Em palestra no Seminário da Indústria 2026, Lucas Rodrigues, da UNICA, apontou maior produtividade, avanço do etanol de milho e pressão sobre preços como fatores centrais para a safra 2026/2027
O Centro-Sul fechou a safra 2025/2026 com 611,15 milhões de toneladas de cana-de-açúcar processadas, e o etanol ganha peso no planejamento das usinas diante de um novo ciclo marcado por maior produtividade, avanço do milho e pressão sobre preços, segundo avaliação apresentada por Lucas Rodrigues, especialista em Economia e Dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), durante o Seminário da Indústria 2026, promovido pelo CEISE Br.
Na apresentação, Rodrigues destacou que o ciclo 2025/2026 registrou produção próxima de 40 milhões de toneladas de açúcar e 34 bilhões de litros de etanol. Dados da UNICA confirmam que a região produziu 40,43 milhões de toneladas de açúcar e 33,72 bilhões de litros de etanol, resultado que manteve o Centro-Sul entre os maiores patamares históricos do setor.
Para a safra 2026/2027, o especialista apontou um cenário com expectativa de maior área e produtividade, mas também com incertezas relevantes para a tomada de decisão das usinas. Entre os fatores citados estão clima, petróleo, política de combustíveis, preços de açúcar e etanol e o avanço de novas fontes de oferta.
Rodrigues afirmou que o regime de chuvas mais favorável tende a beneficiar a produtividade agrícola da cana-de-açúcar. Por outro lado, ele ponderou que esse movimento pode vir acompanhado de menor qualidade da matéria-prima, medida pelo ATR, sigla para Açúcar Total Recuperável. Mesmo assim, a produtividade maior ajuda a diluir custos fixos e pode reduzir o custo de produção de açúcar e etanol.
Etanol de milho amplia oferta e muda lógica do mix
O etanol de milho foi um dos pontos centrais da análise. Na safra 2025/2026, a produção a partir do cereal chegou a 9,19 bilhões de litros, alta de 12,26%, e passou a representar 27,28% do biocombustível produzido no Centro-Sul, segundo a UNICA.
De acordo com Rodrigues, a participação do etanol de milho deve superar 30% na safra 2026/2027, ampliando a oferta do biocombustível no mercado brasileiro. Esse crescimento muda a dinâmica do setor porque as unidades de milho são autônomas, ou seja, produzem etanol e não têm a alternativa de redirecionar matéria-prima para açúcar.
O especialista também lembrou que, no setor canavieiro, cerca de 20% das usinas não produzem açúcar. Com isso, aproximadamente 40% da produção nacional de etanol já é considerada fixa, sem mobilidade entre açúcar e biocombustível. Para Rodrigues, essa característica traz um efeito positivo do ponto de vista da segurança de abastecimento, mas reduz a flexibilidade industrial em momentos de mudança de preço.
No mercado de açúcar, a leitura apresentada foi de pressão nos preços internacionais, com o mercado antecipando superávit global. Já o etanol, apesar de ter mostrado recuperação, ainda deve operar abaixo dos valores observados na safra anterior. Para a tomada de decisão das usinas, a comparação precisa ser feita na mesma base de remuneração da matéria-prima, considerando açúcar e etanol em reais por quilo de ATR.
Maior oferta pode exigir queda de preço
Na abertura da safra, segundo Rodrigues, o etanol apareceu pagando ligeiramente mais do que o açúcar em média para o estado de São Paulo, embora essa relação varie conforme região, logística e posição comercial de cada unidade. A avaliação reforça a possibilidade de maior direcionamento da cana para o biocombustível no curto prazo.
O avanço da produção, porém, traz um desafio de demanda. Na safra passada, o etanol hidratado representou 23,3% do consumo de combustíveis leves, dentro do chamado ciclo Otto, que reúne motores usados principalmente em veículos leves flex e a gasolina. Com mais cana destinada ao etanol e expansão do milho, Rodrigues indicou que a oferta adicional pode chegar a cerca de 4 bilhões de litros.
Como combustível tem demanda pouco elástica, o especialista avaliou que a absorção desse volume deve exigir preços mais competitivos na bomba. Na prática, isso significa que a paridade do etanol em relação à gasolina precisa cair para estimular maior consumo e evitar desequilíbrio entre produção e mercado.
Outro ponto de atenção é a política de combustíveis. Rodrigues citou a incerteza gerada por medidas de desoneração da gasolina. Em maio, a Medida Provisória 1.358/2026 estabeleceu subvenção para gasolina e diesel, com objetivo de aliviar a alta de preços provocada pelo conflito no Oriente Médio; no caso da gasolina, o teto informado foi equivalente a R$ 0,89 por litro de tributos federais.
Setor sucroenergético reforça papel como produtor de energia
Na segunda parte da apresentação, Rodrigues afirmou que o setor sucroenergético já é essencialmente um negócio de energia. Ao converter açúcar, etanol e bioeletricidade para uma mesma base energética, ele destacou que a parcela correspondente ao etanol cresce, em média, 8,5% ao ano desde 1975, enquanto a do açúcar avança 4% ao ano.
A análise também amplia o papel do agronegócio na matriz energética nacional. Segundo Rodrigues, com base em estudo da Fundação Getulio Vargas a partir do Balanço Energético Nacional, cerca de 30% de toda a energia brasileira vem do agro. Quando observado apenas o universo das fontes renováveis, a participação do agronegócio chega a aproximadamente 60%.
No recorte da cana-de-açúcar, a biomassa do setor responde por quase 17% de toda a energia consumida no Brasil, patamar superior à média mundial de renováveis, citada na apresentação em 14%, e à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 13%.
Para usinas, fornecedores e indústrias da cadeia, a mensagem é que o etanol deve ganhar espaço não apenas como combustível, mas como parte de um portfólio mais amplo de bioenergia. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta que a participação dos biocombustíveis no ciclo Otto pode chegar a 55% em 2035 no cenário médio e a 60% no cenário alto, reforçando o efeito da regulação e da transição energética sobre a demanda futura.
O cenário abre oportunidades, mas também exige gestão mais precisa de custos, mix de produção, logística e mercado. Para Rodrigues, a safra 2026/2027 começa com fundamentos favoráveis para maior oferta de etanol, mas a captura de valor dependerá da capacidade do setor de transformar produtividade, escala e competitividade em margem para as usinas e segurança energética para o país.
Por: Maria Reis | Fonte: Portal Visão Agro
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