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Guerra mostrou que transição energética é questão de segurança, diz diretora da COP30

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
28 abril, 2026
em Política e Governo
Tempo de leitura: 6 minutos
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Home Mercado Política e Governo
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Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

Começou na sexta-feira, 24, a primeira Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, na cidade de Santa Marta, na Colômbia. O encontro reune mais de 60 países que pretendem diminuir produção, consumo e dependência do petróleo.

Os debates vão orientar a construção do Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis, documento proposto pela presidência brasileira na 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).

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Antes de embarcar para participar dos debates, a diretora-executiva da COP30, Ana Toni, concedeu entrevista exclusiva à Agência Brasil sobre a conferência e a construção do texto.

Toni destacou que a guerra no Irã e a instabilidade do preço do petróleo evidenciaram os problemas da dependência de combustíveis fósseis e sublinharam a importância da transição energética.

“A gente não tinha ideia que isso ia acontecer, mas acho que o nosso Mapa do Caminho se transformou em uma plataforma para discutir e revisar a segurança energética, econômica e essa dependência global que temos de combustível fóssil”, disse.

O documento está previsto para ficar pronto em novembro, com orientações aos países sobre a transição energética e a redução das emissões de gases do efeito estufa, causadores da mudança climática.

Como será a participação da presidência da COP30 nos debates da Conferência de Santa Marta?
A presidência da COP30 está indo lá muito mais para ouvir do que para falar. A gente espera poder trazer muito do que vai ser o debate em Santa Marta. Queremos escutar o que os países, sociedade civil, grupos indígenas estão demandando, querendo. O nosso Mapa do Caminho já é uma resposta à demanda que a gente ouviu durante a COP30. Então, a gente está trabalhando nele para criar essa plataforma de debate, e a reunião da Colômbia é um desses lugares que também vai debater o tema. A gente fica muito feliz que a Colômbia e os Países Baixos estão fazendo esse evento. E nós vamos participar para ouvir, acertar o nosso Mapa do Caminho, e assegurar que a gente reflita algumas das coisas que vão ser debatidas em Santa Marta.

A conferência será aberta, com ampla participação social. De que forma os debates poderão contribuir para a construção de um Mapa do Caminho para Longe dos Combustíveis Fósseis?
Acho que a decisão para transitar para longe dos combustíveis fósseis já foi tomada na COP28, em Dubai. O nosso Mapa do Caminho e essa conferência vão aprofundar o debate. A partir do que já que foi decidido, precisamos pensar como é que a gente implementa. Quais são os próximos passos? Por onde a gente começa? Qual é a sequência de ações? Então, ouvir da sociedade civil, dos povos indígenas, dos governos que lá estarão, suas ideias sobre os próximos passos, é fundamental. Como [o presidente da COP30] André do Lago tem repetido bastante, para tomar a decisão, você precisa de consenso, mas, para a implementação, você não precisa de consenso. Até porque, para alguns países, vai fazer mais sentido trabalhar pela eletrificação. Em outros, vai ser importante o combustível sustentável. Então, a ideia desses debates é mostrar que tem diversas maneiras de você implementar o que já foi decidido na COP28.

Como a presidência brasileira da COP avalia o interesse de mais de 60 países em participar dessa conferência? São países que têm peso nesse processo de transição para longe dos combustíveis fósseis?
A cada quatro pessoas desse mundo, três vivem em países que importam combustível fóssil. Então, esses 60 países que estarão lá são muito significativos, porque não importa se você é um país produtor ou um país consumidor. Diminuir essa dependência global dos combustíveis fósseis vai depender dos dois lados. Vou dar o exemplo da Etiópia, que é um país consumidor de combustível fóssil e decidiu não mais importar carros a combustão. Isso é importantíssimo. A gente vai ter que olhar a nossa dependência econômica, que não é só energética. No Mapa do Caminho, a gente pediu a contribuição formal de países e não-países. Recebemos mais de 250 contribuições. O que mostra que tem uma demanda muito grande para debater os próximos passos. E na Colômbia, em Santa Marta, vai ser um dos fóruns importantes para atender à essa demanda. É um processo de amadurecimento do que a gente pode fazer concretamente, porque a decisão já foi tomada.

Encerrou dia 10 de abril o prazo para as contribuições ao Mapa do Caminho. Quais os desafios no processo de construção desse documento orientador para o mundo?
Obviamente, é muita informação. E trazer toda essa informação, priorizar o que será recomendado, certamente será o mais difícil, porque vai depender das circunstâncias de cada um dos países. Infelizmente, a guerra contra o Irã, promovida pelos Estados Unidos e Israel, mostra que caminhar para longe dos combustíveis fósseis, dessa dependência que temos, é absolutamente necessário. Não só por questões climáticas, mas por questões econômicas, energéticas e de segurança. A gente não tinha ideia de que isso ia acontecer, mas acho que o nosso Mapa do Caminho se transformou em uma plataforma para discutir e revisar a segurança energética, econômica e essa dependência global que temos de combustível fóssil. Sabemos que não é da noite para o dia que essa dependência vai acabar, mas a gente precisa planejar, porque se não planejar, acontece o que está acontecendo agora, com forte impacto em todo o mundo.

Já há um desenho de como o Mapa do Caminho será estruturado? Os temas serão organizados em capítulos? Quais serão as abordagens?
Já tem, sim. Temos uma ideia do que a gente quer, óbvio, mas vai depender de a gente ouvir todo mundo para ver se mantém essa estrutura. Então, partindo da divisão por capítulos, o primeiro vai ser um capítulo que olhe para os riscos da não transição. Vai tratar de todos os riscos possíveis, os climáticos, os naturais, o político, o de segurança e tudo o que nós temos. Vai ter um segundo capítulo que olha essa transição da perspectiva dos produtores de combustíveis fósseis, tanto países como empresas. Esse segundo capítulo traz ainda a perspectiva dos consumidores. Os diversos setores, como elétrico, de transporte, indústria. O que essa dependência significa e o que eles podem fazer para aproveitar as oportunidades que têm e andar mais rápido no processo de transição. Uma terceira parte trata sobre a dependência econômica. A gente quer mostrar que as circunstâncias para cada um dos países, em relação a essa dependência econômica, são muito diferentes. E mostrar também para governos subnacionais, por exemplo, prefeituras, que tem um problema econômico e não só energético nessa dependência. No último capítulo, vão estar as recomendações nossas para o mundo, não só para a COP31.

A partir do que já foi debatido até aqui, é possível pensar essa transição justa e planejada, com esse olhar global, e aplicando de forma local?
Essa transição já começou, já está acontecendo. Mas o que vem acontecendo no mundo são dois pés acelerando: um, no acelerador de renováveis, armazenamento e eficiência, mas o outro, no acelerador de combustível fóssil. O que a gente quer fazer agora é tirar o pé do acelerador de combustível fóssil. Isso já começou. Eu não tenho nenhuma dúvida que essa mudança tem que ser justa, porque, se não, ela não vai acontecer. Eu acho que a gente tem uma oportunidade única de continuar debatendo esse tema. Vai ter aí COP31, COP32, vai ter o segundo Balanço Global, para que a gente amadureça o que está funcionando. Para a gente chegar nesse novo Balanço Global muito mais capazes de falar o que deve e pode ser acelerado daqui para frente. Então, eu estou otimista e, como eu falei, o mais importante é que a gente continue debatendo esse tema politicamente, para tomar as decisões certas.

Por: Fabíola Sinimbú | Fonte: Agência Brasil

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