Empresa foi a primeira a firmar uma parceria com a Endura Carbon para tocar projeto de captura e armazenamento de carbono emitido na produção de bioenergia
A usina São Manoel, que fica no município de São Manuel (SP), estima que pode ter uma receita adicional de R$ 15 milhões ao ano com a venda dos créditos de carbono do projeto de captura e armazenamento de carbono que pretende tocar em parceria com a Endura Carbon.
A estimativa é do gerente de novos negócios da São Manoel, Rafael Bassetto, que participou na última semana do Carbonless Summit, realizado em Ribeirão Preto (SP).
A empresa sucroenergética foi a primeira a firmar uma parceria com a Endura Carbon para tocar um projeto de captura e armazenamento de carbono emitido na produção de bioenergia, tecnologia batizada de BECCS.
A usina São Manoel processa 4 milhões de toneladas de cana por ano, e tem uma emissão de 120 mil toneladas do carbono biogênico – ou seja, cuja emissão é compensada pela captura por meio do crescimento das culturas agrícolas.
O projeto da Endura Carbon é criar um “hub” que seja capaz de receber carbono de várias usinas e injetá-lo no solo, armazenando-o permanentemente 1 milhão de toneladas de carbono ao ano. Assim, para a operação de BECCS ser viável, seria necessário agregar ao hub o carbono emitido por oito usinas sucroalcooleiras do porte da São Manoel.
A Endura Carbon aguarda autorização da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) para realizar testes de injeção de carbono em São Paulo.
A agência ficou encarregada de autorizar os projetos após a publicação do decreto 13.095/2026, em agosto, que regulamentou a atividade de captura e armazenagem de carbono (CCS, na sigla em inglês) prevista na Lei do Combustível do Futuro.
Bassetto conta que, depois de pesquisar por um ano o negócio de BECCS, defendeu em conversa com o presidente da usina que isso não seria um negócio para a São Manoel, já que envolve muitos riscos de pesquisa de solo, regulatórios e comercial.
Além disso, ele avaliava que esse tipo de projeto demanda muito investimento e que uma usina não seria lugar de pesquisa e desenvolvimento (P&D), mas sim de aplicar tecnologias já desenvolvidas.
No entanto, após conhecer o projeto da Endura Carbon, o gerente avaliou que a usina, que já é aberta a inovações, não poderia perder o bonde da história.
Ele concluiu que o modelo de negócios ideal para a empresa seria de uma parceria com a Endura Carbon. Outra operação, sem custo ou riscos para a usina, seria apenas vender as toneladas de gás carbônico geradas na fermentação do etanol para a empresa especializada captar, transportar e injetar no solo.
Dessa forma, o executivo descartou replicar o modelo da FS, de etanol de milho, que construiu uma planta de BECCS para armazenar no solo o carbono emitido ao lado em sua usina de Lucas do Rio Verde (MT).
Potencial no Brasil
O BECCS é uma das rotas tecnológicas de captura e armazenagem de carbono reguladas no Brasil. Estima-se que cerca de 20% do potencial brasileiro de captura de carbono podem vir das operações de BECCS, afirmou a especialista em armazenamento geológico de carbono e diretora da Associação CCS Brasil, Natalia Weber.
Ela defendeu que a captura e armazenamento de carbono é uma tecnologia usada e monitorada há 30 anos, com 77 projetos comerciais em operação no mundo, 44 projetos em construção e mais 610 em desenvolvimento.
A pioneira FS, que iniciou seu projeto de BECCS em 2020 e teve a licença de instalação aprovada em novembro do ano passado, aguarda autorização para iniciar a injeção de carbono na planta ainda neste mês.
A meta é enterrar 423 mil toneladas por ano. A empresa já comercializa antecipadamente créditos de carbono, mas também pensa na venda futura de um combustível ainda mais sustentável, com pegada negativa de carbono.
Potencial de usinas de cana
Para o geólogo Everton de Oliveira, sócio-fundador da Hidroplan, empresa de consultoria ambiental e um dos organizadores do Carbonless, é necessário desmistificar a visão de que a tecnologia de CCS é muito nova e que enterrar o carbono pode no futuro contaminar os aquíferos ou danificar as lavouras.
Segundo ele, o setor sucroenergético tem uma vantagem pelo fato de as usinas gerarem um gás carbônico biogênico com 95% de pureza, o que reduz significativamente os custos de captação porque dispensa a separação de outros gases.
Outra vantagem é a localização geográfica das usinas do setor. Em sua avaliação, a concentração de 56% da produção de cana-de-açúcar em São Paulo é uma vantagem em relação a outros projetos de CCS no mundo porque torna a operação aqui mais barata, evitando grandes gastos com transporte e reduzindo as emissões para levar esse carbono aos poços de injeção.
Um fator positivo adicional é que a região produtora de cana-de-açúcar está coincidentemente sobre a bacia sedimentar do Paraná, propícia para enterrar o carbono.
“A CCS é uma tecnologia segura, madura, usada há muitos anos. O carbono deve ser enterrado a centenas de metros (de 800 a 1.000 m de profundidade) sob espessas camadas de rochas impermeáveis, que impedem o vazamento do gás. Deve ser a próxima grande revolução que o agro brasileiro vai liderar”, disse Oliveira.
Novos interessados
A Petrobras, que já faz a injeção de carbono no solo há muitos anos, também tem interesse em projetos de BECCS, segundo Cláudio Ziglio, responsável na empresa por iniciativas de identificação e superação de desafios nos projetos de CCS. Ele afirmou no evento que a Petrobras vai fazer um projeto piloto para monitoramento e iniciou estudos para identificar onde pode ter mais sinergia com os planos de BECCs.
A academia também já está se envolvendo em projetos de BECCS. A USP criou em junho o Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD), financiado pela Fapesp, para ajudar a alavancar a implantação de projetos com esa tecnologia.
Bruno Souza, professor titular da Escola Politécnica da USP e coordenador do CCD, disse no evento de Ribeirão que, na primeira fase do projeto de cinco anos, serão analisados mapeamento geológico subterrâneo, regulamentação, aspectos socioambientais dos projetos de BECCS e modelos de créditos de carbono. Os projetos-pilotos começam a ser construídos em uma segunda fase.
O CCD tem a parceria da secretaria de meio ambiente, infraestrutura e logística do estado de São Paulo (Semil) e conta com pesquisadores também da Unesp, Unicamp, ITA e Mackenzie, além de representantes do setor produtivo.
A diretora de petróleo, gás natural e biocombustíveis da Semil, Laís Almada, disse no evento que vê grande potencial na captura e armazenamento do carbono gerado nas usinas.
Por: Eliane Silva | Fonte: Globo Rural
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