Em entrevista à Green Savers, Gonçalo Santos, recentemente eleito presidente direção Associação Portuguesa dos Produtores de Bioenergia, explica-nos o potencial da bioenergia nos esforços de descarbonização e fala-nos de como a organização pretende impulsionar a bioenergia em Portugal.
A descarbonização é uma das grandes demandas dos nossos tempos. Virar a página dos combustíveis fósseis não é fácil, não só porque é preciso transformar sociedades e economias há séculos dependentes desse tipo de energia, como também a transição encontra obstáculos em muitos outros interesses e agendas, veja-se as frustrantes cimeiras globais do clima.
Contudo, e embora o foco da transição tenda a cair intensamente sobre a eletrificação, a bioenergia pode ser mais um par de braços a remar em direção a um futuro sem combustíveis fósseis e um aliado poderoso na redução das emissões de gases com efeito de estufa e, assim, na mitigação das alterações climáticas.
Em entrevista à Green Savers, Gonçalo Santos, CEO da Iberol e recentemente eleito presidente direção Associação Portuguesa dos Produtores de Bioenergia (APPB), explica-nos o potencial da bioenergia nos esforços de descarbonização e fala-nos de como a organização pretende impulsionar a bioenergia em Portugal.

A descarbonização e a transição para lá dos combustíveis fósseis são das grandes transformações da História moderna da humanidade. Reconhecem-se grandes desafios, mas também grandes oportunidades. Como é que os biocombustíveis podem ajudar nessa mudança?
As necessidades energéticas são crescentes, exigindo ainda a utilização significativa de combustíveis fósseis. Por exemplo, as emissões de CO2 ao nível dos transportes, na Europa, têm continuamente aumentado, pese embora as metas de renováveis que a União Europeia tem definido. Nesse sentido, os biocombustíveis apresentam-se atualmente como a forma mais rápida de descarbonizar os transportes, apresentando um conjunto de soluções já provado e que pode ser utilizado, desde o transporte rodoviário ao aéreo, passando pelo marítimo.
Ao mesmo tempo, para ser justa, a transição energética terá de ser social e economicamente viável. Embora nenhuma solução consiga, por si só, satisfazer este propósito, os biocombustíveis asseguram uma fração importante da solução para esse problema.
Muito enfoque tem sido dado à eletrificação como forma de concretizar essa transformação. Os veículos elétricos têm grande popularidade e procura e há programas públicos de incentivo à eletrificação, tanto nos transportes, como nas nossas casas e na indústria. A eletrificação pode implicar mudanças estruturais significativas, mas será que trocar combustíveis fósseis por biocombustíveis poderá ser mais fácil?
A troca – ou melhor – a incorporação de biocombustíveis é hoje uma realidade eficaz do ponto de vista económico e que proporciona uma solução socialmente viável que, objetivamente, é compatível com o ritmo, forçosamente lento, do modo elétrico nos transportes. Acresce que, em vários casos, a implementação da eletrificação será bastante difícil, como é o caso dos transportes pesados de mercadorias e do transporte marítimo e aéreo.
No setor doméstico e na indústria, há por seu lado que atender aos custos da energia e, concretamente, à situação de, à data de hoje, a eletricidade ser mais cara do que o gás.
Nem tudo é eletrificável nas utilizações e, no que respeita aos custos unitários da energia, há ainda um caminho a percorrer.
A bioenergia entra no espectro da economia circular, certo? Aproveitando o que de outra forma seria considerado “lixo” e dando-lhe um novo valor. Como é que a bioenergia pode contribuir para os esforços da circularidade e da proteção ambiental, sabendo que a circularidade, pelo menos é essa a intenção, reduz a pressão sobre os recursos naturais ditos “virgens”?
Este é um ponto forte da bioenergia, tanto para os biocombustíveis líquidos como para os gases, designadamente o biometano.
A bioenergia permite não só proporcionar fontes de energia neutras em carbono como, através do aproveitamento nacional das matérias sobrantes – sejam óleos usados de cozinha, resíduos urbanos, lamas do tratamento de água, efluentes da pecuária ou sobras alimentares – evitar que, por degradação orgânica, sejam causadas emissões de metano.
Estas emissões, se forem evitadas, são de valor muito superior à sua redução por queima, uma vez que o metano tem um efeito de estufa mais de 20 vezes superior ao dióxido de carbono.
Contudo, para as metas de renováveis que a Europa ambiciona em 2050, dificilmente a economia circular conseguirá responder a tamanha demanda, pelo que o aproveitamento de recursos como os óleos vegetais virgens continuará a ser importante na descarbonização, para além de garantir um equilíbrio com a alimentação animal e consequentemente humana, pois são um subproduto das oleaginosas que garantem a alimentação proteica dos animais.
Os biocombustíveis são mais sustentáveis do que a eletrificação? Continua a haver combustão e emissões de gases com efeito de estufa, não?
Não nos revemos nessa “dicotomia”. A eletricidade pode ser totalmente renovável e não tem emissões no utilizador final. No entanto, os biocombustíveis já hoje atingem – na sua maioria – entre 80% a 90% de redução de emissões face ao combustível de referência e, por terem limites à sua disponibilidade, constituem um complemento com custo razoável e, por isso, indispensável.
Quando falamos de eletrificação e de bioenergia, vê essas duas dimensões como mutuamente exclusivas ou podem ser combinadas para aproveitar o melhor dos dois mundos e reforçar a transição para lá dos combustíveis fósseis?
Mantemos a convicção da complementaridade e lutamos para que ela seja reconhecida sempre, mas, para já, como via social e economicamente suportável da transição energética.
É possível os biocombustíveis substituírem por completo os fósseis? Há capacidade produtiva para isso? Nos transportes, os motores estariam preparados para essa substituição total?
Os consumos de energia nos transportes que, realisticamente, não irão ser reduzidos, excedem em muito as capacidades atuais de produção de bioenergia.
Dependendo do tipo de biocombustíveis, nomeadamente o HVO [óleo vegetal hidrotratado], a substituição pode ser total. No caso dos motores mais recentes, o biodiesel é igualmente uma opção a um preço mais acessível.
No entanto, aquilo que se espera é uma redução dos combustíveis fósseis no transporte rodoviário, seja por via da eletrificação, seja por motores muito mais eficientes.
Em Portugal a bioenergia é expressiva? Quais são os principais obstáculos a uma maior expansão da bioenergia no país e onde é que se deve atuar com prioridade para consegui-lo?
A bioenergia, no seu todo, tem grande expressão no “mix” energético em Portugal. Nos transportes, cerca de 6% devido aos biocombustíveis. Na indústria, mais de 25% devido às indústrias de base florestal. No cômputo nacional, cerca de 16% de acordo com o Balanço Energético Nacional de 2024.
O recurso à bioenergia pode ser uma forma de assegurar a estabilidade e resiliência do fornecimento de energia?
A bioenergia é uma forma independente, segura e proporcionada pela natureza de energia.
De resto, por indisponibilidade e por mera segurança, deveremos sempre depender de mais do que de uma fonte de energia.
Recentemente foi eleito presidente da direção da Associação Portuguesa dos Produtores de Bioenergia. Quais as prioridades que estabeleceu para que a bioenergia tenha um maior destaque em Portugal?
Sendo a neutralidade carbónica um objetivo europeu, enquanto Presidente da APPB defenderei, em primeiro lugar, que tenhamos uma regulação clara e com objetivos a médio e longo prazo, por forma a que os agentes económicos possam realizar os investimentos necessários à instalação de capacidade de produção de bioenergia suficiente para alcançar essas metas. Isso aplica-se não só aos biocombustíveis, como também ao biometano.
Continuaremos, igualmente, a defender tanto a neutralidade tecnológica como a neutralidade no uso das matérias-primas, pois as limitações impostas a qualquer uma destas vertentes condicionará o atingimento das metas de renováveis na Europa, seja pela inexistência de oferta suficiente para satisfazer as necessidades, seja pelo elevado custo com que se irão onerar os consumidores e os agentes económicos.
Por: Filipe Pimentel | Fonte: Green Savers
Clique AQUI, entre no canal do WhatsApp da Visão Agro e receba notícias em tempo real.










