Poder Executivo considera difícil fechar um acordo antes das eleições de outubro; próxima rodada de negociações ocorre na segunda-feira, 31, quando Brasil e EUA podem detalhar as concessões de cada lado
Apesar da retomada das negociações sobre o tarifaço, integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não esperam uma redução rápida das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros.
Segundo negociadores brasileiros, dificilmente será possível chegar a um acordo antes do fim das eleições, em outubro deste ano.
O governo brasileiro espera que assessores do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apresentem uma proposta com os pontos a serem negociados. Ou seja, os EUA devem dizer o que esperam do Brasil para dar início às tratativas.
O comércio e as tarifas sobre o etanol estavam no centro das discussões para tentar evitar o novo tarifaço de Trump. Atualmente, o Brasil cobra tarifa de 18% sobre o etanol de milho importado dos EUA. Antes do novo tarifaço, os americanos aplicavam uma taxa de 12,5% sobre o etanol brasileiro.
Segundo integrantes do governo Lula que participam das negociações, o Brasil estaria disposto a reduzir a alíquota cobrada sobre o etanol norte-americano se os Estados Unidos reduzirem as barreiras à entrada do açúcar brasileiro. Um eventual acordo dependeria dos termos apresentados pelos negociadores de Trump.
O mercado americano opera com cotas de importação de açúcar com tarifa reduzida. O Brasil, maior produtor mundial da commodity, pode exportar 155 mil toneladas por ano com tarifa menor, volume considerado pequeno pelo governo brasileiro. O volume que ultrapassa essa cota pode ser taxado em 100%, segundo o governo brasileiro.
Reunião
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e o representante comercial dos Estados Unidos (USTR), Jamieson Greer, vão se reunir virtualmente na próxima segunda-feira, 31, às 14h30, no horário de Brasília.
O encontro será a primeira etapa de uma agenda definida pelos dois países para retomar as negociações técnicas sobre as barreiras comerciais impostas pelos EUA.
A retomada das negociações ganhou força após o telefonema realizado na semana passada entre os presidentes Lula e Donald Trump. Na conversa, que durou cerca de 1h20, os dois trataram principalmente das tarifas impostas pelos EUA a produtos brasileiros.
No encontro virtual, o governo brasileiro deve apresentar um roteiro para dividir a discussão por setores. Assim, será possível aprofundar as negociações de acordo com a realidade de cada segmento.
A ideia é começar pelos bens de capital, seguir para o setor automotivo e depois para o químico. No entanto, a reunião de segunda-feira deve servir como preparação para conversas mais técnicas e futuras discussões entre ministros.
Reciprocidade
Há poucas semanas, o governo brasileiro informou ter iniciado o processo para aplicar medidas de reciprocidade contra os EUA em resposta às tarifas impostas pelo governo norte-americano a produtos brasileiros.
O tema deve entrar na pauta da nova rodada de negociações com o governo norte-americano. Segundo interlocutores de Lula, o governo deve insistir que o tempo está passando, as tarifas seguem em vigor e a lei pode ser acionada, se considerado necessário.
O discurso a ser adotado é que, se não houver acordo nos próximos meses, o processo de análise da aplicação da lei da reciprocidade será concluído e o Brasil terá de decidir sobre o tema. Nesse cenário, o país poderá aplicar tarifas sobre produtos norte-americanos.
Tarifaço
Os EUA aplicaram, neste ano, duas tarifas adicionais sobre produtos brasileiros. A primeira acrescentou 25% sobre parte das exportações brasileiras após uma investigação do governo americano concluir que o país adota práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os EUA.
Entre os pontos citados pelos americanos estavam o PIX e a regulação das plataformas digitais.
Posteriormente, os americanos anunciaram uma segunda tarifa adicional, de 12,5%, após uma investigação destinada a punir países que não proíbem nem fiscalizam adequadamente a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. Com isso, parte dos produtos brasileiros passou a enfrentar uma alíquota total de 37,5% para entrar no mercado dos EUA.
Apesar disso, milhares de produtos ficaram fora da cobrança adicional, incluindo itens relevantes para as exportações brasileiras, como petróleo, café e carne bovina. Já setores como calçados, máquinas, madeira e açúcar continuaram submetidos à tarifa máxima.
Agora, a aposta do governo brasileiro é que a retomada das negociações técnicas abra caminho para ampliar a lista de exceções e para um possível acordo que reduza os efeitos do tarifaço sobre as exportações do país.
Por: Thiago Resende | Fonte: G1
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