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De uma a 135 usinas de cana, Necta aposta em “fonte exclusiva” para biometano verde

Maria Reis por Maria Reis
21 agosto, 2025
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Tempo de leitura: 7 minutos
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Distribuidora mapeia região com maior concentração mundial de fornecedores do gás a partir da cana-de-açúcar em plano de expansão para colocar o biocombustível produzido pelas plantas sucroenergéticas na rede de municípios paulistas

José Eduardo Moreira, CEO da Necta Gás  Natural

No ano passado, ao assumir o comando da Necta Gás Natural, o executivo José Eduardo Moreira tinha como missão desenhar um plano de expansão da empresa.

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A meta principal do CEO era apresentar ao governo paulista um plano de negócio agressivo, uma base para a companhia pertencente à Commit – joint venture entre Compass, do grupo Cosan, e Mitsui – obter autorização e ter prorrogada sua concessão por mais 20 anos, de 2029 para 2049.

Apesar de ter a maior área de atendimento e a concessão em 375 dos 645 municípios paulistas, a Necta – antiga GasBrasiliano – está presente em apenas 43. Além de ampliar a rede de atendimento para 105 municípios, do lado do fornecimento do insumo uma constatação saltou aos olhos de Moreira.

Na região de atuação da concessionária, 135 usinas processam cana-de-açúcar e fabricam açúcar, etanol e bioenergia. Todas também seriam capazes de produzir o biogás, insumo para a produção do biometano. O gás tem características idênticas ao gás natural de petróleo fornecido pela Necta aos quase 50 mil clientes, só que é “100% verde e renovável”.

Pelos cálculos do executivo, que dedicou sua carreira ao mercado de gás, as usinas têm um potencial de fornecimento de 6 milhões de metros cúbicos de biometano por dia. O volume corresponderia a 43% do consumo atual de todo o estado de São Paulo, de 14 milhões de metros cúbicos de gás natural.

Da amostra inicial “na região que tem uma concentração única no mundo” de usinas capazes de fornecer biometano, o CEO da Necta destacou 46 delas que, no curto prazo, poderiam ofertar metade do potencial, ou 3 milhões de metros cúbicos por dia.

“Na hora que eu me deparei com todas essas usinas, desenhei um traçado de rede conectando as que tinham prontidão e estavam manifestando o desejo de produzir biometano nos próximos cinco anos”, afirmou Moreira em entrevista ao AgFeed.

Pioneira

Com produção diária de até 25 mil metros cúbicos, a usina Cocal, em Narandiba (SP), é, por enquanto, a única fornecedora de biometano para a rede de distribuição da Necta. O projeto pioneiro incluiu a construção de um duto da usina até a rede em Presidente Prudente (SP).

Com 40 quilômetros de redes internas de distribuição, o município de 234 mil habitantes é o primeiro do Brasil 100% abastecido com biometano de cana-de-açúcar. “Já tínhamos dois clientes industriais consumindo 9 mil metros cúbicos e, com a entrada agora na cidade, são três mil clientes contratados e devemos chegar a 12 mil metros cúbicos por dia, ou seja, metade da produção da Cocal”, explicou Moreira.

Na avaliação do executivo, a demanda para completar a oferta total deve vir do abastecimento veicular de caminhões. “A partir de 2026, um dos clientes vai ser um posto de combustível e a gente vai disponibilizar esse biometano para a frota pesada que vem da região central de Mato Grosso, sentido Santos. Esse posto tem potencial para chegar a 10 mil metros cúbicos dia”, projetou o CEO da Necta.

O próximo município “100% verde” será Ribeirão Preto (SP), sede da Necta, cujos clientes da companhia serão abastecidos com biometano a partir de setembro. A usina Santa Cruz, de Américo Brasiliense (SP), do grupo São Martinho, já foi interligada ao gasoduto e fornecerá até 50 mil metros cúbicos de biometano.

“Ribeirão Preto já é um sistema onde você tem uma série de indústrias, clientes comerciais e residenciais ligados na rede, com um consumo de 30 mil a 40 mil metros cúbicos por dia”, relata. No segundo semestre, outra usina do grupo Cocal, em Paraguaçu Paulista (SP), será a terceira fornecedora de biometano para a Necta.

Das três usinas em 2024 para ao menos 11 unidades em até quatro anos, com uma oferta diária de 500 mil metros cúbicos, e até 46 fornecedores com 3 milhões de metros cúbicos diários, se os planos ambiciosos do CEO da Necta se concretizarem.

Mas o que levaria a fornecedora a investir até R$ 60 milhões previstos para trocar o gás natural de petróleo pelo biometano e as usinas de cana a embarcarem no “projeto verde” da distribuidora?

Do lado logístico, a proximidade à rede de distribuição e facilidade de interligação com as usinas ajudam muito. Do lado econômico, o principal em qualquer negócio, são vários fatores: o preço menor, as metas de descarbonização previstas na lei do combustível do futuro e a ação direta da Petrobras são os principais incentivos citados pelo CEO da Necta.

Moreira lembra que o primeiro cliente do biometano são as próprias usinas na substituição do diesel em veículos como caminhões e tratores. O custo em relação ao combustível de petróleo é imbatível. O biometano é produzido entre R$ 1,50 e R$ 1,70 e o diesel é adquirido por entre R$ 5,50 e R$ 6,00 o litro, que corresponde a um metro cúbico.

“Além disso, a usina pode produzir ainda biofertilizantes e gerar CBios do biometano que, comercializados, são uma receita extra para as companhias”, acrescenta.

Do lado da demanda mandatória, a lei do Combustível do Futuro prevê que, a partir de 2026, 1% da matriz do gás natural seja de biometano e que o porcentual avance para até 10%. O prazo e a elevação gradativa porcentual serão regulamentados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Mas foi a chamada pública da Petrobras para a contratação de biometano a partir de 2026 que “gerou um alvoroço” no setor sucroenergético, segundo o CEO da Necta. Pelas regras da estatal, as companhias que quisessem se habilitar como fornecedoras teriam de garantir a conexão à rede caso vencessem o leilão.

“A gente deu uma carta com essa garantia para cada uma das 62 usinas que nos pediram e se habilitaram no leilão, o que corresponderá a uma oferta de quase 1,5 milhão de metros cúbicos caso elas vençam”, afirmou Moreira, lembrando que os investimentos de interligação já são de responsabilidade da distribuidora.

Apesar de a demanda da Petrobras ser de “apenas” 700 mil metros cúbicos por dia, a partir de 2026, a estatal deixou em aberto volumes maiores para os anos seguintes, segundo Moreira, e está em negociação com produtores de biometano para as fases seguintes.

O CEO faz as contas e estima que a Necta poderia triplicar a distribuição de biometano se os projetos das usinas encontrarem as demandas projetadas pelo Combustível do Futuro e pela Petrobras.

“Se a Necta está vendendo hoje quase 800 mil metros cúbicos dia, triplica de tamanho no mesmo período que a gente ligar e produzir esse biometano todo”, avaliou Moreira. “Aliás, se a gente circular esse biometano todo, a Necta ficará 100% verde e vai ser o único distribuidor do planeta 100% renovável”, completou.

O lado negativo do agro

O mesmo agronegócio que gera otimismo e deve ajudar a Necta a crescer no futuro foi um dos setores que frearam os números da companhia em 2024. No ano passado, a companhia reportou queda de 16% na receita ante 2023, para R$ 833,30 milhões, e de 26,3% no lucro líquido, para R$ 78 milhões.

De acordo com Moreira, um dos motivos das quedas no faturamento e do lucro foi “urbano”, com o recuo de até 20% na demanda pelo GNV veicular, fruto do aumento de veículos híbridos e elétricos no transporte de passageiros.

O outro fator foi “rural”, especificamente das grandes companhias processadoras de laranja e produtoras de suco que se localizam na área de distribuição. Elas são clientes da Necta e enfrentaram a menor oferta da fruta desde o século passado.

“A gente tem aqui a LDC, Cutrale e a Citrosuco como grandes clientes que sofreram muito no segundo semestre do ano passado e tiveram uma queda muito abrupta. Mas a recuperação já aconteceu, para sorte nossa o (Donald) Trump ainda os tirou do tarifaço e o setor vai muito bem, obrigado”, concluiu Moreira.

Por: Gustavo Porto | Fonte: AgFeed

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