Especialista defende que a proposta seja debatida por segmento, considerando diferenças entre cadeias produtivas, agroindústrias e atividades que dependem de operação contínua

A discussão sobre o fim da escala 6×1, modelo de seis dias de trabalho por um de descanso, acendeu um alerta no agronegócio brasileiro. Em entrevista à CNN, o professor Marcos Fava Neves afirmou que a redução da jornada, se aplicada de forma ampla e sem considerar as particularidades de cada cadeia, pode agravar a escassez de mão de obra, elevar custos das empresas e pressionar o consumidor final. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 foi aprovada pela Câmara dos Deputados em dois turnos e segue para análise do Senado.
Para Marcos, o debate não deve partir da ideia de que o trabalhador não mereça melhores condições. Segundo ele, “ninguém é contra uma pessoa trabalhar menos e ganhar mais”. O ponto central, na avaliação do especialista, é o momento em que a proposta avança e a falta de uma discussão mais aprofundada sobre os reflexos para setores que já enfrentam dificuldade para contratar.
O professor afirmou que, em diferentes regiões e segmentos do país, a reclamação sobre mão de obra se repete tanto em quantidade quanto em qualificação. Ele citou o setor de frangos e suínos, especialmente os frigoríficos, como exemplo de uma cadeia intensiva em trabalho e com milhares de vagas abertas. Na entrevista, Marcos mencionou cerca de 20 mil posições sem preenchimento, cenário que, segundo ele, tem levado empresas a dependerem também de trabalhadores vindos de países como Venezuela e Haiti.
A preocupação ganha peso porque o agro reúne atividades muito distintas entre si. Há cadeias com maior possibilidade de reorganizar turnos, mecanizar processos ou absorver mudanças de jornada com ganhos de produtividade. Em outras, como frigoríficos, colheitas em janelas curtas, operações industriais contínuas e logística de perecíveis, a aplicação de uma regra única pode exigir contratações adicionais apenas para manter o mesmo volume de produção.
Custo e inflação
O professor citou o caso de uma grande empresa exportadora do setor frigorífico, com cerca de 51 mil funcionários, que poderia precisar contratar aproximadamente 10 mil pessoas a mais para preservar sua produção. Na leitura do especialista, esse aumento de pessoal, sem crescimento proporcional da receita, tende a elevar o custo operacional, reduzir competitividade e repassar parte da conta para os preços dos alimentos.
O tema também expõe uma diferença estrutural entre os segmentos do agro. Em culturas como café, por exemplo, determinadas etapas podem permitir reorganização da jornada conforme produtividade e disponibilidade regional. Já em cadeias como soja, proteína animal, cana-de-açúcar e agroindústria, os períodos de plantio, colheita, processamento, transporte e exportação impõem ritmos próprios, muitas vezes com necessidade de operação em turnos e planejamento 24 horas.
Na avaliação dele, a discussão deveria ser conduzida setor por setor, com escuta de empresas, trabalhadores, entidades produtivas e especialistas em mercado de trabalho. Ele defendeu que o Senado coloque “um freio” na tramitação para permitir ajustes e evitar que a mudança seja aprovada de forma acelerada. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, afirmou que a PEC não irá diretamente ao Plenário e deverá passar pelas comissões da Casa.
A cana como exemplo
A tecnologia aparece como parte da resposta, mas não como solução imediata. Marcos lembrou que a mecanização já transformou a realidade da cana-de-açúcar, substituindo o corte manual por operações mais tecnificadas e deslocando trabalhadores para funções em outros setores. O mesmo movimento, segundo ele, deve ocorrer em atividades como colheita de frutas, automação industrial, inteligência artificial, sensores e controle de processos, mas essa transição exige tempo, investimento e qualificação profissional.
O avanço da pauta, portanto, coloca o agro diante de um dilema: melhorar a organização do trabalho sem comprometer a capacidade produtiva, a competitividade das empresas e o abastecimento. Para o professor, a redução da jornada precisa ser discutida com responsabilidade e levando em conta as peculiaridades de cada cadeia, sob risco de transformar uma demanda social legítima em pressão adicional sobre custos, inflação e geração de empregos no campo e na agroindústria.
Por: Redação – Portal Visão Agro
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