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Com El Niño, açúcar atinge maior valor desde abril de 2025 na bolsa de Nova York

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
20 agosto, 2026
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Tempo de leitura: 5 minutos
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Preços mudaram de rota no início do mês com efeitos do fenômeno na oferta

O El Niño já começa a afetar os principais polos de produção de açúcar do mundo, o que levou fundos especulativos a reverem suas apostas na bolsa e fez o preço da commodity disparar para o maior nível em 16 meses em Nova York, segundo acompanhamento do Valor Data. O impacto maior do fenômeno é no clima de Índia e Tailândia, dois importantes produtores globais — mas o Centro-Sul do Brasil não está imune.

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Ontem, os contratos mais negociados do açúcar demerara, com vencimento em outubro, fecharam a 17,47 centavos de dólar a libra-peso, o maior valor desde abril de 2025. Em uma sessão, a alta foi de 60 pontos, e no acumulado do mês, a valorização atingiu 281 pontos. Até 31 de julho, os preços ainda estavam abaixo de 15 centavos de dólar a libra-peso, como em boa parte dos 12 meses anteriores. O contratos para março, por sua vez, fecharam a 18,46 centavos de dólar a libra-peso.

O movimento concretiza o que analistas vinham aguardando há muito tempo: que os preços começassem a refletir os fundamentos de oferta mais apertada. Nos últimos meses, as consultorias já vinham prevendo uma demanda maior do que a oferta por causa dos impactos do El Niño, mas essas previsões ainda não haviam mudado o sentimento do mercado.

“Agora mudou a percepção. Vários fatores estão trazendo uma outra visão para o mercado”, afirmou Arnaldo Corrêa, diretor da Archer Consulting. As notícias mais recentes giraram em torno da Índia. Ontem, a Reuters informou que o governo indiano avalia medidas para importar açúcar sem tarifa, o que representaria uma inversão do papel da Índia nos últimos anos, quando o país foi um exportador de açúcar relevante.

A medida pode aliviar o aperto previsto na oferta local. Após o El Niño ser confirmado em junho, as chuvas diminuíram em julho. Normalmente, episódios de El Niño forte estão relacionados a menos chuvas de monções, como as que ocorrem na Índia. Em julho, algumas localidades em Maharastra, principal Estado produtor de cana da Índia, já registravam seca “excepcional”, e na última semana a situação repetiu-se em Uttar Pradesh, outro importante Estado produtor do país, de acordo com o India Drought Monitor.

Em meio a perspectivas ruins, as usinas da Índia indicaram que anteciparão o início da moagem de cana de outubro para agosto, o que ajudou a elevar os preços.

Na Tailândia, segundo maior exportador de açúcar, atrás do Brasil, o receio é que o El Niño interrompa as chuvas na próxima semana, no momento de desenvolvimento da cana, como indicou a usina local Khon Kaen Sugar (KKS). Analistas também apontam para previsões de produção menores em outros países da Ásia e até na Europa, dado o impacto do calor extremo nas lavouras de beterraba.

No Centro-Sul do Brasil, o El Niño deve começar a ter efeito na produção a partir de agora, ao ganhar força, segundo Fábio Marin, professor de engenharia de Biossistemas da Esalq/USP e coordenador do Sistema Tempocampo.

Mas, antes mesmo da formação do El Niño, o interior de São Paulo já vinha com mais chuvas acima da média desde o início do ano, provocando interrupções na colheita e reduzindo o teor de sacarose. Segundo Marin, a colheita já está atrasada em 28 dias no Centro-Sul. “Em setembro deve voltar a chover, aí talvez não se consiga colher o que falta e vai ter cana bisada [deixada para moer em 2027]”, afirmou.

Além disso, o menor teor de sacarose dificulta a produção de açúcar. Porém, Marin observou que as chuvas ajudam a melhorar a produtividade por hectare, o que tem efeito compensatório. Segundo ele, dados históricos mostram que o El Niño favorece os canaviais do Centro-Sul. “Em 90% dos anos de El Niño forte, a produtividade fica acima da média”, disse.

Ontem, Mark Bowman, da ADM Investor Services, mencionou em relatório dados do Ministério da Agricultura que indicam que a moagem de cana da segunda quinzena de julho no Centro-Sul do Brasil foi 8,4% menor na comparação anual, enquanto a produção de açúcar foi 17,6% inferior. A região já produziu 2,4 milhões de toneladas a menos de açúcar nesta safra.

“O El Niño pode causar uma frustração de 10 milhões de toneladas na safra [internacional] que começa em outubro”, projetou Maurício Muruci, analista da Safras & Mercado.

As notícias recentes destravaram uma reversão de posições por parte dos fundos. Em duas semanas, eles realizaram compras líquidas de 145 mil contratos futuros, o maior volume em um intervalo de duas semanas nos últimos 20 anos, segundo a consultoria FG/A. Para o sócio Willian Hernandes, os fundos “parecem estar com receio de um El Niño muito forte”.

E o movimento pode se retroalimentar. “O mercado pode ser alimentado por uma cobertura de posições vendidas, trazendo mais volatilidade”, disse Arnaldo Corrêa. O índice de volatilidade no mercado futuro já subiu de 25% para 29%. Para ele, isso pode fomentar mais busca por proteção, levando a mais altas e o açúcar à casa dos 20 centavos de dólar.

Já Murici acredita que, com a intensidade do El Niño chegando ao ápice em outubro, os preços futuros podem subir ainda mais. “Nossa estimativa é de preços em 22 centavos de dólar em outubro, podendo ir a 25 centavos entre dezembro e primeiro trimestre do ano que vem”, afirmou.

Nesse cenário, algumas usinas já começaram a migrar para o açúcar. Foi o caso da Santa Vitória, da Jalles Machado, que desde o início de agosto está com mix mais açucareiro e avançou na fixação da produção adicional, disse Henrique Penna de Siqueira, diretor comercial da companhia, em teleconferência com analistas na segunda-feira.

Embora a valorização abra oportunidades de fixação de preço, há risco para usinas que vinham reforçando posições vendidas, segundo Corrêa. “Houve usina que, para não correr o risco de o preço cair abaixo de um mínimo, vendeu duas opções, porque não achava que o preço ia subir, e agora está vendida duas vezes”, disse. “Quem ficou vendido vai ter que recomprar posição ou comprar opções. E quando se compra mais opções, cresce a volatilidade”(Colaborou Paulo Santos, de Campina Grande)

Por: Camila Souza Ramos | Fonte: Globo Rural

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