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Etanol paulista pode receber “hub” para captura de carbono

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
27 agosto, 2026
em Biocombustíveis
Tempo de leitura: 5 minutos
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Home Biocombustíveis
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Empresa criada por ex-executivos da Petrobras e do setor de biocombustíveis protocolam na ANP pedido para testar projeto de injeção de carbono no solo

Uma empresa criada por ex-executivos da Petrobras e do setor de biocombustíveis apresentou um pedido para a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para realizar testes no centro-oeste paulista. Trata-se de um projeto de captura e armazenagem no solo do gás carbônico que é emitido pelas indústrias de etanol da região.

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A EnduraCarbon, criada há um ano, pretende captar esse gás carbônico e injetá-lo no solo de forma permanente. O objetivo é vender créditos de remoção de carbono para agentes que queiram compensar suas emissões de gases de efeito estufa.

A apresentação do projeto foi destravada com a assinatura do decreto 13.095/2026 no último dia 13, que regulamentou diversos tipos de atividade de captura, transporte e armazenagem de carbono (CCS, na sigla em inglês), previstas na lei do Combustível do Futuro.

O decreto atribuiu à ANP a responsabilidade de autorizar projetos e regular o setor. Pelas regras estabelecidas, a iniciativa da EnduraCarbon se encaixa na modalidade Bioenergia com Captura e Estocagem de Carbono (BECCS), ou seja, que utiliza o carbono do processamento de bioenergia ou da produção de biocombustíveis.

O plano da EnduraCarbon é ter um “hub” com poços de injeção de carbono no solo que recebam gás carbônico liquefeito emitido por diferentes usinas. Atualmente, as usinas emitem à atmosfera o CO2 resultante do processo de fermentação para a produção de etanol, e as que têm plantas de biometano ainda emitem CO2 resultante do processo de purificação do biogás, que separam o metano do gás carbônico.

Cálculos dos sócios da EnduraCarbon indicam que o investimento no hub, caso os testes confirmem sua viabilidade, deverá sair por R$ 1,5 bilhão, e pode ter capacidade de armazenar 1 milhão de toneladas de gás carbônico ao ano.

A empresa passou o último ano elaborando o projeto e o modelo de negócio, além de acompanhar o processo de regulamentação da tecnologia de CCS, conta o CEO Daniel Pedroso. Um dos cinco sócios da empresa, Pedroso construiu sua carreira na ANP e na Petrobras.

Na petroleira, ele passou por diversas gerências, sendo a última a de CCS, até sair da companhia junto com Tiago Homem, que agora é sócio e diretor de projetos e tecnologia da EnduraCarbon.

Desde que criaram a empresa, os sócios passaram a estudar dados históricos geológicos e sísmicos, incluindo os de poços perfurados no interior paulista pela Petrobras e pela Paulipetro desde os anos 1960. O objetivo foi avaliar a possibilidade de injeção de gás em reservatórios salinos no estado.

“A gente vem estudando a Bacia do Paraná para possibilidades de CCS. Vimos possibilidade com o setor de bioenergia, onde podíamos trazer conhecimento”, conta Pedroso.

Nas pesquisas, a empresa concluiu que a região que reúne as melhores condições para um projeto dessa envergadura é a macrorregião de Bauru (SP), seja pelas condições geológicas, seja pela proximidade com várias usinas de etanol de São Paulo.

A EnduraCarbon já firmou acordo com a Usina São Manoel, localizada no município de São Manuel (SP), para que a empresa forneça CO2 e energia elétrica cogerada da queima da biomassa da cana-de-açúcar ao empreendimento.

“As usinas de etanol são geradoras de carbono biogênico [de ciclo curto na atmosfera], da fermentação do etanol. E tem uma onda de investimentos [de usinas de etanol] em biometano, o que promove um volume adicional de gás carbônico”, explica Renan Santos.

Ele foi vice-presidente da GranBio e, hoje, é sócio e responsável pela diretoria financeira da EnduraCarbon. A empresa também conta como sócios o geólogo Renato Darros de Matos, ex-Petrobras, e Alexsander Costa, ex-GranBio.

Hoje, só há um projeto de BECCS em construção no mundo, tocado em Lucas do Rio Verde (MT)pela companhia de etanol de milho FS. Essa iniciativa, que deve começar a operar em setembro, armazenará o carbono emitido da própria indústria e tem como propósito contabilizar o carbono removido entre na pegada de emissões do biocombustível. Isso permitirá que, em seu ciclo de vida, o etanol da FS capture mais carbono do que emita.

O projeto da EnduraCarbon não está atrelado a uma única empresa. Com o hub não estará “conectado” às usinas, o carbono terá que ser transportado. A ideia é que esse transporte se dê por caminhões movidos a biometano, biocombustível que tem uma pegada de carbono bem menor que o diesel, e que poderá ser fornecido pelas próprias usinas parceiras.

O plano da empresa também é ser responsável pela instalação e operação das unidades de liquefação do gás carbônico junto às usinas. E essas unidades poderão utilizar a própria energia cogerada do bagaço para realizar o processo de liquefação, explica Pedroso.

“O projeto foi concebido para ter volume e economicidade. Começamos a conversar com usinas e surgiu a oportunidade de um projeto comercial, que fica de pé e está em linha com grandes projetos de CCS no mundo”, acrescenta o diretor financeiro.

Uma vez que a ANP autorize os estudos, a EnduraCarbon terá três anos para perfurar poços e fazer os testes. Caso as pesquisas comprovem a viabilidade e segurança da operação, a empresa entrará com o pedido de autorização de estocagem junto à ANP. Pela legislação, as empresas têm direito a explorar poços de injeção de carbono por 30 anos, prorrogáveis por mais 30.

Segundo Pedroso, a expectativa é que o mercado de créditos de carbono avance nos próximos anos com a demanda por empresas de tecnologia e datacenters e permita a venda dos créditos em contratos de longo prazo.

No mercado, há apreensão sobre qual será a regulamentação sobre os ITMOs, os certificados equivalentes a créditos de carbono que poderão ser exportados. Atualmente, o governo estuda limitar o volume de exportação para garantir oferta de crédito de carbono para o cumprimento das metas nacionais.

Segundo Santos, a exportação de ITMOs pode atrair capital estrangeiro. “Como [o BECCS] é um crédito de carbono engenheirado [que usa tecnologia], tem capital intensivo”, diz. Segundo ele, a companhia está em conversas com “investidores institucionais e empresas de grande porte interessados em destravar a agenda climática”.

Por: Camila Souza Ramos | Fonte: Fonte: Globo Rural 

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