Por: Felipe Prata

No último domingo, 23 de agosto de 2026, o sistema elétrico brasileiro enfrentou pela segunda vez no ano a necessidade de reduzir a geração para preservar o equilíbrio da rede. Entre 11h e 13h30, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou o desligamento de usinas em duas etapas: primeiro, grandes parques eólicos e solares sob despacho direto; depois, usinas menores conectadas às distribuidoras, como PCHs, biomassa e parques eólicos e solares de menor porte.
O motivo foi claro: havia geração acima da capacidade de absorção do sistema, resultado da combinação entre baixa demanda típica de domingos e a elevada produção da geração solar distribuída. Como o ONS não controla diretamente o despacho dessas instalações, outros recursos precisaram ser acionados para manter o equilíbrio.
Se no primeiro episódio, em junho, o debate girou em torno do desperdício energético dos nossos canaviais, este segundo corte traz uma preocupação adicional: a insegurança regulatória. A ausência de critérios transparentes para os cortes gera insegurança jurídica e prejuízos financeiros para os geradores. A Abradee já alertou que sem regras claras, o setor pode enfrentar um ambiente de instabilidade que desestimula investimentos.
Para o setor sucroenergético, o risco é ainda mais profundo. Diferente de fontes intermitentes como solar e eólica, a biomassa de cana não é apenas energia: é parte vital do processo industrial. Cortes de geração podem comprometer a moagem da cana, a produção de açúcar e etanol e a estabilidade operacional das usinas.
O episódio de agosto também expõe um paradoxo: enquanto o Brasil discute soluções caras e importadas para armazenamento, como baterias de lítio, corta energia limpa e previsível gerada a partir da biomassa. O ONS já anunciou o Esquema Regional de Alívio de Geração (Erag), que poderá cortar até 3 GW de geração distribuída em situações críticas. Mas sem uma regulação clara e sem mecanismos de remuneração pelos atributos da bioeletricidade, o risco é penalizar quem gera energia firme e sustentável.
Mais do que um ajuste operacional, o curtailment recorrente é um sinal de alerta. O Brasil precisa avançar em soluções estruturais:
Modernização da transmissão para absorver a geração renovável.
Mecanismos de armazenamento que deem flexibilidade ao sistema.

Contratação de serviços ancilares que reconheçam o papel da bioeletricidade.
Valorização regulatória dos atributos da biomassa de cana.
Se o primeiro corte já foi um desperdício, o segundo revela um problema de governança. O setor sucroenergético não pode ser tratado como fonte secundária. Ele é estratégico para a segurança energética nacional.
Felipe Prata acumula mais de 23 anos de experiência no setor de energia, com atuação estratégica em projetos de geração, cogeração e distribuição. Sua trajetória inclui contribuições relevantes nos segmentos sucroenergético, de biocombustíveis e de bioenergia.
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