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Dilema na COP30: o Que Seria um Mundo sem Vacas?

Maria Reis por Maria Reis
16 dezembro, 2025
em Leia mais
Tempo de leitura: 6 minutos
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Na AgriZone da Embrapa, pesquisadores e produtores colocam a pecuária no centro das discussões sobre clima, uso da terra e cultura alimentar

Um painel realizado nesta terça-feira (18), na AgriZone, na Casa Sustentável da Embrapa em Belém, retomou uma pergunta provocadora: o que aconteceria se o mundo deixasse de ter vacas. Na COP30, a discussão girou em torno do  curta-metragem World Without Cows Brazil: The Battle for Balance (na tradução, Um Mundo Sem Vacas Brasil: O Equilíbrio à Prova). O filme é complementar ao documentário World Without Cows, projeto global da Alltech que reúne histórias de pecuaristas em 20 países e 40 localidades.

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No curta-metragem para versão nacional desse tema, o filme mostra o dia a dia de produtores da região amazônica instalados em três perfis de propriedade: uma fazenda de 78 hectares, outra de 4,8 mil hectares e uma terceira com 34 mil hectares. As imagens foram usadas como ponto de partida para discutir produtividade, uso da terra e a relação entre pecuária e clima.

Clodys Menacho, diretor comercial da Alltech no Brasil, explicou que o projeto nasceu para estimular uma conversa menos polarizada sobre o papel da pecuária. A intenção é apresentar dados científicos, combater desinformação e colocar o produtor no centro da narrativa, mostrando como a atividade se conecta com segurança alimentar, emprego e cultura.

Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), indicam que o rebanho global de bovinos é de cerca de 1,5 bilhão de animais. Além disso, a organização afirma que a produção pecuária emprega pelo menos 1,3 bilhão de pessoas no mundo e que cerca de 600 milhões dos domicílios mais pobres mantêm animais como fonte essencial de renda.

Reportagem da Forbes e visão global de Mark Lyons

Em abril, a Forbes Agro publicou uma entrevista exclusiva com Mark Lyons, CEO global da Alltech e idealizador do documentário. Na ocasião, ele contou que a ideia amadureceu ao longo de seis anos e ganhou força quando percebeu que narrativas contra a pecuária ocupavam espaço em grandes eventos midiáticos, enquanto o setor permanecia pouco articulado em comunicação.

Segundo Lyons, a resposta foi usar o cinema para discutir a pergunta “estaríamos melhor em um mundo sem vacas” a partir de fatos concretos, pessoas reais e ciência. A equipe percorreu mais de 40 locais em países como Brasil, Chile, Alemanha, Índia, Quênia, Holanda, Singapura, Reino Unido e Estados Unidos para mostrar o impacto do gado nas mudanças climáticas, no futuro da alimentação e nas consequências econômicas e sociais de uma eventual retirada da atividade.

O documentário integra a plataforma Planet of Plenty, iniciativa da Alltech voltada a contar histórias sobre como a agropecuária pode contribuir para um futuro mais sustentável. Na entrevista à Forbes, Lyons afirmou que as narrativas mais consistentes do agro vêm justamente de quem está na linha de frente da produção, e que o filme tenta ampliar essas vozes para públicos urbanos e para a agenda climática global.

A versão global do documentário já incluia cenas gravadas no Brasil com o pecuarista Victor Campanelli, da Agro-Pastoril Paschoal Campanelli, que trabalha com confinamento e sistemas integrados como exemplo de intensificação produtiva aliada a ganhos ambientais.

O recorte brasileiro do uso da terra

No painel da AgriZone, a pesquisadora Mariana Aragão, da Embrapa Gado de Corte (MS), comentou os trechos do documentário lançado na COP30 e destacou que o Código Florestal brasileiro impõe uma das legislações ambientais mais exigentes do mundo. A Reserva Legal deve ocupar de 20% a 80% das áreas das propriedades, conforme o bioma, o que impõe limites claros à expansão da fronteira agropecuária.

Ela reforçou que a área de pastagens no país está estável, enquanto a produção de carne cresce. A conclusão é que o avanço ocorre por aumento de produtividade, resultado direto de investimento em tecnologia, manejo e pesquisa.

Os números apresentados no painel indicam ainda que metade dos cerca de 5 milhões de produtores rurais brasileiros cria bovinos. Desse grupo, 75% são pequenos e médios, responsáveis por 30% do rebanho nacional. O Brasil abriga o segundo maior rebanho do mundo, o que coloca o país no centro do debate sobre emissões, uso da terra e oferta global de proteína animal.

Na entrevista  de Mark Lyons à Forbes, ele afirmou que o Brasil tende a ocupar papel central nessa transformação pela dimensão do rebanho  e pela combinação de tecnologia, produtividade e legislação ambiental. Ele também já indicou que a companhia pretende ampliar projetos no país e que enxerga o mercado brasileiro como prioridade para os próximos anos.

Outro ponto abordado foi o potencial de recuperação de pastagens. Estima-se que 40 milhões de hectares apresentem algum grau de degradação e possam ser recuperados, tanto para ampliar a produção sem desmatamento como para aumentar o sequestro de carbono no solo. Na avaliação apresentada, há espaço para dobrar áreas de grãos, pecuária e florestas plantadas com base em intensificação e sistemas integrados, sem derrubar novas árvores.

A frase “um mundo sem vacas”, repetida em camisetas e bonés do projeto, funciona como gatilho para uma reflexão mais ampla sobre impactos econômicos, culturais, nutricionais e climáticos. A mensagem principal é que a pecuária ultrapassa a simples produção de carne e leite, integra identidades locais e, se conduzida com práticas sustentáveis, pode contribuir de forma ativa na redução de emissões.

Vozes do campo no Brasil e na África

O painel contou também com a participação de Altair Burlamaqui, pecuarista de Belém e representante da terceira geração de uma família ligada à atividade. Ele relatou como a adoção de boas práticas de manejo e o uso de tecnologia em sistemas de produção na Amazônia estão em linha para conciliar viabilidade econômica e conservação da vegetação nativa.

A discussão ganhou uma dimensão internacional com a presença de Lily Tanui, gestora de projetos e líder climática da Federação Nacional dos Agricultores do Quênia. Ela descreveu a pecuária queniana como atividade multifuncional, que mistura renda, alimento, simbolismo social e identidade de comunidades inteiras. Tanui defendeu mais investimentos em produção sustentável e comunicação que permita aos próprios produtores contar suas histórias.

Segundo ela, políticas públicas e decisões técnicas ainda são tomadas muitas vezes sem que os agricultores compreendam os dados e conceitos que circulam em conferências e fóruns globais. Para que a transição para uma pecuária de baixo carbono ocorra de modo consistente, é essencial que os produtores sejam incluídos no desenho das soluções.

Por: Vera Ondei | Fonte: Forbes Agro

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