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Caroço do açaí vira de utensílios domésticos a biocombustíveis

Maria Reis por Maria Reis
27 agosto, 2025
em Biocombustíveis
Tempo de leitura: 6 minutos
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Home Bioenergia Biocombustíveis
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Caroço de açaí é usado para a fabricação de produtos sustentáveis | Foto: Pablo Porciuncula

Além de ser consumido como alimento, de diversas formas, em todo o Brasil e no exterior, o açaí vem ganhando novos usos, que fortalecem a bioeconomia e ajudam a preservar o meio ambiente.

O caroço do fruto, que geralmente é descartado sem nenhuma utilidade, agora é usado para a fabricação de produtos sustentáveis em um projeto da Fecaf (Federação das Cooperativas da Agricultura Familiar do Estado do Pará) em parceria com a empresa SP Ecologia, e pode ser transformado em óleos, combustíveis, carvão e asfalto, segundo pesquisa desenvolvida pela UFPA (Universidade Federal do Pará), em parceria com outras instituições.

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“Nós extraímos a fibra do caroço do açaí e enviamos para a empresa SP Ecologia, de São Paulo, que usa esse material para a confecção de produtos como copos, tigelas, canecas e colheres”, diz, em entrevista a Ecoa, o presidente da Fecaf, César Marinho.

O gerente de desenvolvimento da SP Ecologia, Marcelo Dias, explica que “as fibras são misturadas com plástico”. “Além de retirar o resíduo do meio ambiente, a gente diminui em 40% o uso do plástico. É um material muito sustentável”, avalia. “A gente vai lançar a escova de dente de açaí, tanto a de viagem quanto a do dia a dia.”

A SP Ecologia trabalha há 17 anos com foco na economia circular, fabricando brindes ecológicos para o mercado corporativo. “Há 8 anos, iniciamos a mistura do plástico com fibras naturais, inicialmente de coco e de madeira. Hoje usamos também arroz, bambu e, recentemente, fizemos testes com café e com cacau.”

A fabricação de produtos à base da fibra do caroço do açaí é recente. A parceria com a Fecaf que começou no final do ano passado. “Mas eu tenho certeza de que é um negócio que vai crescer bastante e bem rápido, principalmente por causa da COP30, em Belém. A Fecaf vai apresentar nossos produtos durante o evento”, completa Dias.

Além dos produtos finais, a SP Ecologia também comercializa o que o gerente chama de “granulado”, que é a mistura das fibras com o plástico. “As empresas podem injetar essa matéria-prima nos moldes delas para fazer os próprios produtos.”

Do fruto à fibra

A coleta dos caroços, nos pontos de venda de açaí em Belém e na região metropolitana é feita por mulheres em situação de vulnerabilidade, que encontraram no projeto uma fonte de renda. O processo de extração da fibra é realizado por uma máquina desfibradora que foi desenvolvida pela Fecaf em parceria com a Ufra (Universidade Federal Rural da Amazônia).

“É uma máquina cilíndrica, como um liquidificador, com um processo de lixamento giratório, que vai extraindo as fibras”, explica Marinho.

“Nós fabricamos a desfibradora e distribuímos para as comunidades nos bairros. A demanda pelo equipamento é grande. Então estamos buscando novos parceiros para aumentar a produção.” César Marinho, presidente da Fecaf

Além do benefício econômico e social, o projeto propõe uma solução para o problema ambiental do descarte irregular do caroço do açaí. “Os batedores [aqueles que processam e vendem o fruto] jogam esse resíduo, que é a semente depois de batida, no meio da rua. Se você andar por Belém, principalmente nas regiões periféricas, você vai encontrar muitos caroços de açaí espalhados por todos os lugares. É um produto orgânico, que fermenta, cria chorume. Os animais fazem as necessidades ali, e isso contamina o meio ambiente”, explica Marinho.

O professor Nélio Teixeira Machado, coordenador de um projeto de aproveitamento do caroço do açaí na UFPA, explica que 85% do produto do processamento do fruto é de resíduos. “Ou seja, se você processa 1.000 kg de açaí, você vai gerar 850 kg de resíduos.”

Então, para ele, além de valorizar um produto sustentável, os projetos que usam o caroço do açaí contribuem “com a questão do descarte irregular, principalmente em Belém e na região metropolitana”.

Combustíveis sustentáveis

Na UFPA, em Belém, o projeto Sustenbio Energy desenvolveu produtos, como biocombustíveis, biocarvão e bioasfalto, usando os caroços do açaí e de outro fruto amazônico, o tucumã.

“Nós iniciamos a pesquisa em 2015, com a orientação da tese de doutorado do professor Douglas Alberto Rocha de Castro, da Universidade Federal do Amazonas, com foco na transformação e valorização de resíduos da cadeia do açaí para a produção de biocombustíveis líquidos, biocarvão e bioasfalto”, explica, em entrevista a Ecoa, o professor Nélio Teixeira Machado, do Programa de Doutorado em Engenharia de Recursos Naturais da Amazônia da UFPA, um dos coordenadores do projeto.

As pesquisa e experimentos são desenvolvidos no Laboratório de Transformação e Valorização de Resíduos Agroindustriais: Nanocatalisadores, SAF (Sustainable Aviation Fuel) e Hidrogênio Verde, na UFPA, que foi inaugurado no último mês de dezembro. O financiamento do projeto é do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa).

“Podemos, de forma lenta e gradual, substituir os combustíveis fósseis, nesse caso, o petróleo, por combustíveis líquidos produzidos a partir de biomassa residual”, afirma Machado.

“Nós podemos fabricar todos os produtos da cadeia petroquímica de uma maneira verde e renovável” Nélio Teixeira Machado, professor em Engenharia de Recursos Naturais da Amazônia

O potencial de uso do caroço do açaí no Pará é imenso. Segundo Machado, o estado é responsável por 98% da produção nacional do fruto, “que, no ano de 2023, foi de 1.750.000 toneladas”.

O professor ressalta que os produtos fabricados a partir do caroço do açaí também demonstraram muita qualidade para o seu uso. “O biogás tem alto poder calorífico, que pode ser utilizado, por exemplo, na geração de energia em turbinas. O bio-óleo é rico em hidrocarbonetos, que podem, após destilação, ser transformados em combustíveis verdes, na forma de gasolina, querosene, diesel leve e diesel pesado”, explica.

Ele afirma ainda que há “um produto de fundo, que é o resíduo do resíduo, que nós chamamos de bioasfalto ligante”. “Ele pode substituir o piche na produção de recap, que é o concreto asfáltico de petróleo.”

O projeto é multidisciplinar, envolvendo diferentes faculdades, e multi-institucional, com participação, além da UFPA, da Ufra (Universidade Federal Rural da Amazônia), da Unifesspa (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará), da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), da UEA (Universidade do Estado do Amazonas), da UFPE (Universidade Federal de Pernambuco) e do IME (Instituto Militar de Engenharia).

“Atualmente buscamos um investidor que possa apoiar essa empreitada acadêmico-científica de forma que nós possamos produzir um portfólio, mostrando as vantagens do processo de transformação termoquímica desses resíduos”, finaliza Machado.

Por: Augusto Pinheiro | Fonte: UOL

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