Maior utilização da frota flex pode abrir mercado para o biocombustível
A desaceleração da demanda mundial por produtos agrícolas, combinada aos ganhos contínuos de produtividade, deverá exigir novas estratégias de crescimento para o agronegócio brasileiro. A avaliação é de Luiz Carlos Corrêa Carvalho, o Caio, que defendeu a ampliação do mercado de biocombustíveis como alternativa para absorver a produção e elevar o valor agregado no campo. O tema foi abordado durante a 2ª Reunião da Canaplan, realizada na última quinta-feira (22), em Ribeirão Preto – SP.
No mercado brasileiro de combustíveis, a apresentação apontou um potencial de crescimento de 10,6 bilhões de litros no consumo de etanol hidratado, considerando uma mudança no abastecimento dos veículos flex nos Estados onde o produto já é competitivo. Segundo os dados apresentados, aproximadamente 77% da frota de veículos leves utiliza essa tecnologia, mas a participação do etanol permanece próxima de 30%.
“Ampliar a demanda é algo realmente extraordinariamente importante”, afirmou Carvalho, ao destacar a necessidade de estimular o consumo e desenvolver mercados capazes de acompanhar o crescimento da produção.
Biocombustíveis mudam relação entre produção e consumo
A análise apresentada por Carvalho utilizou estudos da S&P Global Energy sobre as transformações no mercado agrícola. O crescimento populacional e o consumo per capita de grãos e carnes estão desacelerando em diferentes regiões, enquanto a produtividade continua aumentando. Com isso, a demanda tradicional por alimentos e rações pode deixar de absorver integralmente a expansão da oferta.
Nesse cenário, ganha força uma nova interpretação sobre a relação entre alimentos e combustíveis. O debate, historicamente marcado pela preocupação com a disputa por terras agrícolas, passa a considerar o papel dos biocombustíveis na manutenção da atividade produtiva e da renda dos produtores.
A avaliação é que novos mercados energéticos podem contribuir para preservar áreas cultivadas diante do risco de excedentes estruturais. A produção de combustíveis renováveis deixa, assim, de ser analisada exclusivamente como concorrente da oferta de alimentos e passa a integrar as alternativas de sustentação econômica da agricultura.
Exportações crescem, mas cenário exige mudança de estratégia
Entre 2000 e 2025, o Brasil ampliou expressivamente sua participação no comércio internacional de produtos agropecuários. Dados da S&P Global Energy apresentados por Carvalho mostram que as exportações de açúcar cresceram cinco vezes, enquanto as de soja e carne bovina avançaram oito vezes. No algodão, o aumento chegou a 34 vezes.
Apesar desse desempenho, o executivo chamou a atenção para mudanças em mercados importadores, especialmente na China. A redução da população, a estabilização do consumo de carne e o crescimento da produção doméstica chinesa indicam menor ritmo de expansão das compras externas, criando novos desafios para os países exportadores.
“Ou a gente vai estar sempre sofrendo, ou a gente vai ter que trabalhar de forma madura”, afirmou Carvalho, ao defender uma estratégia de crescimento menos dependente da expansão das exportações de matérias-primas.
Para o Brasil, a análise aponta a necessidade de avançar no processamento industrial e no valor gerado por hectare e por tonelada de biomassa, com oportunidades em biocombustíveis, farelos proteicos, proteínas animais e outros produtos industrializados.
Integração com milho abre caminho para reduzir custos
No setor sucroenergético, o consultor também abordou a evolução dos custos de produção do etanol ao longo dos últimos 50 anos. Os ganhos de escala e produtividade permitiram uma queda expressiva das despesas nas primeiras décadas de expansão do combustível, mas essa trajetória perdeu força a partir dos anos 2000.
Segundo a apresentação, a integração do processamento de cana e milho pode contribuir para recuperar parte dessa redução, ao ampliar o aproveitamento das estruturas industriais e diversificar as matérias-primas utilizadas. A competitividade do biocombustível dependerá, ainda, de avanços tecnológicos capazes de elevar a produtividade sem aumento proporcional dos custos.
Fonte: Canaoeste
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