Em live na quinta-feira, 20, candidato à presidência disse que “a gasolina virou etanol”, criticando o aumento da proporção biocombustível na gasolina e irritando produtores
A declaração do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) de que “a gasolina virou etanol” e de que poderá rediscutir a mistura obrigatória do biocombustível caso seja eleito provocou forte reação no setor sucroenergético paulista e chegou ao gabinete do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Dezenas de empresários procuraram o governador para cobrar esclarecimentos sobre a fala e as propostas do presidenciável para o segmento e chegaram a questionar o apoio de Tarcísio de Freitas ao candidato, segundo apurou o Broadcast Político.
Em live semanal na última quinta-feira, 20, Flávio Bolsonaro criticou o aumento do porcentual obrigatório de etanol na gasolina de 30% para 32%, autorizado pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em julho, e afirmou que a proporção terá de ser revista em um eventual governo.
O candidato comparou o aumento da mistura à chamada “reduflação” – prática de reduzir a quantidade de um produto mantendo o preço de venda.
“Uma coisa que a gente vai ter de discutir é essa quantidade de etanol que tem dentro da gasolina. As pessoas vão comprar uma barrinha de chocolate no mercado, era de 200 gramas, agora, 160g. Vai comprar um rolo de papel higiênico, que era de 40 metros, hoje tem 36 metros. Caixa de Bis, que vinha com 20, agora vem com 16. Dúzia de ovos passou a ter dez. A gasolina virou etanol. Nem o combustível esse governo está poupando”, afirmou o presidenciável em crítica ao governo Lula.
A declaração despertou reações de repúdio da oposição ao governo e das entidades representativas do setor.
O mal-estar em São Paulo também foi imediato, de produtores de cana-de-açúcar a grandes industriais. Empresários procuraram diretamente o governador com queixas quanto à fala do presidenciável.
As reclamações foram no sentido de que Flávio Bolsonaro estaria contribuindo para a desinformação quanto ao etanol, justamente um tema sensível ao desempenho econômico das indústrias e do interior paulista.
Além disso, a declaração desagradou ao entorno e à campanha do governador, que buscou minimizar e evitar eventuais efeitos colaterais a sua reeleição. Segundo uma pessoa próxima à campanha, que falou em condição de anonimato, essa é uma fala que afeta diretamente a base do governador, e sem motivação.
Segundo interlocutores, Tarcísio de Freitas conversou com o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, e o orientou sobre como tratar o assunto, mas não procurou diretamente o candidato.
Reservadamente, aliados afirmam que não é a primeira vez que declarações da família Bolsonaro colocam o governador em uma situação delicada. Procurado, o governador não respondeu ao pedido de comentário até a publicação deste texto.
Ao núcleo duro da campanha do presidenciável, foi repassado o mal-estar gerado pela fala aos assessores e ao próprio candidato. Foi ressaltado que o aumento do teor obrigatório do etanol na gasolina foi um pleito do setor, atendido pelo governo Lula, e que isso é uma questão de “mercado” sensível às indústrias.
Também foi lembrado o tamanho do setor no Estado de São Paulo e que a agenda brasileira de transição energética é internacional e transcende ao agronegócio.
Os interlocutores de Flávio Bolsonaro, por sua vez, minimizaram as falas, afirmando que a interpretação gerada não foi a que o presidenciável quis declarar e que seu plano de governo prevê incentivos a biocombustíveis.
Após a repercussão negativa, Marinho saiu em defesa do candidato. “Flávio Bolsonaro é um defensor do setor sucroenergético e dos biocombustíveis. Seu plano de governo propõe transformar o Brasil em potência de biocombustíveis, fortalecer e ampliar o RenovaBio para o exterior e aplicar a Lei do Combustível do Futuro, permitindo que o Brasil venda créditos de carbono ao mundo”, disse Marinho, em nota à imprensa.
A nota, segundo pessoas ligadas à questão, foi motivada por um pedido de esclarecimento do governador paulista.
Assessores de Tarcísio de Freitas também atuaram colocando “panos quentes” junto aos empresários e produtores do setor, afirmando que se tratou de uma frase “mal colocada” do presidenciável e de que não há intenção concreta em reduzir a mistura de etanol na gasolina, relatam essas pessoas.
A corrida foi para reparar danos junto a um dos setores mais próximos ao governador e capilarizado pelo interior do estado.
Outro interlocutor lembra que o setor sucroenergético está presente na maioria dos municípios do estado, não apenas restrito à região de Ribeirão Preto, polo da indústria de etanol do país. Segundo ele, é um setor que puxa a economia de 500 municípios e, consequentemente, a arrecadação de 500 prefeituras.
Interlocutores do governador dizem que a crise está superada e que o presidenciável não deve voltar ao tema, apesar de o setor “não esquecer tão cedo”.
Por: Isadora Duarte e Geovani Bucci | Fonte: O Estado de S. Paulo
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