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Do frenesi do etanol de milho à promessa do B16, setor de biocombustíveis mantém o pé no acelerador

Maria Reis por Maria Reis
7 janeiro, 2026
em Biocombustíveis
Tempo de leitura: 9 minutos
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Home Bioenergia Biocombustíveis
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Depois de um 2025 marcado pela entrada em vigor da Lei do Combustível do Futuro, setor chega a 2026 com mais previsibilidade, novos projetos na mesa e horizonte promissor para os próximos anos, com a chegada de SAF e biometano

2025 foi um ano marcante para o setor de biocombustíveis no Brasil. Para muitos, o saldo dos últimos 12 meses foi positivo, marcado pelo primeiro aniversário da lei do Combustível do Futuro, em outubro, pela realização da COP 30, em Belém, pelo aumento de mistura de biocombustíveis à gasolina e também pelo anúncio de vários projetos de usinas de etanol de milho espalhadas pelo Brasil.

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O ano que se encerra deixa a sensação de que a substituição gradual dos combustíveis fósseis por alternativas renováveis passou a ser encarada como política pública, trazendo resultados palpáveis para o setor, que agora espera em 2026 que estes avanços continuem – embora pairem no ar dúvidas sobre a capacidade de implementação por parte de empresas e governo.

“E (essa política pública) não foi um legado somente de 2025. É o resultado de toda uma evolução, que o Brasil pôde demonstrar especialmente na COP 30”, resume Julio Cesar Minelli, diretor superintendente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (Aprobio), em entrevista ao AgFeed.

O fato de uma legislação como a do Combustível do Futuro ter entrado efetivamente em vigor contribuiu para dar previsibilidade a um setor historicamente marcado por idas e vindas regulatórias.

Ao estabelecer metas claras de descarbonização e sinalizar, ainda que com ajustes ao longo do caminho, uma trajetória de aumento no uso de biocombustíveis nos próximos anos, a política ajudou a destravar investimentos e a reorganizar estratégia.

Os resultados mais visíveis aparecem na cadeia do biodiesel, que vinha há anos sofrendo com a queda de mistura do biocombustível na gasolina e, agora, vê o percentual crescer.

Isso não quer dizer que 2025 tenha sido um ano livre de sobressaltos para o setor. Isso porque a lei previa que a mistura obrigatória do biodiesel no diesel avançasse de 14% para 15% já em março, reforçando a demanda por matéria-prima e ampliando o espaço para a indústria nacional.

O cronograma, porém, acabou sendo revisto. Isso porque, no início de 2025, o governo federal passou a enfrentar forte pressão da opinião pública diante da revoada dos preços dos alimentos da cesta básica.

Havia, dentro do próprio Executivo, o receio de que uma maior demanda por óleo de soja, importante insumo do biodiesel, pudesse se traduzir em mais pressão inflacionária no curto prazo.

A decisão do governo foi de segurar o aumento da mistura naquele momento. O avanço para o B15 só foi autorizado em agosto, após meses de debate interno e de negociações com o setor produtivo, sob coordenação de instâncias como o Ministério de Minas e Energia e deliberação no Conselho Nacional de Política Energética.

O cenário não é diferente em relação ao B16. O cronograma inicial da Lei do Combustível do Futuro indica a elevação da mistura de biodiesel a partir de março deste ano, mas é pouco provável que aconteça nesse prazo.

Mesmo com ajustes nas datas, o movimento teve impacto relevante nos principais players do setor, motivando as empresas a desengavetar planos de investimentos.

O faturamento da gaúcha Be8, de Passo Fundo (RS), por exemplo, deve ultrapassar R$ 11 bilhões em 2025, beneficiada pelo Combustível do Futuro, alta de cerca de 50% em relação a 2024.

Dinâmica semelhante vive a Binatural, de Formosa (GO). A empresa projetava um crescimento de cerca de 7% no faturamento ao longo do ano, alcançando cerca de R$ 2,8 bilhões em 2025, beneficiada pelo aumento da mistura obrigatória e pela recomposição da demanda no segundo semestre.

O aumento da mistura motivou as empresas a fazerem aportes nas indústrias. A companhia goiana, por exemplo, está investindo R$ 100 milhões a mais neste ano para adicionar 100 milhões de litros a mais à sua capacidade produtiva, alcançando 700 milhões de litros até 2027.

Já a gaúcha anunciou a ampliação de uma planta que tinha comprado da Biopar no ano passado, em Floriano (PI), além de uma nova unidade industrial na cidade e da compra de outra usina de biodiesel, em Alto Araguaia (MT).

Etanol de milho

Se no biodiesel o movimento agora é de consolidação a partir da nova legislação de incentivo aos biocombustíveis, o etanol de milho continua sendo alvo de um verdadeiro boom de projetos em diferentes regiões do país, com ritmo acelerado de anúncios de novas usinas ao longo de todo o ano de 2025.

Hoje, o Brasil conta com 24 usinas de etanol de milho em operação. Além disso, outros 16 projetos já possuem autorização para construção concedida pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, enquanto outras 16 unidades ainda se encontram em fase de projeto, segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem).

Os números de usinas operando e unidades ativas deve crescer ao longo de 2026, quando grandes players do setor como FS e Inpasa, além da cooperativa de produção Coamo, a maior do Brasil, devem iniciar a operação de novas usinas de etanol de milho que estão sendo erguidas no momento.

A Inpasa, em especial, líder de mercado, anunciou vários projetos neste ano para ampliar ainda mais sua presença.

Recentemente, a companhia liderada por Eder Odvar Lopes anunciou que vai construir uma planta em Rondonópolis (MT) capaz de processar anualmente 2 milhões de toneladas de milho, resultando em 1 bilhão de litros de etanol, 490 mil toneladas de DDGS e 47 mil toneladas de óleo.

Inicialmente, a Inpasa ia executar este projeto com a Amaggi, uma das maiores tradings de grãos do Brasil, e chegou a anunciar a operação em conjunto em agosto deste ano.

A parceria, no entanto, não durou muito. Dois meses depois, as duas empresas anunciaram que iriam encerrar o acordo por divergências sobre governança – sem dar mais detalhes do que exatamente motivou o distrato.

O projeto em Mato Grosso se soma a outro anunciado também neste ano em Goiás. A Inpasa pretende instalar, na cidade de Rio Verde, uma das maiores produtoras de milho do Brasil, sua primeira planta no estado, que deve ficar pronta até o fim de 2026, e vai exigir um investimento de R$ 2,4 bilhões.

A unidade deve produzir localmente 1 bilhão de litros de etanol anidro e hidratado, além de mais de 450 mil toneladas de DDGS, subproduto gerado no processo produtivo de fabricação do biocombustível e que é destinado para nutrição animal, e 47 mil toneladas de óleo de milho por ano.

Assim, a companhia deve chegar a 2026 com quatro projetos em fase de implantação: uma usina em Luís Eduardo Magalhães (BA), que deve entrar em operação no início do ano, as plantas de Rio Verde e Rondonópolis, e ainda uma ampliação de sua unidade em Nova Mutum (MT). Quando concluídos, os projetos elevarão em 50% a capacidade de produção da Inpasa, passando a 8,6 bilhões de litros ao ano.

Além das empresas já estabelecidas, gigantes passam a se somar a projetos de etanol de milho. É o caso, por exemplo, da Cargill, que informou em primeira mão ao AgFeed, em agosto passado, que investirá na produção de biocombustível a partir do cereal em uma usina anexa à unidade onde processa cana-de-açúcar em Cachoeira Dourada (GO).

A Coamo, por sua vez, se prepara para inaugurar sua usina de etanol de milho no segundo semestre de 2026, com capacidade de produzir 765 milhões de litros etanol hidratado por dia, 510 toneladas de DDGS (farelo de milho) e cerca de 37,4 toneladas de óleo diariamente.

O que vem em 2026

O próximo passo da lei do Combustível do Futuro é o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, dos atuais 15% para 16%, o chamado B16, previsto para acontecer em março.

A transição, no entanto, pode não acontecer na data esperada. Para Julio César Minelli, superintendente da Aprobio, a própria legislação condiciona qualquer avanço no mandato à comprovação de viabilidade técnica, uma exigência que, na avaliação do setor, ganhou contornos mais rígidos do que o necessário.

“O Ministério de Minas e Energia colocou uma série de testes que a gente acha que, para o B16, não seriam necessários”, diz. “Estamos conversando com o MME porque, com certeza, nós não conseguiremos cumprir o cronograma de testes para que se avance, já em 1º de março, para B16.”

O dirigente defende que seja mantida a previsibilidade nos aumentos. “O setor não está aqui pensando em passar de 15% para 20% (de nível de mistura). Ele quer ir a 15%, 16%, ou seja, crescendo aos poucos e com previsibilidade”, avalia Minelli.

No etanol, a crescente oferta de biocombustível produzido a partir do milho deve continuar seguindo sua trajetória de evolução.

“Do ponto de vista econômico, esses projetos se viabilizam, e há uma oferta muito grande de milho à disposição do mercado”, avalia Bruno Alves, diretor de assuntos públicos do Instituto Meridiana, think tank de inteligência política.

Alves avalia que o etanol de milho passa por um momento semelhante ao frenesi vivido pelos usineiros de cana há algumas décadas, quando o etanol ganhou força.

“Lá atrás, quando havia espaço para a expansão da cana, houve uma verdadeira corrida por instalação de unidades dentro de áreas que fossem suficientemente vantajosas para você ter esse tipo de cultura. No caso do milho, a mesma coisa está acontecendo”, compara.

A vantagem, para Alves, é que as principais companhias que estão anunciando investimentos estão bem capitalizadas para executar os projetos, ou seja, a expansão está acontecendo de forma equilibrada.

“Grupos como Inpasa, FS, Comigo, 3tentos não estão alavancados, estão estão olhando com uma perspectiva de longo prazo e, no final das contas, os contratos continuam vantajosos sob o ponto de vista de aquisição do milho”, diz.

Na cana, expectativa com SAF

Já no etanol de cana, o nível de produção recuou na safra 2025/2026, alcançando 24,1 bilhões de litros produzidos, queda de 10,1% em relação à safra anterior, segundo dados da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) compilados pelo Itaú BBA. A safra foi menos produtiva e também houve uma preferência por um mix mais açucareiro.

O banco de investimentos projeta que o cenário da safra 2026/2027 será diferente, no entanto, com aumento na produção de etanol de cana.

A estimativa da instituição é de que a produção de etanol cresça 9,6% ao longo do próximo ciclo em relação à safra anterior, totalizando 36,8 bilhões de litros.

Destes, 26,1 bilhões correspondem ao etanol de cana (alta de 8,4%) e 10,8 bilhões de litros ao etanol de milho (alta de 12,6%).

Por: Italo Bertão Filho | Fonte: AGFeed

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