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Usina ‘central’ em esquema ligado ao PCC integra rede de fornecedores da Nestlé

Maria Reis por Maria Reis
1 outubro, 2025
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Tempo de leitura: 5 minutos
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Operação deflagrada na última quinta-feira (28) investiga fraudes e sonegações de R$ 8,4 bilhões de grupo criminoso ligado ao PCC; Usina Itajobi, apontada pelas investigações como controlada pelo grupo, figura na lista de fornecedores de açúcar da Nestlé

Uma das usinas sucroalcooleiras citadas na megaoperação que apura a atuação do crime organizado no setor de combustíveis faz parte da rede de abastecimento de açúcar da Nestlé, segundo lista publicada pela própria multinacional Suíça. 

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A Usina Itajobi Açúcar e Álcool SA, com sede em Marapoama (SP), foi um dos alvos de busca e apreensão da Operação Carbono Oculto, deflagrada na última quinta-feira (28). Segundo as investigações, a usina é controlada por Mohamad Hussein Mourad, empresário com “fortes laços” com a organização criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), e apontado como cabeça do esquema criminoso. 

A investigação, que envolve agentes de órgãos como o Ministério Público de São Paulo, Polícia Federal e a Receita Federal, apura a atuação de uma organização criminosa que se “apossou” de usinas sucroalcooleiras no interior de São Paulo e se infiltrou em todas as etapas da cadeia de produção de etanol, incluindo a adulteração de combustíveis.

O esquema também operava na ocultação e blindagem do patrimônio, via fundos de investimentos e fintechs (plataformas online de serviços financeiros). São apurados crimes como lavagem de dinheiro, fraudes tributárias e estelionato, em operações que superam os R$ 8,4 bilhões.

A Usina Itajobi é apontada como “elemento central na estratégia da organização criminosa” liderada por Mohamad Mourad, “sendo um pilar fundamental para a expansão e a lavagem de capitais do grupo”. As informações estão descritas na decisão judicial que autorizou as ações de busca e apreensão e bloqueios de bens e valores dos investigados, acessada pela Repórter Brasil.

Rede de fornecedores

A Nestlé divulga os fabricantes e vendedores de 14 ingredientes usados em seus produtos, que podem ter sido adquiridos direta ou indiretamente. 

Na mais recente lista de fornecedores de açúcar, atualizada em novembro de 2024, a Usina Itajobi aparece como o moinho de origem do produto comercializado por seis empresas fornecedoras diretas da multinacional. 

A usina controlada pelos investigados na megaoperação figura na rede de fornecimento da Nestlé desde pelo menos 2020, segundo documentos obtidos pela Repórter Brasil.

Procurada, a Nestlé e a Usina Itajobi não responderam aos questionamentos enviados pela reportagem até o fechamento deste texto. A Repórter Brasil não localizou o contato da defesa de Mohamad Mourad. O espaço permanece aberto para manifestações futuras.

Lavagem de dinheiro

Segundo a decisão judicial que autorizou a ação policial, a Usina Itajobi praticava sobrepreço para aquisição de cana-de-açúcar. A estratégia era utilizada, segundo as investigações, para a lavagem de recursos obtidos ilegalmente. Parte do etanol produzido pela usina era entregue para distribuidoras administradas por pessoas investigadas por suas relações com o PCC.

As investigações apontam que Mohamad Mourad comandava redes de postos de combustíveis e lojas de conveniência, algumas registradas em nome de “laranjas” e de familiares do empresário para promover lavagem de dinheiro. 

“A organização criminosa de Mohamad tem fortes laços com o Primeiro Comando da Capital (PCC), e as redes de postos, conveniências e distribuidoras estão conectadas a pessoas com histórico criminal por fraudes em bombas, tráfico internacional de drogas, e lavagem de capitais”, diz trecho da denúncia.

Foram identificados 1.200 postos de combustíveis vinculados ao grupo, que movimentaram R$ 54 bilhões entre 2020 e 2024. Apenas 0,17% desse valor foi referente a tributos, “o que é considerado ínfimo comparado à carga tributária normal”, segundo outro trecho do documento. 

No total, a Operação Carbono Oculto cumpriu 315 mandados de busca e apreensão em oito estados brasileiros. A Polícia Federal apura o vazamento de informações sobre a operação porque apenas 6 dos 14 alvos de pedidos de prisão foram localizados. 

Grupo se ‘apossou’ de usinas

As investigações apontam que o grupo criminoso comandado por Mourad comprou usinas que enfrentavam problemas financeiros, no interior de São Paulo, para utilizá-las no esquema de fraudes. Mourad é apontado como o principal expoente por trás das aquisições, usando fundos de investimento para concretizar os negócios. 

Em 2019, a Usina Itajobi entrou com um pedido de recuperação judicial. A empresa, no entanto, desistiu do processo, conforme ação acessada pela Repórter Brasil, e teve seu controle adquirido por um fundo de investimentos ligado ao grupo criminoso.

A investigação não detalha quando exatamente a Itajobi foi adquirida pelo grupo, mas indica que a usina começou a inflar artificialmente os preços na aquisição de cana-de-açúcar a partir de 2022. As autoridades também apontam que Mourad se apresentou como “sócio proprietário” da Usina Itajobi em uma reunião realizada em dezembro de 2023, “o que evidencia a utilização de pseudônimo para ocultar sua verdadeira identidade e sua conexão com as usinas”, segundo trecho da denúncia.

Dos mais de 300 alvos das diligências policiais ocorridas na última quinta-feira, 42 estavam concentrados na avenida Faria Lima, principal polo financeiro do país, localizado em São Paulo (SP). As investigações apontam que fintechs atuavam como bancos paralelos da organização e que pelo menos 40 fundos de investimentos foram utilizados como estruturas de ocultação de patrimônio.

Por: Daniela Penha | Fonte: Repórter Brasil

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