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Milho avança e redefine a geografia do etanol brasileiro

Maria Reis por Maria Reis
17 fevereiro, 2026
em Biocombustíveis
Tempo de leitura: 4 minutos
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Home Biocombustíveis
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Entre o pré-sal e o E30, o setor consolida o mercado interno e entra em nova fase marcada por diversificação produtiva e pressão climática global

No início dos anos 2000, o Brasil buscava afirmar-se como grande fornecedor global de etanol. A elevada produtividade da cana, a experiência acumulada desde o Proálcool e a difusão dos veículos flex alimentavam a expectativa de que o país poderia liderar o comércio internacional de biocombustíveis. O petróleo com forte tendência de alta e o avanço da agenda climática reforçavam essa narrativa.

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A disseminação dos veículos flex, a partir de 2003, ampliou de forma estrutural a demanda doméstica. O etanol hidratado passou a competir diretamente com a gasolina na bomba, reduzindo a dependência exclusiva de mecanismos administrativos de precificação. O biocombustível entrou definitivamente na lógica concorrencial do varejo.

Entre 2004 e 2008, houve expansão expressiva da capacidade industrial e da área plantada. O país consolidou sua posição como referência em biocombustíveis e defendeu internacionalmente a ampliação das misturas obrigatórias.

A descoberta do pré-sal, em 2006, alterou a hierarquia das prioridades energéticas. A exploração offshore tornou-se eixo central da estratégia nacional, com impacto relevante sobre a balança comercial e a arrecadação. O etanol não foi abandonado, mas perdeu protagonismo relativo na agenda pública.

O redirecionamento coincidiu com a crise financeira global e com o elevado endividamento das usinas. A restrição de crédito e a redução da taxa de renovação dos canaviais elevaram a idade média das lavouras e comprimiram a produtividade. Parte do parque industrial foi reestruturada e a expansão perdeu ritmo, deslocando o foco para a estabilização do mercado interno.

A recomposição começa em 2017, com o RenovaBio, que instituiu metas compulsórias de descarbonização e criou os CBIOs, créditos de redução certificada de gases de efeito estufa. A partir de 2020, o etanol passou a integrar formalmente a estratégia climática brasileira, reduzindo sua dependência exclusiva da relação de preços com a gasolina.

Em 2024, a produção nacional atingiu cerca de 37 bilhões de litros, segundo a ANP. Mais relevante que o volume é sua composição: aproximadamente 20% já provêm do milho, conforme a Empresa de Pesquisa Energética (EPE). A ascensão do milho altera o equilíbrio histórico do setor. Enquanto a cana permanece dominante, sua produção é condicionada ao “mix” açúcar–etanol. O milho introduz maior previsibilidade de oferta e integração com cadeias agroindustriais.

A decisão de elevar a mistura obrigatória para E30 reforça esse novo regime. O mandato regulatório amplia o piso estrutural de demanda e reduz a volatilidade associada apenas à arbitragem do consumidor flex, além de contribuir para reduzir a dependência de gasolina importada.

No plano internacional, o mercado de etanol avança de forma fragmentada, com misturas obrigatórias em expansão, mas sob exigências ambientais crescentes. No transporte marítimo, a Organização Marítima Internacional aprovou meta de emissões líquidas próximas de zero até 2050, pressionando o setor a buscar rotas alternativas. O etanol enfrenta desafios de densidade energética para uso direto, mas pode integrar cadeias químicas e combustíveis sintéticos, desde que apresente intensidade de carbono certificada.

No cenário-base entre 2026 e 2030, três vetores tendem a moldar o setor: consolidação do E30 como piso regulatório, expansão do etanol de milho no Centro-Oeste e maior rigor ambiental para acesso a mercados. A produção deve crescer de forma moderada e mais diversificada, com menor dependência exclusiva do ciclo açúcar–etanol.

O desafio da próxima década não será apenas ampliar volume, mas sustentar competitividade regulatória, estabilidade macroeconômica e credibilidade ambiental em um ambiente global cada vez mais exigente.

Por: Pedro Côrtes | Fonte: CNN Brasil

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