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“Se a Petrobras quisesse mesmo comprar a refinaria, já teria feito isso”, diz CEO da Acelen

Redação Visão Agro por Redação Visão Agro
1 setembro, 2026
em Mercado
Tempo de leitura: 12 minutos
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Home Mercado
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Luiz de Mendonça comenta possibilidade de volta da estatal ao refino de petróleo na Bahia, política de preços dos combustíveis e investimentos em biocombustíveis

Luiz de Mendonça, CEO da Acelen Crédito: Divulgação Acelen

“Qualquer artificialismo pode colocar em risco o negócio e até o abastecimento do país”. A frase do CEO da Acelen, Luiz de Mendonça, resume a visão da companhia sobre a política de preços dos combustíveis no Brasil.

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Petróleo, gasolina e diesel são commodities globais e o país não pode se desconectar dos preços internacionais sob o risco de comprometer o abastecimento, adverte. Mesmo com a adesão da Acelen ao programa que concede subsídio de R$ 0,40 por litro de gasolina, Mendonça diz que a política comercial da companhia não mudou.

Nesta entrevista exclusiva, ele também fala sobre os rumores de uma possível volta da Petrobras à Refinaria de Mataripe, diz que a decisão cabe aos acionistas e sustenta que, se a estatal realmente quisesse comprar uma participação, “já teria feito isso”.

Ao mesmo tempo, apresenta a estratégia que pretende transformar a Acelen em uma empresa de energia cada vez menos dependente do petróleo, com investimentos em biocombustíveis e em novas tecnologias. “A Acelen é uma empresa de energia que entrou pelo refino no mercado”, afirma.

Luiz de Mendonça acumula mais de 30 anos de experiência internacional na América Latina, nos Estados Unidos, na França e na China. Em sua carreira, atuou como líder e membro do conselho de administração de multinacionais do setor químico, petroquímico, de biocombustíveis e de energia, como Rhodia-Solvay, Braskem, Atvos e Acelen.

Ele ainda possui experiência no desenvolvimento de negócios, liderança de estratégias internacionais, projetos de inovação e tecnologia, fusões e aquisições e integração corporativa. Mendonça é formado em engenharia de produção pela Poli-USP e possui MBA pelo Insead-França.

Na semana passada, a Acelen aderiu ao programa que oferece uma subvenção de R$ 0,40 no preço da gasolina para os consumidores baianos, algo que já estava disponível em estados atendidos pela Petrobras há algum tempo. Qual é o caminho para acabar com esse descompasso que a gente tem aqui na Bahia?
Eu acho que o descompasso existe na maneira como o Brasil trata a sua política geral de combustíveis. O mercado de combustível, de petróleo, é mundial. O Brasil não pode estar desconectado, sob o risco de não ser abastecido. Então, quando a gente pensa no que está acontecendo na Ucrânia e no Estreito de Ormuz, fica claro que é um fenômeno mundial. Se o preço da gasolina ou do diesel subir no mundo inteiro e o Brasil não acompanhar, os fluxos vão para outros países e o Brasil não vai não vai ser capaz de se abastecer. A Acelen sempre, desde o começo, atualizou os seus preços com uma regularidade semanal. A gente compra petróleo a preços internacionais, a gente tem a política de alinhar os nossos preços com os preços globais. Isto não mudou. O que mudou agora? O governo decidiu criar alguns subsídios; acho que até tinha outros caminhos para reduzir o impacto da alta de preços. Imediatamente, a gente aderiu aos programas e isso permitiu temporariamente reduzir os preços que praticamos. Mas lembrando que o preço que a refinaria vende não necessariamente é o que o consumidor encontra na ponta. Aí, entra o segmento de distribuição, onde a gente não está envolvido. Então, a gente continua praticando exatamente a mesma política, o nosso negócio é global, não tem como escapar disso. Qualquer artificialismo pode colocar em risco o negócio e até o abastecimento do país. Isso não mudou e não vai mudar. Não existe mercado mais global do que o de petróleo, gasolina, diesel, combustível para navio e querosene de aviação. Agir de maneira diferente seria irresponsável da nossa parte.

Existe uma frase que diz que a energia mais cara é aquela que você não tem. Essas distorções no mercado brasileiro colocam o país em algum tipo de risco de desabastecimento?
Eu acho que o país sempre se resolve porque percebe quando alguma ação não está funcionando e corrige. Trazendo a reflexão para o nosso caso, a Bahia seria o último estado em que faltaria gasolina ou diesel porque estamos operando muito próximos do máximo de capacidade. A gente já aumentou a capacidade da refinaria. Desde que a gente assumiu, passamos a produzir o dobro de querosene de aviação do que a refinaria produzia antes. Já aumentamos a capacidade da planta de diesel em quatro vezes. Nesse momento, eu estou com capacidade aumentada e estou aguardando há dois meses a autorização da ANP [Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis] para operar na nova capacidade. Estamos inclusive colocando para a ANP a urgência do momento, fornecemos todos os documentos que eles pediram e eles vieram fazer uma visita técnica. Então, já tenho uma capacidade adicional de diesel instalada. Ao todo, foram mais de R$ 4 bilhões de investimento desde que a gente assumiu, só na refinaria. E, olhando para a frente, acho que a necessidade crescente de energia, seja por causa das questões de inteligência artificial, seja pela restrição de fluxos mundiais, a gente vai continuar investindo tanto no fóssil como na energia renovável. Já temos uma planta solar que abastece de eletricidade a refinaria, que está operando desde o final de 2024. E agora iniciamos as obras da nova biorrefinaria.

Volta e meia surgem notícias sobre a possibilidade de a Petrobras voltar a ter participação em Mataripe e até de entrar com vocês no projeto de energias renováveis. Como você enxerga a chance de ter uma empresa como a Petrobras como sócia ou parceira? De que maneira ela contribuiria com a Acelen?
Eu acho que essa é uma pergunta para o acionista. O foco das nossas equipes é continuar progredindo, como a gente sempre fez. Nós temos filosofias muito diferentes de como gerir uma empresa de refino. Acho que também precisamos tomar cuidado com anúncios bombásticos feitos em determinados momentos. Eu já ouvi essa história desde o começo da nossa operação. O meu palpite é que se a Petrobras quisesse mesmo comprar, ela já teria feito isso. Então, eu sigo focado, minha equipe está focada em continuar crescendo, em continuar investindo na refinaria e tornando ela cada vez mais segura, mais moderna, com maior capacidade de atender o mercado brasileiro. Eu não penso nisso; acho que é uma pergunta para a Petrobras ou para nosso acionista.

A biorrefinaria deve produzir 1 bilhão de litros de combustível sustentável para a aviação (SAF) e diesel renovável. Como vocês vão gerenciar críticas sobre a competição com áreas destinadas à produção de alimentos e evitar a formação de grandes áreas com monocultura?
Eu acho que esse debate não existe da maneira como o nosso projeto está estruturado. Primeiro, é um projeto de longo prazo. Ele está saindo do papel agora, mas está sendo pensado há muito tempo, justamente pela visão de longo prazo do nosso acionista, do Mubadala Capital e do Mubadala Investment Company. Nós entendemos que a melhor maneira de pensar em transição energética não é apostando em uma bala de prata. Talvez, mais do que falar em transição energética, devêssemos pensar mais em adição energética, porque teremos várias possibilidades e não um único caminho. No nosso caso, a gente selecionou a macaúba justamente por se tratar de uma árvore nativa, frutífera, não comestível. Ela não faz parte da cadeia alimentar e pode ser plantada em terras degradadas, em pastos degradados. Ou seja, você não está ocupando uma terra economicamente viável para outras culturas. Nós vamos proteger e aumentar a biodiversidade, estamos falando de florestas grandes e permanentes. Existem árvores de macaúba que estão há mais de 100 anos produzindo no Brasil. É uma planta completamente adaptada e no nosso Agripark, que é o nosso centro de inovação, tecnologia de estudos, em Montes Claros, Minas Gerais, a gente tem feito vários testes porque uma parte do fornecimento da nossa macaúba virá de pequenos agricultores familiares. Acreditamos que é possível combinar macaúba com outras culturas, como café e leguminosas. Tem vários estudos que estamos fazendo. Então, primeiro, não vamos competir por terras altamente produtivas que estariam produzindo alimentos. Ao contrário, vamos recuperar terras que hoje são de baixíssima viabilidade comercial. E vamos plantar florestas permanentes, que vão capturar carbono. Com o tempo a gente vai viabilizar uma integração silvicultural. A gente tem planos e estudos específicos sobre isso.

O que vocês farão para chegar a 20% do fornecimento oriundo de agricultores familiares?
A gente vai formá-los, capacitá-los. Vamos organizar tudo de maneira que eles tenham acesso a crédito, fornecer sementes e mudas a partir da nossa fábrica. Eles terão assistência técnica e treinamento porque, no caso dos combustíveis renováveis, a certificação da floresta, da terra, da fazenda, é importante. A rastreabilidade e a segurança da cadeia inteira tem que ser muito bem-feita. Para nós é muito importante ter a documentação completa de que nada foi desmatado, de que as técnicas agrícolas são as mais sustentáveis, que quando chegar lá na ponta, em qualquer lugar do mundo, um combustível, um SAF, seja possível verificar que toda a cadeia é sustentável.

É mais complexo que refinar petróleo?
Trabalhar com o petróleo é muito mais fácil, e o desafio está justamente na macaúba. Mas, quando eu começar a entregar o óleo de macaúba na entrada da biorrefinaria, tudo fica mais simples. Tudo funciona interligado. Toda a parte ligada ao agro e ao agricultor familiar vai demandar muito cuidado da gente, mas o potencial é enorme. País nenhum consegue replicar o potencial agrícola que a gente tem. Construir uma biorrefinaria em qualquer lugar do mundo é fácil, mas que matéria-prima você vai usar? Como é que você tem certeza de que ela é renovável? Qual é a competitividade dela? A longo prazo tem que ser supercompetitivo, ter custo baixo. Vai continuar sendo um mercado de commodity mundial, então, no final, o custo é muito importante.

Gostaria de falar sobre o papel do Agripark. Vocês divulgaram que saíram de uma taxa de germinação da semente de macaúba de 3% para 85%. Quais são os próximos desafios tecnológicos?
Na natureza, a taxa é de 3%. Se fosse maior, o Brasil estaria coberto de macaúba. A gente já conseguiu chegar a 85%, usando um braço robótico, com seleção natural e outras técnicas. Como toda a planta, a gente ainda está conhecendo e aprendendo.

Transformar uma planta nativa e extrativista numa cultura agrícola de alta performance é difícil.
A gente hoje tem várias frentes de pesquisa. A primeira é justamente a seleção do melhor material genético. Tem a parte de clonagem, para encontrar uma variedade altamente produtiva e ter baixa variabilidade. Estamos testando também vários protocolos para determinar qual seria o melhor regime alimentar, vamos dizer assim, para produzir melhor. Temos parceria com o Califa Center de Abu Dhabi. Eles fizeram um programa muito interessante com tâmaras que pode ser replicado para a macaúba. Eles aceleraram o tempo de colheita. Já pensou se a gente conseguir fazer isso aqui?

Vocês querem acabar com o ditado que diz que quem planta tâmara não colhe tâmara.
Eles já conseguiram e, se a gente conseguir reduzir tempos de plantio e colheita, será um salto fenomenal. Mas a agricultura brasileira tem tanto case de sucesso que a gente só vai ser mais um. O mais importante é que os impactos não serão apenas financeiros. A gente falou muito dos cinco anos da refinaria, dos três anos do Acelen Acender, acho que a gente teve um impacto muito positivo com as comunidades no entorno da refinaria. Vamos levar essa cultura de cuidado para onde formos. As primeiras fazendas estão ali do lado de Cachoeira e estamos começando a trabalhar com as comunidades tradicionais. As melhores práticas têm que se aplicar a tudo o que a gente faz.

O programa do Combustível do Futuro foi regulamentado recentemente. Qual é a importância dele para o desenvolvimento da cadeia de biocombustíveis? Falta algo ainda, do ponto de vista de arcabouço institucional e de fomento?
A lei do Combustível do Futuro foi um passo essencial, mas acho que ainda falta muito. Tem outros países que estão mais avançados. A regulação do mercado de crédito carbono pode ficar mais clara. Acho que também podemos criar condições melhores para atrair investimentos. O Brasil é por excelência o país que pode estar à frente dessa questão, porque temos terra, sol e competência. Temos tudo.

Como vocês encaram a possibilidade de outras rotas tecnológicas, como a do hidrogênio, acessar incentivos específicos, como é o caso do Rehidro, e competir com a produção a partir do agro?
Eu acho que a tecnologia do hidrogênio ainda está muito longe de você ter a viabilidade econômica que a gente já tem com a nossa rota. Acredito que teremos várias rotas, nós escolhemos a nossa. A planta da nossa biorrefinaria tem uma enorme unidade de pré-tratamento que nos permite processar vários tipos de óleo, além da macaúba. Vai desde o óleo de soja, de milho, gordura animal e óleo de cozinha reciclado. Se amanhã aparecer uma outra opção de óleo vegetal ou reciclado, terei a possibilidade de usar também, desde que sejam sustentáveis e competitivos. Agora eu acho que a rota do hidrogênio ainda deve levar alguns anos até ter maturidade e viabilidade econômica. Mas, no futuro, se houver oportunidade, iremos olhar com carinho, como sempre.

Você acha que existe um risco de o Brasil se tornar apenas um exportador de óleo bruto, seja de macaúba, ou de qualquer outra origem? Outra coisa: vocês enxergam outras oportunidades industriais para a macaúba, ou vão focar na produção do óleo?
Vamos lá, são duas excelentes perguntas. Primeiro, o nosso projeto é mais competitivo porque vai ser integrado. Se amanhã a gente demonstrar o case de sucesso da macaúba, talvez outros empresários e investidores se interessem. Acho que isso faz parte, mas o valor justamente dessa cadeia não vai estar em transformar o combustível, estará na cadeia produtiva. Quanto à segunda pergunta, a macaúba é 95% energia, mas tem também uma lista de coprodutos muito interessantes. Tem um óleo da polpa que pode ir para cosméticos. Pode ser usada para produzir um biocarvão, vamos chamar assim. Temos um grupo de pessoas fora de série olhando para essas aplicações. O índice calorífico do biocarvão dela é de altíssimo, melhor do que um cavaco de madeira. Com o tempo nós vamos desenvolver óleo de pirólise. Mas eu tento às vezes segurar o meu pessoal, para manter focado. Meu primeiro desafio aqui, o que eu prometi para os meus investidores e para os meus financiadores foi: “Eu vou fazer SAF e diesel normal”. Outras coisas vão aparecendo no meio do caminho. Essa é a beleza da química natural. Um ponto que eu gostaria de voltar, você deve ter visto quem são os nossos financiadores: Banco Mundial, BNDES. Então, todas as suas perguntas sobre sustentabilidade, cadeia alimentar, monocultura, impacto socioambiental, esse pessoal fez, foi uma verdadeira varredura. A peneira é superfina. Se a gente passou, é porque realmente o projeto é sólido nos seus aspectos de ESG (responsabilidade ambiental, social e de gestão). Nunca passei por uma peneira tão fina na minha vida.

A Acelen é uma empresa de petróleo que tem um projeto de biocombustíveis ou é uma empresa de energia renovável que possui uma refinaria de petróleo?
A Acelen é uma empresa de energia que entrou no mercado pelo refino. Mas eu quero lembrar que a Acelen Renovável nasceu na primeira reunião do conselho, comigo sendo provocado pelos acionistas: “Luiz, a gente já tem energia do século XX”. Eu acho eles têm razão, nada é mais século XX do que uma refinaria de petróleo, é um dos símbolos do século XX. Nossos acionistas projetam cinco módulos de investimentos em biocombustíveis, este da macaúba é apenas o primeiro deles. Então, eu diria que a Refinaria de Mataripe nos permitiu a nossa entrada no mercado de energia para daí crescer para as novas energias. Agora, nós estamos trabalhando para fornecer a energia do século XXI e isto é algo que me deixa pessoalmente muito animado.

Você vem do mercado de energia renovável, não é?
Eu fui da Braskem durante parte de minha carreira; eu diria que sou da química. Por toda a minha carreira, atuei com química fina, química de inovação e tecnologia. Há 20 anos, eu lancei o pneu verde, que tinha compostos químicos na borracha que reduziam a resistência ao rolamento do carro em 20%. Isso economizava combustível e foi um sucesso tremendo. Michelin, Pirelli, Firestone, várias empresas adotaram. Na Braskem, a gente lançou o plástico verde, que era o polietileno feito de etanol. Depois eu fui para o etanol durante sete anos, fui fazendeiro, tinha 500 mil hectares de cana-de-açúcar.

Então, agora está voltando a ser fazendeiro?
Já fui o maior produtor de bioeletricidade do Brasil, na Atvos, que hoje pertence ao Mubadala. A Acelen é uma empresa de energia diferente.

Por: Donaldson Gomes | Fonte: Correio (BA) 

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