Por: Ágata Turini

O etanol de milho transforma a matriz de biocombustíveis e aproxima agricultura, energia e tecnologia. Mas crescer com eficiência, rentabilidade e sustentabilidade será o verdadeiro diferencial competitivo. A prioridade agora é extrair mais valor de cada tonelada de matéria-prima.
Um setor que deixou de ser promessa
O etanol de milho é uma indústria consolidada. Projeções setoriais apontam produção brasileira de etanol de grãos de 16,6 bilhões de litros em 2028 e 20,6 bilhões em 2031. Pesquisa setorial revela que 93% dos participantes avaliam positivamente ou muito positivamente o momento da indústria e 82% consideram o negócio rentável ou muito rentável, embora tenha crescido a parcela que relata margens apertadas.
Esse contraste, na minha visão, exige disciplina financeira e operacional. A expansão intensificará a disputa por milho, biomassa, profissionais qualificados e consumidores, reduzindo vantagens hoje existentes à medida que novos projetos entrarem em operação.
A próxima disputa será pela eficiência
A rentabilidade depende cada vez mais de engenharia de processos, recuperação energética e valorização de coprodutos. Moagem seletiva, destilação de baixo consumo energético, recompressão mecânica de vapor e integração térmica permitem reduzir perdas. Soluções disponíveis indicam potencial de economia superior a 40% no consumo energético de determinadas etapas, conforme a configuração industrial.
Referências técnicas também registram rendimentos próximos de 446 litros de etanol e recuperação de cerca de 23 quilos de óleo por tonelada de milho processada. Não são resultados universais, mas mostram como diferenças de rendimento, multiplicadas por milhões de toneladas, afetam as margens.
Por isso, defendo avaliar os investimentos além do CAPEX de implantação: é preciso considerar o custo do ciclo de vida, a eficiência energética, a confiabilidade operacional e a adaptação tecnológica. Uma planta mais barata para construir nem sempre é a mais rentável para operar.
Biomassa: o desafio que pode limitar a expansão
A expansão também pressiona o abastecimento energético, especialmente no Centro-Oeste, onde a oferta de madeira energética pode não acompanhar a demanda. Em Mato Grosso, estimativas apontam que a capacidade de etanol de milho poderá subir de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros entre 2025 e 2030. Uma projeção técnica prevê 383 mil hectares de florestas plantadas para suprir a biomassa, ante uma base estimada de 165 mil hectares.
Não se trata apenas de plantar eucalipto: são necessários investimentos de longo prazo, produtividade florestal, água, logística, infraestrutura e planejamento regional. Considero essencial prever a segurança do suprimento desde a concepção do projeto. Sem energia a custo competitivo, mesmo uma usina moderna pode perder rentabilidade.
Projetos integrados de cana e milho merecem atenção. O aproveitamento do bagaço, a recuperação de calor e a cogeração integrada podem gerar vantagens, desde que respeitados os balanços energéticos, a sazonalidade e a oferta efetiva de biomassa. O futuro pode reunir matérias-primas e rotas tecnológicas distintas.
O milho não produz apenas etanol
DDG e DDGS, destinados à nutrição animal, e óleo de milho já são estratégicos para as margens industriais. A tecnologia amplia o valor das proteínas, fibras e aplicações do dióxido de carbono. Nos Estados Unidos, o setor evoluiu do foco em etanol e DDGS para a diversificação de produtos e ganhos de eficiência energética e de intensidade de carbono.
O Brasil pode aprender com essa trajetória sem repeti-la passo a passo. Na minha visão, devemos pensar as usinas como biorrefinarias, capazes de converter grãos em diferentes produtos de valor econômico. Isso muda projetos, investimentos e mercados.
Automação industrial não é custo. É estratégia de competitividade.
Na minha trajetória na indústria e automação, vejo a tecnologia integrar eficiência, segurança, disponibilidade e rentabilidade. Supervisão remota, gestão inteligente de ativos, centros de operação integrados e treinamento com gêmeos digitais ajudam a antecipar falhas, reduzir a variabilidade operacional e melhorar decisões.
O essencial, porém, não é instalar sensores ou softwares, mas transformar dados em resultados. Indicadores em tempo real revelam perdas energéticas, variações de rendimento e paradas não programadas. Num mercado de commodities, com preços sujeitos a fatores externos, controlar custos internos é uma vantagem decisiva. A tecnologia não substitui a estratégia empresarial: amplia sua execução.
O maior gargalo pode não estar nas máquinas
A expansão chega a regiões historicamente agrícolas, nem sempre preparadas para oferecer profissionais especializados em processos industriais complexos. Uma planta exige, além de equipamentos, equipes treinadas, fornecedores qualificados, lideranças e cultura industrial. Capacitar pessoas durante a construção das unidades e formar parcerias com escolas técnicas são caminhos importantes.
Tenho convicção de que o país deve investir em talentos com a mesma intensidade com que constrói plantas. Mais do que deslocar profissionais de outras regiões, precisamos desenvolver competências locais, carreiras e ecossistemas industriais. Máquinas avançadas dependem de pessoas preparadas para operá-las.
Crescer é apenas o começo
A experiência internacional mostra a importância de políticas públicas, segurança jurídica, inovação e novos mercados. O Brasil reúne capacidade agrícola, experiência em biocombustíveis e conhecimento industrial, mas enfrenta custo de capital, volatilidade do milho, restrições de biomassa, desafios logísticos e necessidade de previsibilidade regulatória.
Na minha avaliação, a próxima década fará uma seleção pela competitividade. Projetos dependentes apenas de preços favoráveis serão mais vulneráveis aos ciclos do mercado. Empresas que priorizarem eficiência energética, automação, inovação, gestão de riscos, coprodutos e formação profissional terão melhores condições de sustentar resultados.
A oportunidade é transformar o agronegócio brasileiro em uma plataforma industrial de maior valor agregado. Para isso, capacidade instalada não pode ser o único indicador: produtividade, retorno sobre o capital, intensidade energética e adaptação tecnológica precisam orientar as decisões. O Brasil já mostrou que sabe produzir etanol em escala. Agora precisa construir uma indústria mais eficiente, integrada e competitiva. No futuro, não vencerá necessariamente quem produzir mais, mas quem transformar melhor cada tonelada de matéria-prima em energia, produtos, valor e desenvolvimento.

Sobre a autora
Ágata Turini é advogada, executiva e comunicadora, com mais de 20 anos de atuação nos setores industrial, do agronegócio e da bioenergia. CEO da Fertron, empresa brasileira de automação industrial e elétrica, exerce também o cargo de Diretora Estadual do CIESP, com atuação voltada ao fortalecimento da indústria, ao desenvolvimento econômico e à ampliação do protagonismo feminino em posições de liderança.
Ao longo de sua trajetória, consolidou experiência em liderança, negócios, negociação, relacionamento e desenvolvimento de projetos. Também atua na comunicação e produção de conteúdo técnico e estratégico, aproximando profissionais, especialistas e empresas dos temas que vêm transformando a indústria, o agronegócio e o futuro da bioenergia.
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