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Magda Chambriard se equilibra entre efeitos da guerra nos combustíveis e objetivos da Petrobras

Maria Reis por Maria Reis
23 abril, 2026
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Tempo de leitura: 7 minutos
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Executiva foi proativa em meio à disparada do petróleo provocada pela guerra no Irã e conseguiu deslocar para Brasília a solução para aliviar os reajustes nas bombas

Em um país em que choques nos preços dos combustíveis costumam custar o cargo de presidentes da Petrobras, Magda Chambriard atravessa a maior crise de sua gestão equilibrando habilidade política, proatividade e gestão de riscos.

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Ao deslocar para Brasília o protagonismo na contenção dos preços do diesel, evitou que a estatal fosse novamente o epicentro de uma crise em ano eleitoral, como a greve dos caminhoneiros que, em maio de 2018, no governo de Michel Temer, culminou na saída de Pedro Parente da empresa. Magda Chambriard tem agradado ao governo sem sacrificar seu posto e o caixa da estatal.

Herdeira da política de preços de combustíveis mais flexível desenhada pelo antecessor Jean Paul Prates em maio de 2023, para eliminar o alinhamento automático das tabelas das refinarias com cotações internacionais, Chambriard teve mais margem de manobra para articular nos bastidores um pacote do governo capaz de evitar perdas bilionárias para a Petrobras, caso fosse obrigada a segurar sozinha os preços na bomba para preservar a popularidade de Lula.

Com isso, além de agradar ao presidente, não ficou mal com os acionistas minoritários no mercado.

No comando da Petrobras desde maio de 2024, Chambriard se esforça para manter uma postura técnica e a voz contida. Caminha para se tornar a mais longeva presidente da estatal desde Roberto Castello Branco, que ficou entre 2019 e 2021. Sem necessidade de ocupar o centro das atenções, ela vem se mostrando eficaz no papel de equilibrista, usando o pragmatismo para se mover num cenário desafiador.

Os ataques de EUA e Israel ao Irã, no fim de fevereiro, provocaram um salto do preço internacional do barril de cerca de US$ 60 para mais de US$ 100 em poucos dias, um dos maiores choques de petróleo até hoje. Chambriard agiu logo.

Poucos dias depois, ela se reuniu com Bruno Moretti, então presidente do Conselho de Administração da estatal, e alertou que a empresa precisaria reajustar os combustíveis. Deixou claro que o modelo atual de precificação de diesel e gasolina, que leva em conta produção nacional e concorrência, estava no limite.

Conexão com Brasília

Com a experiência nas relações de governo acumulada quando comandou a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) entre 2012 e 2016, no governo de Dilma Rousseff, Chambriard estabeleceu com Moretti uma relação de confiança e um canal de comunicação com o governo, levando sugestões do que precisaria ser feito do ponto de vista da Petrobras.

De Moretti, que assumiu o Ministério do Planejamento no fim de março, no lugar de Simone Tebet, a executiva ouviu a promessa de que o governo buscaria uma forma de a alta do petróleo “não precisar chegar ao bolso do consumidor”.

A iniciativa de Chambriard abriu espaço para a construção de um pacote de subvenção dos combustíveis liderado por Moretti e o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que substituiu Fernando Haddad na pasta. Segundo uma fonte a par, “os dois foram responsáveis por 80% do projeto”.

A Petrobras conseguiu evitar uma alta na íntegra do diesel, já que parte foi compensada pelo corte dos impostos federais PIS e Cofins sobre o combustível. A solução agradou ao mercado, que viu menor interferência direta de Brasília na empresa e valorizou ações com a perspectiva de lucros maiores com a alta do petróleo, mas deixou insatisfeitos importadores e distribuidores privados de combustíveis.

Na visão de executivos dos dois ramos, o governo criou um pacote de ajuda olhando só a necessidade da Petrobras. O CEO de uma petroleira diz que a gestão atual da Petrobras tem pouco diálogo com o setor como um todo para costurar soluções conjuntas.

Na própria estatal, a subvenção ao diesel foi classificada internamente como uma “ajuda à Petrobras”. Ainda assim, com o passar dos dias, o primeiro pacote não se mostrou suficiente. Veio outro alerta informal de Chambriard a Brasília, que desencadeou uma nova leva de subvenções, incluindo querosene de aviação e gás de botijão.

A articulação caminhava bem até que a Petrobras fez um leilão de gás com preços acima do de referência, o que levou à queda do gerente responsável pelo leilão e, após críticas públicas de Lula ao certame, do diretor da área, Claudio Romeo Schlosser.

Sem “insubordinação”

Para minimizar o desgaste, Chambriard classificou o episódio de “insubordinação” em uma reunião do conselho de administração, que afastou o diretor. Nos corredores da estatal, a moral da história foi a de que “nem todo mundo é apto para atuar em momentos de crise”, contou uma fonte.

Em uma reunião com equipes, a presidente da Petrobras fez questão de alertar que “episódios desse tipo não seriam mais tolerados” em um “momento de ajuda do governo à Petrobras”. Foi uma cobrança de compromisso com a hierarquia, assim como ela faz questão de demonstrar sua lealdade a Lula.

Em paralelo, Chambriard desenhou um plano para aumentar a participação da Petrobras no mercado nordestino, onde atua a Refinaria de Mataripe, na Bahia, vendida no governo Bolsonaro. O objetivo é levar combustível mais barato a uma região mais sensível à alta dos preços e importante para a campanha de Lula.

Na Petrobras, comenta-se que a CEO costuma ter o cuidado de costurar soluções de forma colegiada para alcançar interesses da empresa sem melindrar o governo. Foi assim para a licença do Ibama para perfurar o primeiro poço exploratório na Bacia da Foz do Amazonas. Ela conseguiu a reconsideração do órgão ambiental via Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), comprometendo outros integrantes do governo.

Agora, Chambriard tem usado suas boas relações com os titulares da Fazenda e do Planejamento para traçar os próximos passos na gestão da crise dos combustíveis, em momento de baixa atuação da pasta de Minas e Energia (MME), destacou uma das fontes.

Na última quinta-feira, uma assembleia de acionistas oficializou Guilherme Mello como novo presidente do conselho da Petrobras, indicando a continuidade de sua interlocução com a equipe econômica. Ele acaba de trocar uma secretaria da Fazenda pelo posto de secretário-executivo do Planejamento, o número 2 de Moretti.

Ex-presidentes comentam

Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, avalia que a pressão do governo sobre a Petrobras hoje é diferente.

“A pressão é mais indireta. E quem está no comando da companhia entende o que o governo espera e quer”, diz ele, que não resistiu a uma crise de outra natureza, em discordância com o governo sobre distribuição de dividendos extraordinários e projetos.

Prates concorda com a leitura do mercado de que o programa de subvenção foi feito para “ajudar a Petrobras”: “Nesse sentido, o governo acertou ao tirar a pressão sobre a Petrobras para reajuste”.

Para Roberto Castello Branco, que deixou a estatal após tentativa do então presidente Jair Bolsonaro de conter o preço dos combustíveis, a interferência do governo Lula na companhia vai acontecer enquanto ela for controlada pelo Estado, independentemente de quem estiver no poder.

“É a maior crise na gestão atual, mas é facilitada porque a presidente é alinhada com o governo e segue os seus ideais. Eu não cedi um milímetro, por isso saí”, diz o executivo, para quem o programa de subvenção não é suficiente para evitar prejuízos à Petrobras. “Hoje há um aumento substancial no preço do petróleo e do gás natural. A gasolina, por exemplo, não foi ajustada”.

A integração entre Magda Chambriard e o governo agrada, ao menos, a representantes dos petroleiros. Um dirigente sindical, que não quis se identificar, diz que as medidas de subvenção são corretas, mas vê no deslocamento de iniciativas para Brasília uma tentativa de afastar a estatal de iniciativas que possam gerar desgastes com Lula.

Por: Bruno Rosa | Fonte: O Globo

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