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O agro não precisa de subsídio, mas de juros menores, diz Luis Felli, Head Global da Massey Ferguson

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
5 maio, 2026
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Tempo de leitura: 8 minutos
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Para o executivo, que também é vice-presidente sênior da AGCO Corporation, uma Selic entre 6% e 7% resolveria mais do que qualquer programa de crédito Rural

Foto:Vera Ondei

“Quem está nessa indústria sabe que ela é cíclica e varia muito com os preços de commodities. É a nossa vida”, diz Luis Felli, head global da Massey Ferguson e vice-presidente sênior da AGCO Corporation , grupo norte-americano presente em 140 países, com sede em Duluth, que reúne ainda Fendt, Valtra e PTx. Felli fez essa declaração nesta quarta (29), em Ribeirão Preto (SP), durante a Agrishow, no mesmo dia em que a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), declarou que a receita líquida de vendas de máquinas e equipamentos agrícolas no primeiro trimestre de 2026 caiu 16,4% em relação ao mesmo período de 2025.

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O fato não surpreendeu o engenheiro agrônomo Felli, formado pela ESALQ-USP e com MBA pela Universidade de Columbia, em Nova York, porque ele conhece bem as marés do setor. “Quando os preços caem, a demanda tende a cair. Quem conhece o setor se prepara para isso”, disse em entrevista exclusiva à Forbes, durante a Agrishow. Para o executivo, preparar-se, na prática, significa mudar a missão das equipes.

Por exemplo, ele conta que nos anos de 2021, 2022 e 2023, quando a demanda de máquinas agrícolas disparou, o departamento global de compras da AGCO tinha uma única tarefa: encontrar peças para dar conta da produção. Agora, o mesmo time trabalha na otimização de sourcing, na substituição de fornecedores de países com custo mais elevado e na redução do preço dos componentes. O que não muda, independentemente do ciclo, é o investimento em engenharia e inovação. “Não adianta cortar engenharia esse ano para retomar no próximo. É um negócio de longo prazo”, diz.

O movimento de alta e baixa nas vendas acompanha, com bastante precisão, o comportamento dos preços de commodities e das taxas de juros. O produtor que investiu pesado em 2021 e 2022, quando os preços estavam na estratosfera e os juros ainda comportavam, se vê hoje pressionado por um cenário invertido: commodity em queda e Selic nas alturas.

“O mar estava ótimo e você pulou do penhasco, começou a nadar. Aí o mar ficou bravo. Não dá pra voltar. Tem que ir até a ilha”, define Felli, ele próprio um dos agricultores alavancados que precisaram recalcular a rota financeira. O executivo também é produtor de grãos no Maranhão e desde novembro de 2024 vem migrando seus financiamentos para linhas atreladas ao dólar e ao Fundo Constitucional do Nordeste (FNE), reduzindo a exposição ao CDI. A meta é zerá-la nos próximos 60 dias.

Para ele, o problema central do produtor brasileiro não é o volume de subsídios nem a composição do Plano Safra. É a taxa básica de juros. “Com uma Selic em torno de 6% a 7%, não precisaria de subsídio, não precisaria de nada. Só de linha de crédito em banco”, afirma. “O problema do Brasil está na taxa de juros associada à despesa pública e à geração de inflação.”

O que acontece no resto do mundo


O cenário externo também oferece pouco alívio. Na Europa, o mercado de máquinas agrícolas, historicamente mais estável por contar com subsídios governamentais, entrou em compasso de espera. O agricultor europeu, acossado pelo custo de fertilizantes e diesel, reduziu investimentos.

Alguns países já enfrentam dificuldades de abastecimento de insumos, como Alemanha e França, o que levou parte dos produtores a não plantar uma segunda safra de trigo. “Todo mundo na espera”, resume Felli. “Os investimentos caem, é natural.”

Nos Estados Unidos, o produtor antecipou a compra de fertilizantes antes do acirramento das tensões no Oriente Médio, o que amorteceu parte do impacto. Mas a tendência de ampliar a área de soja em detrimento do milho, por causa do suporte governamental, deverá resultar em uma safra de milho menor do que o esperado.

Ele acrescenta a isso a incerteza do El Niño e o comportamento das chuvas na região central dos Estados Unidos, onde a primavera chegou seca. “E na Austrália, parte dos produtores que plantaram trigo na primeira safra não voltou a plantar na segunda, por causa do preço elevado e do risco de falta de fertilizante.”

A fronteira que ele enxerga no mapa

Para Felli, o mercado brasileiro de máquinas agrícolas tem uma característica que o distingue dos demais: oscila com amplitude, mas a tendência histórica de uma década é sempre de crescimento. E o vetor mais promissor está no Cerrado.

O raciocínio é simples e respaldado em números. Apenas 10% do território brasileiro são usados para produção agrícola. Outros 20% estão em pastagens. A conversão de um quarto dessas áreas de pastagem em lavouras, dentro dos marcos do Código Florestal, sem supressão de vegetação nativa, elevaria a área agrícola nacional em 50%.

“O movimento de expansão da agricultura brasileira está no Cerrado. É sem dúvida”, diz Felli. “Tem muito espaço para crescimento, e tudo dentro da legislação.”

Além da conversão de pastagens, ele aponta dois vetores adicionais. O crescimento do etanol de milho gera DDG como coproduto, um insumo proteico que deverá ampliar o confinamento de bovinos e fortalecer a pecuária intensiva.

O aumento do mandato de biodiesel, por sua vez, vai demandar mais óleo de soja e liberar farelo em maior volume no mercado, barateando a proteína para aves e suínos e tornando a produção nacional de carne ainda mais competitiva. “Quando você olha toda a evolução da cadeia, o Brasil tem muitos espaços de crescimento”, afirma.

E para ele, a próxima fronteira é a irrigação. O Vale do São Francisco já demonstrou o potencial do Nordeste para culturas de alto valor. A Caatinga irrigada, na visão de Felli, é o capítulo seguinte da expansão agrícola brasileira. Considerando todos os sistemas, entre gotejamento, inundação, aspersão convencional e pivô central, a área total irrigada do Brasil é de cerca de 9,2 milhões de hectares, segundo pesquisas da Embrapa Milho e Sorgo, e a estimativa da ANA (Agência Nacional de Águas) é de que até 2040 essa área chegue a 12,4 milhões de hectares.

A projeção é de que até 22% da área agropecuária atual do Brasil poderia ser irrigada, o que corresponde a cerca de 55 milhões de hectares, e isso demandaria mais máquinas e implementos agrícolas, além da estrutura irrigante.

Engenharia sem recuo

Em 2025, as vendas líquidas da AGCO Corporation foram de US$ 10,1 bilhões (R$ 50 bilhões na cotação atual), abaixo do ano anterior, mas com uma geração recorde de fluxo de caixa livre. Foram US$ 740 milhões (R$ 3,6 bilhões). Vale registrar que o fluxo de caixa livre é o dinheiro que sobra no caixa de uma empresa depois que ela paga todas as suas despesas operacionais e realiza seus investimentos em ativos fixos como máquinas, equipamentos e instalações.

Não por acaso, enquanto o mercado resfria, a AGCO amplia os centros de engenharia. O Brasil, nesse mapa, ocupa posição estratégica. Mogi das Cruzes abriga o desenvolvimento global de tratores até 145 cavalos das marcas Massey Ferguson e Valtra, além de centros dedicados à pulverizadores e a motores. Ibirubá, no Rio Grande do Sul, é o centro global de plantadoras.

“O Brasil tem dois motivos para ser esse hub: a competência e o custo da engenharia, que é mais barato do que na Europa”, diz Felli. Além do Brasil, a corporação possui outros três centros, dois na Europa (França e Finlândia) e um dos Estados Unidos.

A inteligência artificial, considerada a nova fronteira do agro, já entrou nesse processo. O objetivo é usar IA para acelerar a escrita de software, permitindo que um engenheiro com domínio do equipamento oriente a ferramenta no lugar de uma equipe inteira de programadores.

“Com o mesmo dinheiro, faço muito mais”, resume. Mas ele frisa que a adoção precisa ser gradual e dentro de estruturas proprietárias. Ferramentas públicas de IA não entram na equação: quem alimenta um sistema aberto com dados técnicos da empresa os coloca, na prática, à disposição de concorrentes. “Não posso usar uma ferramenta pública onde minha inteligência fica disponível”, diz. A transição, portanto, ocorre em paralelo à operação atual. “Vou aplicando conforme a aplicação amadurece.”

Nas máquinas, a tecnologia já ultrapassou o estágio experimental, por exemplo com pulverizadores que identificam plantas daninhas por sensores de imagem e acionam bicos exclusivamente sobre elas, sem molhar o restante da área. Plataformas de dados coletam informações via 4G ou satélite e permitem acompanhar em tempo real cada operação, cada parada, cada operador. “Você pode ter um centro de operações agrícolas com uma ou duas pessoas monitorando todas as máquinas em movimento”, descreve Felli. “Quando surge um problema, o suporte entra imediatamente.”


Mas Felli admite que a adoção ainda é baixa porque o “produtor exige payback”, indicador financeiro que representa o tempo de retorno de um investimento. Por isso, em um momento de retração financeira, a Massey Ferguson apostou no retrofit: atualizar tecnologicamente plantadeiras relativamente antigas, incorporando o estado da arte em precisão de plantio, sem obrigar o produtor a comprar uma máquina nova. “O agricultor fala: não estou com coragem de comprar uma plantadeira nova agora. Mas posso atualizar a que tenho”, explica.

Por: Vera Ondei | Fonte: Forbes Agro

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