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Da canola à macaúba, agronegócio diversifica culturas para produzir etanol e biodiesel

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
20 abril, 2026
em Biocombustíveis
Tempo de leitura: 5 minutos
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Home Biocombustíveis
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Com a soja como protagonista na produção de biodiesel e a cana-de-açúcar predominando no caso do etanol, companhias inovam ao investir em outras matérias-primas

O agricultor Amauri Weber, de 63 anos, produz grãos em 700 hectares nos municípios de Palotina e Terra Roxa, no oeste do Paraná. Com rotação de culturas e tecnologias de manejo, ele colheu, na última safra, 83,5 sacas por hectare de soja – produtividade considerada excelente –, que entregou à C. Vale, cooperativa agroindustrial da qual é associado.

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Embora a organização direcione os grãos prioritariamente para suas fábricas de ração, o trabalho da cooperativa resultou, só no ano passado, em 199,3 mil toneladas de óleo degomado, matéria-prima para a produção de biodiesel. “Gerar energia renovável, além de alimentos, nos deixa satisfeitos”, resume Weber.

Grande parte desse óleo é vendido ao Grupo Potencial, que produz em torno de 1 bilhão de litros de biodiesel por ano em uma fábrica em Lapa, na região metropolitana de Curitiba.

A companhia anunciou um investimento de R$ 6 bilhões até 2030 para que a unidade se torne um complexo de agroenergia, englobando também etanol e biogás. Só a soja vai gerar 1,7 bilhão de litros de biodiesel e 500 milhões de litros de óleo degomado a cada ano.

“Não há nada que possa suplantar o protagonismo da soja em relação à produção de biodiesel”, diz o pesquisador César de Castro, da Embrapa Soja.

Em 2025, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), a soja respondeu por 73,3% dos 9,8 bilhões de litros de biodiesel produzidos no Brasil.

Castro explica que o fato de a cultura ser mecanizada, amplamente usada na alimentação animal e contar com expertise de mais de 50 anos de pesquisa e desenvolvimento resulta na larga vantagem. “A soja gera o farelo, e o óleo é como um bônus”, acrescenta o pesquisador.

E o volume deve crescer ainda mais nos próximos anos. Diretor da ANP, Fernando Moura conta que já há capacidade produtiva autorizada da ordem de 15,5 bilhões de litros por ano, 36% além do nível atual, para a fabricação de biodiesel.

Em larga escala

Tamanho protagonismo, contudo, não significa que outras culturas estejam fora do jogo. Chefe-adjunto de pesquisa e desenvolvimento da Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola frisa que a canola é uma opção para a segunda safra, e a macaúba, uma palmeira nativa do Brasil, também pode contribuir, sobretudo em áreas não mecanizáveis.

O grão de canola tem de 38% a 42% de óleo, contra de 18% a 22% na soja. No fruto da macaúba, o índice chega a 60%, segundo pesquisas da Embrapa. “A soja ocupou uma área de 48,4 milhões de hectares na última safra, logo oferece muita matéria-prima para o biodiesel. Mas é importante ter opções”, avalia Laviola.

Enquanto outras culturas estão em fase de pesquisa e desenvolvimento, é da pecuária que vem a segunda maior fonte para o biodiesel, com 8,3% de participação. Em 2025, gorduras bovina e suína, somadas, geraram 827,5 milhões de litros do combustível. É uma alternativa de custo atrativo, baixa pegada de carbono e potencial de crescimento.

E se o biodiesel começou a ser produzido em larga escala no Brasil há cerca de duas décadas, o etanol já está por aqui por meio século. Nos últimos dez anos, a produção cresceu 20%, alcançando quase 36 milhões de metros cúbicos em 2025, de acordo com a ANP.

Além disso, existem 45 projetos de ampliação ou de novas instalações para indústrias de etanol com previsão de operação ainda em 2026. Isso deve ampliar em 12% a capacidade produtiva anual do etanol anidro – usado na mistura da gasolina –, atualmente de 13,2 bilhões de litros, e em 7,8% a do hidratado, que foi de 22,7 bilhões de litros no ano passado.

Historicamente, a cana-de-açúcar é a protagonista, mas investimentos para produção a partir do milho estão se multiplicando, e o cereal contribuiu com quase 30% de todo o etanol produzido em 2025. Dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) mostram que há 27 biorrefinarias dedicadas a transformar esses grãos em combustível e outras 16 com autorizações de construção vigentes.

Para o CEO da Organização de Associações de Produtores de Cana do Brasil (Orplana), José Guilherme Nogueira, as duas culturas são complementares, especialmente no Centro-Oeste, onde o milho é produzido em maior escala. “No entanto, é essencial que haja isonomia regulatória e concorrencial entre as rotas produtivas. Não se pode dar incentivos a um tipo de rota de etanol ou outro”, afirma.

Caminho sem volta

Presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho do Estado de Mato Grosso (Aprosoja-MT), Lucas Costa Beber é produtor rural no município de Nova Mutum e vê a industrialização do milho para a produção de etanol como um caminho sem volta.

“Ele gera uma proteína de altíssima qualidade, e o combustível agrega valor ao grão. Hoje, para cada tonelada que colhemos do cereal, são gerados R$ 300 em impostos”, afirma.

Muitos agricultores negociam as produções diretamente com as indústrias, que visam estoques do cereal. Lucas Beber vende para a Inpasa, empresa paraguaia com atuação desde 2018 no Brasil, onde tem sete indústrias. Em uma delas, em Sinop, norte do Mato Grosso, são produzidos 1 bilhão de litros de etanol por ano.

A Inpasa passou a usar também o sorgo granífero, que já responde por 5% de todo o etanol que produz, a partir de indústrias na Bahia e no Mato Grosso do Sul. O cultivo, conforme pesquisas da Embrapa, é tolerante à irregularidade do clima e bem adaptado a solos arenosos. Uma tonelada de sorgo pode produzir até 410 litros de etanol, próximos dos 440 litros no caso do milho.

“É mais uma demonstração do gigantesco potencial agrícola brasileiro”, destaca o vice-presidente de trading da Inpasa, Gustavo Mariano.

Por: Wilhan Santin | Fonte: O Globo

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