Avanço de pesquisas em biorrefinarias coloca resíduos da cana e de outras cadeias agrícolas no centro da nova economia de baixo carbono

Avanço de pesquisas em biorrefinarias coloca resíduos da cana e de outras cadeias agrícolas no centro da nova economia de baixo carbono
Aquilo que durante décadas foi tratado apenas como sobra da produção agrícola começa a ganhar um novo significado para a indústria brasileira — e pode representar uma oportunidade importante para Alagoas.
Pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Nacional de Tecnologia (INT), ligado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), estão avançando no desenvolvimento de tecnologias capazes de transformar resíduos agroindustriais em combustíveis renováveis, matérias-primas industriais, bioprodutos e materiais de maior valor agregado.
Entre as matérias-primas estudadas estão bagaço e palha de cana-de-açúcar, casca de laranja, caroços de manga e açaí, além de resíduos de mandioca, sisal e palma. O conceito está relacionado às chamadas biorrefinarias, estruturas que procuram aproveitar diferentes componentes de uma biomassa para produzir vários produtos, reduzindo desperdícios e aumentando o valor econômico da matéria-prima.
Para Alagoas, a discussão tem um peso ainda maior.
O estado possui uma das cadeias sucroenergéticas mais tradicionais do Nordeste e conta com uma grande oferta de biomassa proveniente da produção de cana. Ao mesmo tempo, o território alagoano já abriga um empreendimento de grande porte voltado justamente à transformação de resíduos em combustíveis de baixo carbono.
O que hoje é resíduo pode virar combustível
De acordo com o INT, o bagaço e a palha da cana possuem componentes como celulose, hemicelulose e lignina. A partir desses materiais, pesquisadores desenvolveram rotas tecnológicas capazes de gerar moléculas utilizadas pelas indústrias química, alimentícia e farmacêutica, além de alternativas para produção de biocombustíveis.
Um dos exemplos é o SAF, combustível sustentável de aviação, considerado estratégico para a redução das emissões do setor aéreo.
Outros resíduos também podem ser aproveitados. A casca de laranja, por exemplo, possui compostos que podem ser utilizados em rotas para produção de combustíveis e outros produtos. Já resíduos ricos em amido, como o caroço de manga, podem gerar moléculas com aplicações industriais.
O objetivo não é simplesmente produzir energia.
A proposta é aproveitar o máximo possível de cada matéria-prima e criar uma cadeia de produtos que possa incluir combustíveis, produtos químicos, alimentos, materiais biodegradáveis e insumos industriais.
É justamente essa mudança que torna o conceito de biorrefinaria estratégico para regiões com forte atividade agroindustrial.
Alagoas já está dentro dessa transformação
Enquanto pesquisadores desenvolvem novas rotas tecnológicas, Alagoas já possui um projeto industrial que coloca o estado no mapa nacional da bioeconomia.
Em janeiro de 2025, foi inaugurado em São Miguel dos Campos o Complexo de Biorrefinarias Integradas de Biocombustíveis Sustentáveis Avançados, conhecido como Exygen I.
O empreendimento recebeu investimento anunciado de R$ 1,5 bilhão e foi apresentado pelo Governo Federal como uma iniciativa voltada à produção de combustíveis de baixo carbono.
A unidade utiliza resíduos da cadeia da cana como matéria-prima e tem previsão de produção de etanol de segunda geração e biometano, entre outros produtos associados ao aproveitamento da biomassa.
Segundo informações divulgadas na época do lançamento, o complexo foi projetado para produzir até 160 milhões de litros de etanol por ano e 50 milhões de metros cúbicos de biometano, utilizando resíduos da indústria sucroenergética.
O projeto coloca São Miguel dos Campos — e, por consequência, Alagoas — em uma posição estratégica dentro da discussão nacional sobre combustíveis renováveis.
Uma oportunidade que vai além do etanol
A importância desse movimento para o estado está justamente na possibilidade de diversificação.
A indústria alagoana já conhece a produção de açúcar, etanol e energia a partir da cana. A próxima etapa pode ser utilizar a mesma matéria-prima para gerar produtos com maior valor agregado.
Na prática, isso significa que uma tonelada de cana pode deixar de ser vista apenas como fonte de açúcar ou etanol e passar a alimentar diferentes processos industriais.
O bagaço pode ser utilizado energeticamente ou como matéria-prima para novas rotas químicas. A palha pode ganhar novas aplicações. Resíduos líquidos, como a vinhaça, podem ser direcionados para produção de biogás e biometano.
É a lógica da economia circular: extrair mais valor de uma matéria-prima e reduzir a quantidade de resíduos que precisam ser descartados.
O próprio INT trabalha com essa visão ao desenvolver tecnologias capazes de transformar diferentes biomassas em produtos de maior valor comercial. O instituto informa que algumas dessas soluções já resultaram em patentes e projetos de inovação realizados em parceria com empresas.
Safra de cana reforça potencial alagoano
O potencial de Alagoas fica mais evidente quando observado o tamanho da atividade canavieira.
Na safra 2025/2026, o estado ultrapassou 17,6 milhões de toneladas de cana processadas, segundo dados divulgados pelo setor sucroenergético alagoano. O volume já havia superado a moagem final do ciclo anterior.
A produção de etanol também apresentou crescimento durante a temporada. Dados divulgados em abril de 2026 apontaram aumento acumulado de 16,8% na produção de etanol em Alagoas na safra 2025/2026.
Isso significa que existe no estado não apenas uma cadeia agrícola consolidada, mas também uma quantidade expressiva de matéria-prima residual que pode alimentar novas tecnologias.
No cenário nacional, a Conab estima para a safra 2026/2027 uma produção brasileira de 705,2 milhões de toneladas de cana-de-açúcar, alta de 4,7% em relação ao ciclo anterior. A produção de etanol de cana é projetada em quase 30 bilhões de litros.
Para estados produtores, esse crescimento também amplia a discussão sobre o destino e o aproveitamento dos resíduos.
Impacto pode chegar ao emprego e à indústria
A transformação de resíduos em produtos industriais pode gerar efeitos que vão muito além da área ambiental.
A instalação de novas plantas industriais demanda profissionais especializados, logística, manutenção, serviços, pesquisa, engenharia e fornecedores.
Também existe potencial para aproximar empresas das universidades e centros de pesquisa, criando um ambiente de inovação em torno da agroindústria.
No caso de Alagoas, a concentração da atividade sucroenergética pode facilitar a criação de cadeias complementares, especialmente se novos investimentos forem direcionados para tecnologias capazes de utilizar resíduos que já estão disponíveis no estado.
Outro possível efeito é a interiorização da atividade econômica.
Projetos desse tipo não precisam necessariamente estar concentrados na capital. A existência de matéria-prima no interior cria condições para que unidades industriais e novos negócios sejam instalados próximos às áreas produtoras, reduzindo custos logísticos e aumentando a circulação de recursos nos municípios.
São Miguel dos Campos ganha protagonismo
A experiência de São Miguel dos Campos é um dos principais exemplos dessa transformação em Alagoas.
A inauguração do complexo de biorrefinarias reuniu autoridades federais e estaduais e foi apresentada pelo Governo Federal como um marco para a transição energética.
O Ministério dos Transportes destacou, durante a inauguração, o papel do empreendimento na busca por soluções de baixo carbono para o setor de transportes.
Já a Prefeitura de São Miguel dos Campos classificou a chegada do complexo como um marco para o município, destacando a possibilidade de geração de empregos, renda e atração de novas atividades ligadas à inovação e à sustentabilidade.
A repercussão mostra que a questão deixou de ser apenas uma discussão sobre tecnologia.
Existe agora uma disputa por espaço em uma nova cadeia econômica que envolve energia, indústria, agricultura, ciência, logística e sustentabilidade.
Alagoas pode aproveitar uma vantagem competitiva
O estado reúne alguns dos elementos necessários para avançar nesse mercado: produção agrícola, indústria sucroenergética, disponibilidade de resíduos, infraestrutura já instalada e um projeto de biorrefinaria de grande porte.
Mas transformar potencial em resultado econômico exige mais do que matéria-prima.
Será necessário ampliar investimentos em pesquisa, qualificação profissional, infraestrutura, logística e inovação. Também será importante aproximar produtores, usinas, universidades, centros de pesquisa e investidores.
O desafio é fazer com que a tecnologia desenvolvida nos laboratórios consiga chegar à escala industrial e gerar produtos competitivos.
Essa é uma das questões centrais das pesquisas desenvolvidas pelo INT. Nem toda tecnologia que funciona em laboratório está automaticamente pronta para uma operação comercial. Existem etapas de testes, escalonamento, avaliação econômica e adaptação industrial antes da produção em larga escala.
Uma nova fase para a agroindústria
A transformação dos resíduos agroindustriais pode representar uma mudança de paradigma.
Em vez de uma cadeia baseada apenas na produção de alimentos e combustíveis tradicionais, a agroindústria pode se tornar uma plataforma para fabricação de uma série de produtos.
Para Alagoas, isso significa uma oportunidade de agregar tecnologia à tradição canavieira, ampliar a geração de riqueza e reduzir a dependência de produtos de maior valor tecnológico fabricados fora do estado.
O movimento também acompanha uma transformação global na busca por fontes renováveis e por alternativas aos produtos derivados do petróleo.
Nesse cenário, o resíduo deixa de ser apenas o fim da cadeia produtiva.
Ele passa a ser o começo de uma nova cadeia.
E Alagoas, pela força de sua agroindústria e pelos investimentos já anunciados em biorrefinarias, tem condições de participar de forma relevante dessa transformação.
Fonte: Alagoas Alerta
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