Especialista mostrou como inteligência artificial, dados, automação, agricultura de precisão e transição energética estão redefinindo a gestão e a competitividade do agronegócio

O professor Vinícius Cambaúva, associado da Markestrat e professor da Harven Agribusiness School e da Kansas State University, apresentou dez tecnologias e inovações que, em sua avaliação, estão guiando o futuro do agronegócio. Durante a palestra “Do Campo à Nuvem: Inovações e Tecnologias Que Estão Guiando o Futuro do Agronegócio”, no Vision Tech Summit 2026, ele defendeu que o avanço da oferta e o aumento da competitividade tornam eficiência, gestão profissional e decisões mais assertivas cada vez mais determinantes para os resultados das empresas.
A Inteligência Artificial (IA) apareceu no topo da análise. Cambaúva apresentou dados de um relatório do Fórum Econômico Mundial sobre as transformações capazes de alterar os modelos de negócios entre 2025 e 2030, no qual a IA aparece com 90%, à frente das demais tecnologias analisadas. Para o especialista, a discussão não deve se limitar à substituição de profissionais, mas considerar a mudança das funções e o surgimento de novas atividades a partir da incorporação dessas ferramentas.
A adoção já começa a chegar diretamente às propriedades rurais. Segundo pesquisa apresentada na palestra, 7% dos produtores entrevistados na América Latina já pagam para utilizar inteligência artificial em seus negócios, enquanto o índice chega a 10% na América do Norte. Entre todos os participantes do levantamento, 72% esperam algum grau de transformação provocado pela tecnologia, indicando que a IA já começa a fazer parte da rotina de planejamento, consultas técnicas, acompanhamento de mercado e tomada de decisão.
Agricultura de precisão, robotização, sensoriamento remoto e automação também aparecem entre os vetores dessa transformação. Cambaúva ressaltou, porém, que a conectividade ainda representa uma barreira para a expansão de soluções autônomas em algumas regiões. Mesmo assim, segundo ele, a América Latina já apresenta nível relevante de adoção tecnológica e está, em média, atrás apenas da América do Norte em diferentes categorias analisadas.
Dados viram insumo
Um dos conceitos centrais apresentados foi o de que dados devem ser tratados como um insumo da produção, assim como fertilizantes, defensivos, sementes, máquinas e combustível. Na avaliação de Cambaúva, obter mais margem não significa necessariamente reduzir investimentos, mas direcionar recursos com maior precisão. Para isso, informações confiáveis e capacidade analítica passam a ter papel estratégico na definição de onde e como investir.
A palestra também mostrou aplicações práticas dessa integração. Tecnologias baseadas em câmeras, drones e inteligência artificial já permitem, por exemplo, estimar peso, comportamento e consumo de animais em tempo real, oferecendo informações que ajudam a identificar problemas e determinar o momento mais adequado para diferentes decisões produtivas. Na agricultura, biotecnologia, melhoramento genético e novas ferramentas de edição genética também avançam como alternativas para aumentar produtividade e aperfeiçoar o manejo.
Outro eixo destacado foi a transição energética. Cambaúva citou o Combustível Sustentável de Aviação (SAF) como uma das oportunidades para o agronegócio e para o setor bioenergético. Em um cenário no qual entre 20% e 25% do SAF seja produzido a partir do etanol, a demanda adicional poderia alcançar entre 10 bilhões e 20 bilhões de litros de etanol em 2035, diante de uma produção brasileira atual próxima de 40 bilhões de litros. O executivo também apontou oportunidades no transporte marítimo, com o avanço de combustíveis renováveis para navegação.
Para Cambaúva, a transformação vai além das tecnologias utilizadas no campo. Marketplaces, novas formas de comunicação e modelos de negócios também fazem parte desse movimento. No setor bioenergético, a antiga lógica de produção concentrada em açúcar e etanol dá espaço às biorrefinarias, capazes de integrar biometano, bioeletricidade, etanol de segunda geração, SAF e outros produtos. A mensagem final apresentada foi de que, diante de um mercado mais competitivo, a tecnologia deixa de ser apenas um diferencial e passa a ocupar posição estratégica na transformação de informação em decisão e resultado.
Por: Maria Reis | Fonte: Portal Visão Agro
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