mínimo isso deve impedir uma queda mais significativa do etanol nos próximos meses, como se esperava.
“Com o preço do petróleo a US$ 100, se a Petrobras fizer o repasse integral, isso praticamente anularia toda a queda que prevíamos [para o preço do etanol na safra]”, disse Cristian Quiles, analista da consultoria FG/A. Em suas projeções, se a Petrobras repassasse o US$ 100 por barril ao mercado interno, o preço da gasolina A, às distribuidoras, subiria cerca de R$ 1 o litro, e o efeito no preço médio do etanol hidratado da safra 2026/27 seria de uma alta de R$ 0,50 o litro.
Para Quiles, a tendência é que o preço do etanol se ajuste de forma a manter uma correlação de 64% a 65% em relação à gasolina ao longo da próxima safra, devido à alta oferta esperada. A FG/A estima que as usinas de cana vão produzir 4 bilhões de litros a mais do que na safra 2025/26, e as de milho, 1,7 bilhão de litros a mais.
Segundo Rafael Borges, analista da StoneX, o preço do etanol começou a cair em fevereiro — na contramão do que ocorre nessa época, quando a oferta recua —, diante da expectativa de que as usinas antecipassem a moagem para aproveitar os preços do biocombustível, mais favoráveis que o açúcar. “Com o conflito, os preços voltaram a subir”, disse.
Em fevereiro, os preços do etanol vendido pelas usinas de Ribeirão Preto saíram de R$ 3,75 o litro para R$ 3,45, segundo a StoneX. Já nos últimos dias, os preços voltaram a R$ 3,60 o litro, refletindo a expectativa de impacto da guerra — embora as incertezas tenham reduzido o volume de negócios.
Tendência
Para Borges, porém, a tendência para o etanol ainda é de queda na primeira metade da safra. “Mesmo que tenha reajuste [da Petrobras], a safra vai ter oferta recorde. Só de etanol de milho serão 2 bilhões de litros a mais”, afirmou. Em sua análise atual, o preço do etanol terá que cair para assegurar competitividade suficiente em relação à gasolina nas bombas e demanda para todo o etanol que for produzido.
Já as cotações do açúcar só reagiram ontem, após mais de uma semana de conflito. Para o analista da StoneX, o preço do açúcar deve se guiar pelo tamanho da safra de cana de 2026/27 no Centro-Sul e pelo mix — que, a princípio, deve ser menos açucareiro. “Se o etanol remunerar mais, o mix tende a ser menos açucareiro”, disse.
Mas os analistas ponderam que se trata ainda de um cenário muito volátil. Ontem, no fim da tarde, Trump declarou que a guerra estaria “praticamente concluída”, o que provocou uma reviravolta nos mercados. Os futuros do petróleo, que bateram os US$ 120 o barril no meio do pregão, caíram abaixo dos US$ 100 o barril no fim do dia.
“Não é uma volatilidade qualquer”, afirmou Tarcilo Rodrigues, sócio da Bioagência. Para ele, ainda que o cenário mude, “dificilmente” os preços do petróleo voltarão para onde estavam devido ao “prêmio de risco” — há um mês, o Brent estava em US$ 70 o barril.
Por: Camila Souza Ramos | Fonte: Globo Rural
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