
Por: Arlélio Leite dos Santos
Em 1974, meu pai saiu de uma reunião convicto de que o Brasil tinha finalmente decolado. Naquele momento o preço da soja estava nas alturas, o câmbio
favorecia, o mundo precisava de comida e nós tínhamos terra sobrando (e muito menos restrições que hoje). Seis anos depois (1980), o país estava numa crise de dívida que levou uma geração inteira para superar. Em 1974 ciclo tinha chegado. O valor (capturado), infelizmente não.
Ja como Economista de grandes organizações vi a mesma cena em 2007. E tenho a impressão (espero errada) que estou vendo de novo agora.
Não vou chamar isso de superciclo. Há economistas sérios — e dados reais de campo deste mês — que me diriam que o produtor de soja brasileiro está
com margem próxima de zero enquanto colhe a maior safra da história. Isso não é superciclo. É o Brasil sendo pela enésima vez competente em produzir e lento em capturar seu valor.
O que existe em 2026 é apenas uma janela. Não uma garantia tipo “ativo fixo real por 1/3 do valor de mercado”.
Com o câmbio real 15% abaixo da média histórica de dez anos, com Ormuz bloqueado a quase vinte dias e com o custo de capital dos EUA ainda pressionado, o produtor que já travou preço de venda e custo de insumo está num momento raro de ganho duplo. Vende caro. Converte caro. Está com os dois ventos a favor.
Mas aqui está o ponto que ninguém quer dizer em voz alta na reunião de Conselho: esse vento já está mudando de direção. Em janeiro deste ano, o real apreciou muito (surgiu ate a tese “Dolar a R$ 4,50” que ja analisei) e compradores de soja migraram temporariamente para os americanos. O FED (Banco Central Americano) não precisou fazer nada. O mercado se moveu sozinho, por conta e risco próprio.
A janela não dura 18 meses. Dura enquanto durar. E o produtor disciplinado age como se tivesse 12 meses ou menos.
Tem outra coisa que me incomoda muito nessa conversa. Quando falo com gestores no interior sobre os Termos de Troca positivos, a maioria concorda, acena e não faz nada. Porque “esperar para ver” parece prudência. Não é. Com Selic a 14,75%, cada mês de inação consome 1,23% do capital parado em análise. Dezoito meses assim custam 22%. A prudência tem um preço aritmético que ninguém coloca na ata.
A China também mudou. O comprador de 2003 era previsível, faminto e sem alternativa. O de 2026 tem política industrial, tem estoques administrados, tem cotas sobre carne brasileira, US$ 1 trilhão de superavit anual além da paciência de quem sabe que o vendedor precisa mais do que ele. Quem projeta o ciclo atual com o mapa de 2007 vai errar, vai mais uma vez desviar a destinação do valor.
Três tarefas para o Conselho — não sugestões, tarefas:
Travar fertilizante agora, antes que a janela de contrato longo feche. Fornecedores europeus já invocaram força maior. O precedente existe. Quem não agir em 60 dias não está sendo cuidadoso. Está aceitando o preço de quem chegou atrasado.
Emitir CRA ou CRI indexado ao IPCA antes que o real aprecie mais. Garantir custo de capital hoje vale mais do que qualquer prêmio de espera.
Montar o hedge cambial exportador para os próximos 12 meses. Não quando o FED decidir baixar juros. Agora. Porque janeiro já mostrou que o FED não precisa decidir nada para o real se mover.
No fim, não vai ser o tamanho da safra que vai definir quem saiu na frente neste ciclo. Vai ser a qualidade da decisão que o Conselho tomou — ou não tomou — nas próximas 8 semanas.
O Brasil já exportou valor demais para terceiros por excesso de confiança ou falta de conhecimento de onde esta no no próprio ciclo. Desta vez, a obrigação é outra: reter o que o mundo está disposto a pagar.
Minha análise foi produzida com base em dados públicos até março/2026 e no meu modelo/sistema que chamo MHEBI. As estimativas são sempre condicionais — confirme seus dados com sua operação antes de decidir.
Crédito: Prof. Arlélio Santos, Sócio-Fundador, Vice-Presidente e Líder Acadêmico da Associação Brasileira de Manutenção e Gestão de Ativos do Agronegócio (ABRAMAGRO).
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