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“A Cosan não vai acabar, absolutamente”, diz Rubens Ometto

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
20 maio, 2026
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Tempo de leitura: 7 minutos
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Fundador e presidente do conselho de administração do grupo diz que fala de CEO foi mal interpretada e que negócio vai continuar com “cara de dono” e nas mãos da família por muitos anos

Durante a teleconferência de resultados do primeiro trimestre da Cosan, Marcelo Martins, CEO da holding que abriga grandes empresas como Raízen e Compass, afirmou que “era bastante razoável” dizer que a Cosan iria deixar de existir em um horizonte de três a cinco anos.

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Entre os motivos, ele citou a redução da alavancagem da estrutura da holding, que sofreu com a alta dos juros e precisou receber um aporte de R$ 10 bilhões do BTG Pactual, da gestora Perfin Investimentos e da família Ometto, fundadora da companhia, para ser socorrida.

Rubens Ometto, presidente do conselho de administração da Cosan, porém, nega que o grupo vá acabar. Para ele, a fala de Martins foi mal interpretada e o negócio continuará com “cara de dono”, nas mãos da família e por muitos anos.

“Vamos descer do salto alto, fazer as coisas mais simples, com patrimônio de primeira e gente com sangue empreendedor. Para pular, é preciso antes dar uma abaixadinha. Se ficar com a perna esticada, ninguém pula. Estamos nessa fase”, diz ele.

A Cosan vai acabar?
Na última conferência de resultados, o CEO da Cosan fez um comentário meio às pressas, que foi mal interpretado, de que a Cosan iria fechar. A Cosan não vai acabar, absolutamente.

O que houve?
O Brasil mudou muito nos últimos anos, com a taxa de juros indo às alturas. Isso fez com que holdings (como a Cosan) não conseguissem mais ser operacionais. É inviável que ela gere receita que concorra com esse nível de juros para remunerar os investidores. Estamos, então, simplificando. A Cosan tem um portfólio maravilhoso: controla a (empresa de gás natural) Compass, a (de logística e infraestrutura) Rumo, a (de lubrificantes) Moove, a (de gestão de terras agrícolas) Radar, que são companhias capitalizadas e rentáveis. A Cosan também teve uma atividade grande de investimentos, entre eles, a Vale. Agora temos como projeto zerar a dívida até o fim do ano porque, no Brasil, não se pode dever.

Foi anunciado que a dívida seria equacionada no fim do próximo ano. O senhor pretende antecipar esse movimento?
Vou zerar até o fim deste ano e manter uma estrutura enxuta de holding, sempre mantendo o controle (dos negócios investidos). A gente tem o controle acionário de todas as empresas, e vamos continuar assim. Será uma holding sem dívidas, que administra e recebe dividendos e a performance dessas empresas, com uma estrutura mais simples.

O pior do endividamento já passou?
Já passou. Fizemos agora o IPO (oferta pública inicial, na sigla em inglês) da Compass, e foi um sucesso. Tem outras ideias que nós estamos desenvolvendo com o objetivo de zerar o endividamento até o fim do ano. Eu não quero mais dívida, não.

Isso implica na venda de mais ativos?
Existe uma gestão para isso, e temos de fazer de uma maneira que não percamos o controle da companhia. Pode ser via distribuição de dividendos, com associação ou fazendo a venda de algumas participações.

Alguma venda de participação está mais avançada?
Não, a gente está sempre conversando.

Há na mesa propostas pela Rumo?
Tem muita gente querendo a Rumo. É gostoso ser uma noiva paquerada. É um ótimo ativo, mas tem muita fofoca. De toda forma, qualquer movimento que seja feito, se for feito, acontecerá de maneira que a Cosan mantenha o controle da companhia.

Com o aporte da Shell na Raízen, a Cosan vai ter sua participação reduzida no negócio. Os senhores pretendem continuar tendo gestão ativa também na Raízen?
A gente pretende, porque a Raízen é uma empresa fantástica, muito rentável, com mais de 20% de participação de mercado, com os melhores pontos e a melhor marca, que é a Shell. São 7,5 mil postos aqui no Brasil e 850 postos na Argentina, operação muito rentável. Do lado da produção de energia, nossa produção de etanol e açúcar é hoje, de longe, duas a três vezes maior do que a do segundo colocado, com usinas de primeira qualidade.

O que deu errado?
Temos um problema de estrutura de capital, e não operacional. A gente errou na mão em relação aos juros: fizemos mais investimentos do que devíamos ter feito. Estamos fazendo um turnaround que está fluindo muito bem. Gastamos para comprar a Shell Argentina, por US$ 1,5 bilhão. Gastamos outro US$ 1,5 bilhão para comprar a Biosev, que era o segundo maior produtor de açúcar. Investimos em etanol de segunda geração, o mesmo valor. Ao mesmo tempo que isso nos endividou, com investimentos totais de US$ 6 bilhões, nos tornou o que há de mais avançado em energia sustentável. Estamos envolvidos em produção de hidrogênio, etanol de segunda geração, em biogás. Além de ter uma marca maravilhosa, operacionalmente a companhia é rentável. Resolvida a questão da estrutura de capital, ela vai decolar e vai longe.

Os resultados dos investimentos já começaram a aparecer?
Sim, a Argentina está bem administrada. O etanol de segunda geração aumenta sua produção a cada dia. A Biosev chegou a 90 milhões de toneladas de capacidade de moagem de cana, o que é mais de três vezes o segundo colocado. Porém, vamos reduzir toda essa estrutura, ficar com as melhores usinas, com os lugares em que você possa criar clusters (conjuntos) mais robustos. Vamos diminuir esse portfólio para ser mais simples a administração.

O que será reduzido?
Estamos caindo fora do negócio de trading de energia elétrica, por exemplo. Estamos simplificando. Para ser honesto, a gente ficou com um pouco de salto alto nos investimentos, mas os ativos estão aí.

O objetivo de liderar a transição energética e descarbonização continua?
Continua, mas em um nível menor.

Dá para competir com o etanol de milho, que é mais barato?
É preciso ter cuidado com essa afirmação. O etanol de milho é realmente mais barato, mas está exagerado porque eles não têm energia própria. A cana-de-açúcar tem bagaço que faz com que ela seja autossuficiente e venda a energia para a rede. Para produzir o etanol de milho, é preciso comprar energia, o que aumenta o custo deles. Além disso, o etanol de milho é muito subsidiado com incentivos tributários. Quando essas diferenças forem corrigidas, essa distância de rentabilidade entre os dois vai diminuir. Além disso, hoje o preço do milho está baixo, mas não necessariamente ficará assim.

Como está o processo de recuperação extrajudicial da Raízen?
A Raízen é uma empresa rentável, e os credores vão se sair todos muito bem. É uma empresa que é bem administrada, com ativos fantásticos, com a perspectiva de que agora descemos do salto alto e estamos voltando a fazer o arroz e feijão mais simples, mais bem feito.

Como o cenário de guerra, inflação alta e eleições influencia a venda dos ativos?
Nosso setor é privilegiado. O etanol é um negócio que deu certo e ajuda o Brasil em relação ao abastecimento de combustíveis. O país só tem capacidade de refino para 70% das suas necessidades porque a mistura de 30% a 32% de etanol na gasolina faz com que a necessidade de importar seja mínima.

Mas o cenário mais difícil não vai atrapalhar a venda dos ativos?
Não. A Rumo, por exemplo, transporta o agronegócio brasileiro. Se não fosse a Rumo, haveria problema de logística para escoar a safra, e o Brasil vai continuar sendo o celeiro do mundo. Também não há crise no etanol.

O senhor construiu uma empresa que tem a cara de dono. O senhor sairá de conselhos, por conta de acordo com credores?
Não, eu não tenho saído dos conselhos. Eu pretendo, enquanto tiver saúde e disposição, continuar nessa posição.

Mas há uma perspectiva da sua saída em alguns anos?
Ainda não. Temos bons sócios como parceiros, com uma série de regras a serem cumpridas ao longo dos anos.

Como está o plano de sucessão?
A gente pensa muito nisso, erra, corrige. Meus netos estão chegando aí, então tenho de prepará-los. Minha ideia é que os executivos profissionais continuem em seus postos, e eu tenho de educar e treinar meus descendentes para que sejam bons conselheiros e bons acionistas e trabalhem e incentivem os profissionais, porque ninguém faz nada sozinho. Eu acredito muito na empresa de dono profissionalizada.

A Cosan não acaba daqui a cinco anos?
Não. Quero ainda fazer muitos negócios, mas de uma maneira diferente. Vou lutar e fazer o negócio sem pegar dinheiro emprestado, mas ela vai continuar com um portfólio maravilhoso e irreplicável. É impossível fazer uma Compass, uma Rumo, uma Radar, uma Moove. Vamos descer do salto alto, fazer as coisas mais simples, com patrimônio de primeira e gente com sangue empreendedor. Para pular, é preciso antes dar uma abaixadinha. Se ficar com a perna esticada, ninguém pula. Estamos nessa fase.

Por: Cristiane Barbieri | O Estado de S. Paulo

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