Deste valor, R$ 22,5 bilhões foram relacionados a provisões para perdas
A Raízen, que protagonizou a maior recuperação extrajudicial da história, encerrou o exercício fiscal de 2025/26, em 31 de março, com prejuízo de R$ 27,1 bilhões. Deste valor, R$ 22,5 bilhões foram relacionados a provisões para perdas (impairment), decorrentes da reavaliação de ativos que foi necessário fazer, principalmente após a companhia pedir recuperação extrajudicial nos últimos dias da temporada, em 12 de março.
Das provisões, R$ 12,5 bilhões são possíveis perdas decorrentes de “incerteza significativa quanto à continuidade operacional”, ou seja, caso os ativos deixem de operar. Nesta conta entraram ativos avaliados em R$ 4,3 bilhões que podem parar de funcionar, R$ 3,8 bilhões em imposto de renda que deixarão de ser compensados, e R$ 2,8 bilhões em tributos que deixarão de ser recuperados.
Estas contas, disse a Raízen, podem ser reavaliadas “à medida que houver maior grau de definição quanto à implementação do plano de recuperação extrajudicial”.
Outros R$ 10,1 bilhões em provisões referem-se à redução do valor de certos ativos, como R$ 4,3 bilhões em reduções de valor de seus ativos de açúcar e etanol, à redução contábil de R$ 586,7 milhões da venda dos canaviais da Usina Santa Elisa e de R$ 239,9 milhões da venda de ativos de geração de energia.
O peso da dívida
No exercício 2025/26, a Raízen teve uma despesa de R$ 11,7 bilhões com o custo de sua dívida bruta, dos quais R$ 4 bilhões apenas no último trimestre, entre janeiro e março. A dívida bruta alcançava R$ 71,8 bilhões, das quais R$ R$ 65,7 bilhões estão no escopo da recuperação extrajudicial.
A empresa reforçou, como em trimestres anteriores, que o aumento da despesa com juros e a elevação da dívida ao longo da temporada refletiu principalmente a substituição de linhas de capital de giro — que antes não entravam na linha financeira e compunham o custo operacional — por instrumentos financeiros, além da elevação da taxa de juros.
O fim de operações de risco sacado (até então comuns no negócio de distribuição) e o fim de adiantamento de clientes, com a consequente troca dessas operações por instrumentos de dívida, acrescentaram ao passivo financeiro R$ 13,6 bilhões. O pagamento e a apropriação de juros sobre as dívidas somaram mais R$ 10,7 bilhões.
Além disso, a deterioração de crédito da Raízen, com o downgrade de sua nota pelas três principais agências de classificação de risco em março, provocou efeitos de chamada de margem. Este elemento, somado a outras variações de capital de giro e de ativos e passivos, acrescentaram R$ 6,8 bilhões à dívida. Em um ano, a dívida líquida da Raízen sofreu uma elevação de 69,9%, ou de R$ 23,9 bilhões.
No exercício, a companhia buscou antecipar o pagamento de compromissos com compra de etanol junto a usinas para distribuição, o que gerou provisão de R$ 546 milhões em indenizações por pagamento antecipado.
Distribuição vai bem; cana, não
A companhia consumiu R$ 9 bilhões de seu caixa, e encerrou a temporada com R$ 13,6 bilhões em caixa. O negócio que mais gerou caixa foi o de distribuição de combustíveis, enquanto o negócio de açúcar e etanol consumiu caixa.
O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) de distribuição de combustíveis da Raízen no Brasil teve um salto de 35,5%, para R$ 5,7 bilhões, enquanto o Ebitda de açúcar e etanol recuou 23,9%, para R$ 4,5 bilhões.
O negócio de distribuição viveu um bom momento no exercício, com ganhos de volume e de margem, decorrente do combate às ilegalidades no setor e pela redução das operações de risco sacado. A margem Ebitda de distribuição cresceu 26,8% em relação ao exercício anterior, e chegou a R$ 199 o metro cúbico. No quarto trimestre, quando os preços do diesel dispararam no mercado internacional por causa da guerra no Oriente Médio, a margem ficou em R$ 246 o metro cúbico.
Em volumes, a Raízen cresceu na movimentação de combustíveis de ciclo Otto e de diesel, tanto ao longo do exercício e com apenas no quarto trimestre. No consolidado da safra, o volume total vendido cresceu 6,7%, embora a companhia tenha tido uma perda líquida de 213 postos Shell em relação ao fim da temporada anterior.
Já no negócio de açúcar e etanol, o resultado foi afetado pela quebra de sua colheita de cana-de-açúcar, que resultou em uma diminuição de 10,6% em sua fabricação de produtos em açúcar equivalente. Houve redução da produção tanto de açúcar como de etanol convencional.
A única linha que ampliou sua produção foi a de etanol de segunda geração (E2G), cuja fabricação mais do que dobrou, alcançando 120,2 milhões de litros, “refletindo a estabilização operacional das plantas Bonfim, Univalem e Barra”, segundo a Raízen. Embora seja apontada por alguns analistas como vilão dos resultados da companhia nos últimos anos, o E2G recebeu mais investimentos na safra para avançar na conclusão das obras das usinas Vale do Rosário e Gasa.
Retomada?
Com a reorganização da estrutura de capital da companhia acertada com seus credores dentro do plano de recuperação extrajudicial, a administração da Raízen afirmou, em mensagem ao mercado, que os movimentos feitos “criam as condições para uma redução relevante da alavancagem e para a retomada de uma trajetória sustentável”. E que “a Raízen está melhor posicionada para iniciar um novo ciclo, com geração de valor mais previsível e consistente”.
Por: Camila Souza Ramos | Fonte: Globo Rural
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