Por: Fábio Palaveri

A indústria brasileira já ocupou um espaço muito maior na economia nacional. Esse não é apenas um sentimento de quem acompanha o setor de perto. Os números mostram isso com clareza. Segundo estudo divulgado pelo Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) em junho de 2025, a participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 21,8% em 1985 para 14,4% em 2024. Em 2023, era de 15,2%. Ou seja, a perda não é apenas histórica. Ela continua acontecendo.
Esse movimento ajuda a explicar por que tantas cadeias produtivas perderam densidade ao longo das últimas décadas. A decisão da Ford de encerrar as operações brasileiras de manufatura em 2021, nas plantas de Camaçari (BA), Taubaté (SP) e Troller, em Horizonte (CE), talvez tenha sido um dos exemplos mais simbólicos desse processo. Quando uma indústria desse porte deixa de fabricar localmente, não se perde apenas uma linha de produção. Perde-se parte de uma cadeia de fornecedores, empregos qualificados, engenharia, tecnologia, arrecadação e confiança no ambiente produtivo nacional.
A pergunta principal é direta: por que a indústria brasileira não consegue avançar com a força que deveria?
O Brasil é um país continental, com mercado interno expressivo, vocação produtiva, força agropecuária, disponibilidade de energia renovável e posição estratégica para acessar diferentes mercados globais. Temos um agronegócio altamente competitivo, produzimos commodities como poucos países no mundo e contamos com uma das cadeias de bioenergia mais relevantes do planeta. Se somos referência em produção agrícola e energética, por que ainda não conseguimos transformar nossa base industrial em uma referência global com a mesma intensidade?
O problema não está na falta de potencial. Está no ambiente em que a indústria precisa operar.
Segundo o Ciesp, o diferencial de preços entre produtos industriais brasileiros e os de importantes parceiros comerciais chega a 24,1%. Entre os fatores que pesam estão carga tributária elevada, juros altos, deficiências logísticas, energia cara e concorrência desleal no comércio exterior. A tributação responde por 12,2% do chamado Custo Brasil. Logística e infraestrutura encarecem em 3,6% o produto industrial. Energia e matérias-primas representam 1,3% desse custo.
Esse cenário cria uma armadilha. Para modernizar uma fábrica, não basta vontade. É preciso comprar máquinas, atualizar softwares, investir em automação, treinar equipes, contratar mão de obra qualificada, melhorar processos, ganhar eficiência energética e acompanhar novas exigências de mercado. Tudo isso demanda investimento. Mas como investir em um ambiente de juros elevados, carga tributária pesada, burocracia complexa e competição muitas vezes desequilibrada com produtos importados?
A defasagem tecnológica também pesa. Quando máquinas envelhecem, a produtividade cai, o consumo de energia aumenta e a competitividade diminui. A indústria passa a operar com custos maiores, enquanto concorrentes internacionais avançam em automação, digitalização, inteligência de dados e eficiência produtiva. É nesse ponto que o Brasil precisa decidir se quer continuar apenas comprando tecnologia ou se também quer desenvolver, fabricar e dominar parte dessa tecnologia.
A discussão fica ainda mais clara quando olhamos para o agro. O Brasil planta, colhe, exporta e alimenta o mundo. Levantamentos citados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já indicaram que as lavouras ocupam uma parcela reduzida do território nacional, o que reforça a eficiência produtiva do país no uso da terra. Mas a grande questão é: quanto valor estamos agregando a tudo isso?
Ao lado de grandes regiões produtoras, deveria haver mais capacidade industrial para beneficiamento, processamento, embalagem e transformação. A laranja pode virar suco de alto valor agregado. O café pode virar solúvel, cápsula, extrato, bebida pronta e produto premium. A cana-de-açúcar e o milho podem impulsionar uma cadeia ainda maior de etanol, bioeletricidade, biogás, combustível sustentável de aviação (SAF), e novas soluções energéticas. Mas isso exige fábricas, equipamentos, tecnologia, embalagens, logística, softwares, assistência técnica e uma indústria nacional preparada para sustentar esse salto.
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A indústria brasileira não perdeu importância. Ela perdeu prioridade.
Esse talvez seja o ponto central. O país precisa realocar sua atenção para aquilo que realmente importa no longo prazo: produtividade, tecnologia, infraestrutura, educação técnica, energia competitiva, segurança jurídica, combate à pirataria, redução do Custo Brasil e estímulo real à inovação. Sem isso, seguiremos fortes na produção de commodities, mas frágeis na capacidade de transformar essa riqueza em produtos de maior valor agregado.
O Brasil não pode se contentar em ser potência na produção e coadjuvante na transformação.
Se produzimos alimentos como poucos, se produzimos energia renovável como poucos e se temos uma das maiores cadeias agroindustriais do mundo, por que a nossa indústria também não pode ser referência? A resposta passa por uma escolha. Ou o país continua tratando a indústria como pauta secundária, lembrada apenas em momentos de crise, ou decide devolver a ela o protagonismo que merece.
Por: Fábio Palaveri – Jornalista com atuação na cobertura do agronegócio, especialmente na esfera bioenergética. Atualmente é editor-chefe do Portal Visão Agro, veículo online de notícias voltado ao setor. Acompanha feiras, eventos corporativos, empresas e movimentos estratégicos do agro nacional, sempre em contato com empresários, lideranças e profissionais do segmento.
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